

Chegou ao fim a história do Edifício Itu, na rua 13 de Maio, em Campos. A demolição de um dos prédios mais emblemáticos do Centro da cidade foi concluída neste mês, pondo fim a quase sete décadas de trajetória e mais de 20 anos de polêmicas. Nos últimos meses, a situação gerou uma série de embates, com brigas judiciais sobre o destino do edifício. Agora, não tem mais volta. Onde ficava o Itu, hoje está apenas um terreno vazio.
As discussões mais recentes começaram há pelo menos 7 meses. Em novembro do ano passado, o anúncio da demolição do primeiro grande prédio construído no Centro da cidade, publicado primeiramente pela Coluna do Balbi, reacendeu o debate sobre o equilíbrio entre estrutura, preservação histórica e responsabilidade pública. No mesmo mês, Conselho de Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural (Coppam) cobrou explicações e acionou o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), alegando que o prédio era tutelado pelo órgão municipal e inserido em uma Área Especial de Interesse Cultural (AEIC), o que impediria qualquer intervenção sem análise prévia do próprio órgão.
A reportagem do J3News apurou à época que a determinação judicial para a demolição ocorreu por risco de desabamento, incluíndo prazo para conclusão. A Prefeitura, por sua vez, afirmou ter sido intimada para garantir a segurança durante o processo, por meio da Defesa Civil e da Secretaria de Obras e Infraestrutura. Responsável pelo prédio, a Enel designou uma empresa de São Paulo especializada em demolições manuais de edificações antigas para fazer os trabalhos. Em matéria publicada pelo J3 no mês de novembro, a apuração dava conta de que inspeções recentes teriam apontado degradação no prédio, como lajes rebaixadas com água acumulada, falta de esquadrias e escadas fora das normas atuais, mas sem risco iminente de colapso. A decisão judicial favorável à demolição também citou dificuldades de adequação ao Código de Segurança contra Incêndio e Pânico (Coscip), criado após a construção do edifício.
Em março de 2026, o Ministério Público se manifestou favoravelmente à interrupção da demolição do Edifício Itu, localizado na Avenida Treze de Maio, em Campos dos Goytacazes. A posição foi adotada pela 2ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva, que pediu a paralisação das obras e o acesso de técnicos ao imóvel para avaliação estrutural e elaboração de um possível projeto de recuperação. No mesmo mês, o J3 noticiou a decisão judicial suspendendo a demolição. Depois, ela voltou a ser feita. Em nota, a Enel declarou que “agiu de acordo com as decisões judiciais expedidas sobre a demolição “.
Décadas de abandono
Projetado pelo renomado arquiteto Joffre Maia, o prédio começou a ser construído pela Incorporadora Itu em 1957. Apenas seis dos dez andares previstos foram concluídos. Desde 2005, uma Ação Civil Pública movida pelo Ministério Público busca solução na Justiça sobre o Edifício Itu. A Incorporadora Itu firmou contrato com as Centrais Elétricas Fluminenses S.A. (CELF), antiga companhia de energia estatal, na década de 1960, para ocupação parcial e finalização das obras. Com a privatização, caberia à concessionária Enel manter o contrato e o edifício reformado e em condições de uso.


Coppam contesta
Membro do Coppam, o arquiteto e urbanista Renato Siqueira relata que quando suspendeu a demolição, a Justiça determinou que fosse feita vistoria e apresentado projeto de reforma/restauração. “Fiz a vistoria e correspondente parecer técnico, com vários questionamentos sobre a validade da demolição e apresentação de argumentos para a reedificação do Edifício Itu. O parecer foi juntado ao processo”, comentou. O J3 consultou o MPRJ sobre a situação, mas não obteve resposta até o fechamento desta reportagem. Ele acrescenta ainda, com observações que fez após realizar a vistoria no prédio:
“Ao longo da demolição, que durou cerca de 70 dias, a preparação para o evento da demolição consistiu em ‘vestir’ a edição com véu de poliéster e isolar trechos afastados no térreo com cones de plástico, sem que houvesse interdição das duas ruas, com grande fluxo de pedestres e veículos, que formam a localização do Edifício Itu. Outro detalhe, é que nos 70 dias da demolição havia máquinas que, no seu peso próprio somam cerca de 25 toneladas, fora o peso dos impactos da demolição, porém, não precipitaram ou confirmaram o suposto risco de desabamento e falência estrutural da edificação. O Edifício Itu foi demolido por pancadas de grande carga sobre a estrutura que, ainda assim, resistiu ao longo de 70 dias e, não justificou meios adicionais de proteção para o brutal evento de demolição, muito menos para o suposto potencial de desabamento espontâneo”, finalizou.