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De Serrinha a Santo Eduardo: a Campos que você não conhece

Moradores de regiões afastadas da área central contam como é a vida de norte a sul do município

Campos
Por Redação
25 de março de 2018 - 0h01

O maior município, em extensão territorial, de todo o Estado do Rio de Janeiro. Esse é Campos dos Goytacazes, área que compreende as mais diversas topografias que se possa imaginar. São 4.026,696 quilômetros quadrados que abrangem baixada, elevação, litoral, serra e metrópole; espaço em que também se cruzam duas importantes rodovias federais e outras tantas estaduais. Diante de tamanha heterogeneidade cultural, social e econômica, é estranho pensar que a maior parte da população que aqui reside desconhece ou ignora esse fato. Mas, ao ouvir os depoimentos de moradores de algumas localidades, constata-se a realidade: o campista não compreende a dimensão de Campos.

Em homenagem ao aniversário de elevação à categoria de cidade — episódio comemorado no dia 28 de março — a equipe de reportagem do Jornal Terceira Via volta os olhos aos “relegados”, àqueles locais que, exceto os frutos dali, poucos lembram que existem; mas se mantém, mesmo perante as adversidades comuns aos que estão a mais de 10 quilômetros da área central. O jornalismo procurou os moradores de Santo Eduardo, Guandu, Mata da Cruz, Serrinha e Tocos, e esses foram unânimes ao afirmar que são muitos os desafios de viver fora do eixo.

Moradores de localidades distantes falam dos desafios (Arte: Elton Nunes)

 

Santo Eduardo

Situado a aproximadamente 80 km do Centro de Campos, o distrito fica tão longe da cidade a que pertence, que mais parece pertencer a outra. Para se ter uma ideia, é mais fácil resolver as pendências em Bom Jesus do Itabapoana, que na sede campista. O fotógrafo Lenilson Werneck vive em Santo Eduardo desde que nasceu e, para ele, hoje, o maior desafio de morar no distrito é a missão despendida para pagar contar e/ou realizar demais trâmites financeiros.

Até o final do ano passado, o local possuía uma agência dos Correios que também funcionava como correspondente bancário. Mas a agência fechou e a população precisa agora se locomover até o Centro ou Bom Jesus para resolver toda e qualquer questão relacionada a dinheiro. “Esse problema ainda reflete na economia, porque a população está deixando de comprar no comércio local”, criticou Lenilson. Questionado se gostava ou não de morar ali, ele foi categórico: “há mais desvantagens que benefícios”, concluiu.

Guandu

Essa localidade pertence ao distrito de Travessão e fica a 20 km da área central. Pequenina e escondida, Guandu reserva uma tranquilidade incomum para os padrões de Campos. Tanto que a funcionária pública Tayana Arêas, grávida de nove meses, não hesitou ao afirmar que é ali que quer criar o seu filho. Mas não é só de calmaria que se faz a localidade. São muitas as dificuldades vivenciadas pela população desse lugar, tantas vezes esquecido.

Tayana, que estudou e trabalhou por seis anos na sede do município, contou que é a carência do transporte o alvo principal das reclamações. Ela disse que os moradores chegam a esperar quatro horas por uma condução. “Às vezes, para evitar transtornos, vamos até a pista, perigosa, para aguardar alguma van que, por acaso, possa passar por ali”, relatou. No entanto, as intempéries, para ela, não desqualificam a localidade. “Vou retornar aos estudos assim que o meu bebê estiver maiorzinho e não me intimido. Sei que enfrentarei alguns obstáculos, mas foi aqui que eu nasci, cresci e pretendo continuar”, anunciou a jovem.

Serrinha

O 15º Distrito de Campos fica a quase 60 km da área central. Situado às margens da BR-101 e com inúmeras propriedades rurais, Serrinha vive hoje um dilema que tira o sono dos moradores: a criminalidade. Mesmo com características interioranas, o distrito também foi tomado pelo tráfico de drogas e, para piorar a situação, o Destacamento de Policiamento Ostensivo (DPO) da localidade está fechado, mesmo após a população ter se prontificado a reformar — com as próprias mãos! — a viatura da Polícia Militar (PM) que atendia o lugar. “Os traficantes se sentem livres aqui, uma vez que não há quem os reprima”, denunciou o comerciante José Carlos Azevedo. Outro problema vivenciado pelos moradores de Serrinha seria, por exemplo, a falta de manutenção das estradas vicinais (entre elas a RJ-180), que dificulta o escoamento da produção rural e até mesmo a locomoção. “Infelizmente nossos governantes estaduais e municipais não veem que o futuro está no agronegócio”, declarou.

Tocos

Entre as localidades e distritos aqui citados, Tocos é o mais próximo do Centro, mas também abarca peculiaridades que os cidadãos da metrópole podem não compreender, como a carência de um mísero caixa eletrônico, por exemplo. Localizado na Baixada Campista, essas características típicas do interior podem ser interpretadas de modo positivo ou negativo. Para o professor, Luiz Augusto Bernardo de Souza, a vantagem de morar em Tocos é não precisar conviver com o “caos da cidade grande”, o que contribui para a tranquilidade emocional.

Quanto aos desafios, o professor destaca alguns: “Ficamos horas e horas à mercê de um ônibus ou de uma van que, quando vêm, ficam sempre abarrotados. E para piorar, para tirar dinheiro ou pagar contas, precisamos ir até Goitacazes e, para isso, precisamos do transporte”, comentou. Mas esses problemas não apagam a esperança dos moradores dali: “Sonhamos e acreditamos que dias melhores virão”, concluiu Luiz Augusto.

Mata da Cruz

Imagine um lugar em que não há, sequer, uma farmácia. Esse é Mata da Cruz, vilarejo histórico, desbravado ainda no período colonial. Para chegar até lá, saindo do Centro, leva-se mais de duas horas; é tanto chão que as crianças e adolescentes preferem estudar em Italva, município mais próximo, a uma hora de distância.

Contudo o isolamento tem suas vantagens: Mata da Cruz é rodeado pela natureza e ainda preserva a cultura do cooperativismo. Tanto que a reforma da capela do lugar é assunto que diz respeito a todos que vivem ali. O servidor Edimar Pereira Barreto, contou como é a rotina dos “mata da cruzenses”. “Por não termos uma farmácia, por exemplo, fazemos encomendas de remédios ao único comerciante da vila. Os moradores se ajudam; aqueles que têm carro levam todos os outros até a cidade. Também somos orgulhosos da nossa cultura e a nossa política ainda é muito forte; temos consciência dos nossos direitos e lutamos por eles, mesmo diante daqueles que não sabem que nós e/ou o nosso lugar existimos”, concluiu.

 

RESPOSTA DA PREFEITURA DE CAMPOS

A Prefeitura de Campos vem desde o início do ano de 2017 reestruturando os equipamentos encontrados e buscando novos mecanismos para democratizar o acesso da população aos serviços, sempre levando em consideração as demandas e potencialidades de cada região no município. Ações, principalmente de incentivo à agricultura — potencial segmento da economia no município — vem sendo realizadas ou estão programadas para locais como Santo Eduardo, Serrinha, Tocos, Guandu e Mata da Cruz – locais que dispõem de unidades escolares e unidades de saúde sejam elas UBS (Unidade Básica de Saúde), UPH (Unidade Pré-Hospitalar) ou UBSF (Unidade Básica de Saúde da Família). Os locais vêm recebendo acompanhamento de órgãos do município para que sejam implantadas ações direcionadas. A secretaria de Infraestrutura e Mobilidade Urbana, por exemplo, realiza levantamento de pontos como estradas e pontes – principalmente após as fortes chuvas – para ação de facilitação do escoamento de produção local, além da superintendência de Agricultura – que já vem realizando atividades como limpeza de canais, encaminhamento de maquinário direcionado aos pequenos e médios produtores e promoção de melhorias para o escoamento de produção, entre outros.

A “Caravana Campos para Além dos Royalties” levou novidades para os produtores rurais de Santo Eduardo, além de Santa Maria e Espírito Santinho. Na ocasião foi assinado o primeiro contrato do Fundecam Agricultura Familiar e também foi realizada uma reunião para a implantação do projeto Tomatec, que incentiva o cultivo sustentável de tomate. Durante o “Caravana Campos para Além dos Royalties” são apresentadas opções de fomento à agricultura em todo o município. Lá foi assinado o primeiro contrato da história do Fundo de Desenvolvimento do Município de Campos -Fundecam neste setor (https://www.campos.rj.gov.br/exibirNoticia.php?id_noticia=42499). A equipe do Fundecam já havia estado no local, também, para divulgação do Fundecam Empreendedor, oferecendo informações sobre política de fornecimento de créditos e caminhos para uma nova dinâmica aos negócios. A superintendência de Agricultura e Pecuária também vem buscando o incentivo aos produtores de Santo Eduardo, como o encaminhamento de maquinário para auxílio na preparação de terra para cultivo.

Paralelo às ações de incentivo à economia, anda a conscientização na área da Saúde, dentre elas, campanhas de prevenção realizadas juntos à comunidade como no Outubro Rosa, Novembro Azul – na unidade de saúde do local – além do setor de Vigilância em Saúde atingir a meta de 70% de pessoas vacinadas contra a febre amarela no distrito de Santo Eduardo, que faz divisa com áreas de risco de contágio da doença no Espírito Santo.Idealizado pela Secretaria municipal de Desenvolvimento Ambiental, o programa “Nascente” teve a sua primeira ação em uma propriedade em Mata da Cruz, no distrito de Santa Maria. Com o objetivo de reflorestamento para a recuperação das nascentes, cerca de 40 mudas foram plantadas. A secretaria pretende estender o projeto para mais propriedades. A superintendência de Agricultura também pretende levar maquinário ao local para auxílio ao plantio, pelos pequenos e médios produtores na região de Mata da Cruz.

Uma das localidades que receberam equipes para participação presencial do Orçamento Participativo foi Serrinha. Audiências públicas aconteceram neste local para que, através do Orçamento Participativo, houvesse a elaboração conjunta para formulação do Plano Plurianual (PPA). O PPA é uma importante peça de planejamento que se transforma em lei e orienta os gestores públicos na execução dos gastos e na aplicação dos investimentos. Além destas, aconteceram outras 22 audiências distritais sobre o Orçamento Participativo no município. No total, cerca de 2,6 mil munícipes deram a sua contribuição para esta iniciativa pioneira no Estado do Rio de Janeiro, através do link no Portal da Prefeitura de Campos e durante as audiências públicas realizadas nas diversas localidades. O distrito de Serrinha também recebeu equipes da secretaria de Saúde, como da Vigilância em Saúde – para bloqueio vacinal contra a febre amarela – ações de promoção à saúde da mulher, além de uma nova sede da Escola Municipal Alfredo Vieira Machado, recebida da Autopista Fluminense- concessionária responsável pela duplicação da BR-101. A sede anterior ficava à margem da rodovia e numa área desapropriada para construção da nova pista. Em Morangaba, a superintendência de Agricultura informa que vem mantendo contato com representantes da Escola de Campo para que, logo que vier a minimizar os efeitos da chuva, o qual a superintendência vem buscando prestar apoio – através também de maquinário – promova a distribuição de sementes para replantio nestes locais, que acontece geralmente após o mês de março. Em novembro do ano passado, representantes da Superintendência de Pesca e Aquicultura e da Superintendência de Planejamento visitaram o distrito de Morangaba e lotes do Assentamento da antiga Usina Novo Horizonte. Segundo a superintendência de Planejamento, o objetivo da visita foi tratar da implantação de módulos de produção por aquicultura em pequenas propriedades da região. Durante a visita, foram tratadas, também, questões relacionadas ao encadeamento produtivo, em especial, da cadeia leiteira, para garantir maior valor agregado por meio de produtos oriundos do leite, como manteiga e queijo – criando condições para diversificar a economia local e aumentar a renda dos produtores

Para auxílio aos produtores rurais de Tocos, a superintendência de Agricultura realizou limpezas de importantes canais que auxiliam na irrigação da produção local, como Canal Caxexo e Canal do Pensamento. Estão previstas, ainda, limpezas da Vala do Mato e Canal do Jenipapo. O superintendente de Agricultura e Pecuária, Nildo Cardoso, explicou que a inauguração da Feira da Roça, em Goitacazes, também é um importante instrumento de escoamento de produção dos agricultores de São Martinho, assim como de toda a região da Baixada. Na área da Saúde, o local conta com um polo que reúne diversas ações, através da Unidade Básica de Saúde da Família (UBSF). Uma importante ação da Prefeitura de Campos é a Chamada Pública da Agricultura Familiar, através da Secretaria de Educação, que visa a aquisição de dezenas de itens de gêneros alimentícios (hortifruti e polpa de frutas) para a merenda escolar, a partir da produção local, contemplando os pequenos produtores do município. Para contemplar todas as regiões, o município foi dividido em lotes a partir da vocação de cada localidade.

Chamada da Agricultura Familiar para merenda – A secretaria municipal de Educação, Cultura e Esporte (Smece) republicou no Diário Oficial, no início deste mês, o aviso da II Chamada Pública da Agricultura Familiar, a primeira do ano, para aquisição de gêneros alimentícios (hortifruti e polpa de frutas) para a merenda escolar. Os interessados em participar têm até o dia 9 de abril para entrega da documentação e projeto de venda no setor de Licitações, na sede da prefeitura. A documentação será aberta no dia 9 de abril, às 10h.

O modelo de chamada, implementado pelo governo Rafael Diniz, já fez com que o setor economizasse cerca de R$ 3 milhões de reais, comparando com a última realizada em 2016, quando o governo anterior adquiriu alimentos da região Sul do país. Para tornar a Chamada mais acessível ao produtor local, no ano passado, o departamento de Nutrição da Smece reuniu agricultores do município e explicou como seria o modelo, quais gêneros seriam adquiridos e em qual quantidade para que, deste modo, eles pudessem se organizar.

O edital poderá ser acessado no site da prefeitura, no campo de “licitação”, adquirido, mediante requerimento, na sede da administração pública ou no departamento de Nutrição Escolar, situado à Avenida XV de Novembro, 70 – Caju, em dias úteis das 9h às 12h e das 14h às 17h.

Transporte – O sistema de transporte coletivo está passando por um processo de reestruturação e, nos últimos dias, o atendimento à população, por exemplo, da Baixada Campista vem evoluindo, segundo o Instituto Municipal de Trânsito e Transporte (IMTT) . É importante deixar em destaque que qualquer tipo de denúncia, com relação a irregularidades no transporte público, é necessário que a população faça a denúncia diretamente ao órgão municipal, localizado à Rua Barão da Lagoa Dourada, 197, ou através do telefone 98175 1160.

Em algumas localidades, secretaria de Infraestrutura e Mobilidade Urbana vem fazendo o levantamento para melhoria de acesso às estradas para que possa ser facilitada a passagem de veículos do transporte público e o IMTT também vêm tomando medidas junto às empresas concessionárias para melhoria no atendimento, principalmente, nos horários de pico.