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“Há tempo para tudo”

Por Dr. Diogo Neves

Geral
Por Redação
10 de maio de 2026 - 0h04
Foto: Silvana Rust

Tempo para tudo. Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu: Há tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou, tempo de matar e tempo de curar, tempo de derrubar e tempo de edificar, tempo de chorar e tempo de rir, tempo de prantear e tempo de saltar de alegria, tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntar pedras, tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar, tempo de buscar e tempo de perder, tempo de guardar e tempo de deitar fora, tempo de rasgar e tempo de coser, tempo de estar calado e tempo de falar, tempo de amar e tempo de aborrecer, tempo de guerra e tempo de paz.

Esse texto frequentemente atribuído ao Rei Salomão, filho de Davi e reconhecido como o homem mais sábio que já habitou a terra, poderia facilmente se encaixar na história de vida do nosso homenageado de hoje. Dr. Herbert Sidney Neves, filho primogênito de Haroldo Neves e Demency Freixo Neves, veio a luz no dia 22/04/1947, numa casa localizada na Travessa Alcindor Bessa, próximo ao jardim São Benedito, local que anos depois abrigaria a primeira sede da maternidade Lilia Neves.

Durante quase 10 anos foi filho único e, desde cedo, teve que aprender a se virar sozinho. Logo adolescente, foi matriculado como interno no colégio Nova Friburgo, instituição de ensino de excelência mantida na ocasião pela Fundação Getúlio Vargas, considerado um dos melhores colégios do Brasil à época. Nesse tempo, sem outras responsabilidades que não fosse estudar, começou sua plantação e uma rede de relacionamentos que traz consigo até os dias de hoje. Tenho certeza de que foram bons tempos, pois me lembro ainda pequeno que íamos muito frequentemente a Friburgo e que as visitas ao colégio, já desativado, eram sempre parte do nosso roteiro.

Um pouco mais à frente decidiu que se tornaria médico, ingressando na 1º turma da recém inaugurada Faculdade de Medicina de Campos. Nessa época já começava a demonstrar seu espírito de liderança, se tornando fundador e primeiro líder estudantil do seu diretório acadêmico. Finalizado o curso de medicina foi admitido como residente em clínica médica no então prestigioso Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro, frequentado à época por grandes autoridades, inclusive presidentes. Posteriormente foi aprovado para residência médica em Endocrinologia no Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia, até hoje referência nacional na especialidade. Por todos lugares por onde passou fez grandes amigos, talvez pelo seu jeito inato de encantar, convencer e seduzir. Tais habilidades lhe alçaram a vôos ainda mais altos, sendo recomendado pelos seus professores/amigos para realizar uma pós-graduação em endocrinologia no Hospital John Hopkins em Baltimore, Maryland, Estados Unidos. Essa experiência por si só dispensaria qualquer comentário por se tratar de uma das melhores e mais conceituadas instituições de saúde no mundo. Fazendo uso de suas habilidades, conquistou a simpatia e por que não dizer a amizade de um chinês radicado nos Estados Unidos, o Dr. Shu, simplesmente o chefe da cadeira de endocrinologia da Universidade. Alguns anos depois, esse mesmo Dr. Shu estaria no Brasil curtindo o carnaval em sua companhia.

Finalizado o ciclo acadêmico, decidiu retornar a sua cidade natal onde sonhava ser professor na mesma Faculdade onde havia sido formado. Esqueceu de combinar com os russos… As portas fechadas, inicialmente interpretadas como obstáculo, já era um claro sinal de que Deus tinha planos muito maiores para sua vida. Continuou sua peregrinação, sempre com seu caderno de anotações embaixo do braço, pelas cidades da região disseminando seu conhecimento adquirido durante a vida acadêmica. Durante essa aclimatação, coisas boas começaram a acontecer também. Conheceu o Dr. Lourival Martins Beda, de quem logo se tornou um grande amigo e admirador e dele recebeu todo apoio e incentivo que precisava para fazer decolar sua carreira como médico. Mais a frente começou a falar mais alto seu tino empreendedor e junto de alguns outros médicos e seu pai fundaram em 1975 o Instituto de Medicina Nuclear e Endocrinologia LTDA.

Com o passar dos anos e crescente investimento, alguns sócios foram se desligando até que restassem apenas pai e filho na sociedade. Foram anos de trabalho duro e incansável. Lembro-me ainda criança e no início da adolescência que pouco via meu pai durante os dias da semana. Era o primeiro a sair e o último a chegar em casa. Todo esse esforço para erguer seu maior troféu, o Hospital Dr. Beda, inaugurado em homenagem ao seu grande incentivador no dia 16/09/1993. Lembro-me também dos veraneios em Grussaí, onde quase que diariamente tínhamos casa cheia, sempre na companhia de seu maior amigo Walter Paes, que nós chamávamos carinhosamente de tio Valtinho. Nessa época não era incomum sermos acordados no meio da madrugada com o som de bandas musicais que só Deus sabe de onde saíam. A reboque do Hospital Dr. Beda vieram novas conquistas, como a maternidade Lilia Neves, o plano de saúde ASES, a UTI neonatal, entre vários outros serviços que a essa altura da cerimônia já devem ter sido mencionados. Mas nem tudo foram flores, num dia nublado de domingo, perdemos ao acaso nossa jóia mais preciosa. Foram tempos de choro, desespero e ira. Um passo em falso. Demorou bastante, mas ao mesmo tempo cuidou de abrandar, cicatrizar as feridas e ajudar a aceitar o que não pode ser mudado. Ficou a saudade. Depois de um longo retiro, a vida tinha que continuar e assim seguiu.

Poucos anos depois, seu pai (Haroldo) passou a apresentar problemas graves de saúde que culminaram em sua morte. Mais um desafio estava por vir. Empresa familiar, herdeiros em litígio, atuação parcial e ostensiva do poder judiciário e político, que levaram a uma intervenção judicial com afastamento do sócio majoritário do comando das empresas. Foram tempos de guerra, nove longos meses de batalhas diárias, angústia, incerteza e noites mal dormidas. Literalmente, o fundo do poço. Muitos se afastaram. Outros, acho até que sentiram uma ponta de satisfação. Mas, novamente, Deus nos mostrou a luz no fim do túnel. Lembro-me do meu pai falando que estava disposto a abrir mão de todo o patrimônio que havia construído com seu trabalho a ter que entregar seu maior tesouro: o Hospital Dr. Beda. “Se eu permanecer com o hospital, tenho certeza de que posso reconstruir tudo de novo”, ele falou e assim se realizou. Fim de mais um ciclo.

Logo em seguida vieram os netos, João Pedro, Pedro Henrique, Hugo, Davi, Carlos Eduardo e José Guilherme para encher nossas vidas com tempo de alegria. Também no seu tempo começam a surgir as justas homenagens por uma vida inteira de serviços prestados ao Estado do Rio de Janeiro, principalmente a Campos dos Goytacazes, sua terra natal, a qual elevou a patamares inimagináveis no que tange a medicina de ponta. Resumindo sua história, chego a seguinte conclusão: A vida tem ciclos inevitáveis. Deus está sempre presente e segura nossas mãos. Às vezes, não compreendemos porque temos que passar por certas situações, mas o exercício da esperança nos leva a viver com sabedoria, alegria e confiança. Falo em nome de nossa família: sua esposa, seus filhos e seus netos que todos temos uma admiração e orgulho enorme de você. Você é um vencedor! Antes de me despedir deixo uma frase que até prove-se em contrário lhe pertence: “Pra cima do medo, coragem!”