

Falando de forma objetiva, o título acima traz consigo um ‘erro’ de construção, ao inverter causa e efeito. Afinal, se a causa é o que provoca a ação, o efeito é o que decorre dela, “motivo pelo qual a causa sempre antecede o efeito”.
Todavia, no âmbito que se deseja focalizar, mesmo a melancolia sendo consequência daquilo que regrediu, a questão sentimental ‘autoriza’ a mudança do estado das coisas.
Dizendo de outra maneira, não se cuida aqui da questão econômico-comercial, mas da tristeza de se ver o quarteirão inteiro da 7 de Setembro, entre as ruas Marechal Deodoro (Ouvidor) e Andradas/Carlos Lacerda, parecendo uma rua de cidade fantasma.
Saudosismo e desalento se unem num sentimento só: o de perda. De ver quase todos os prédios fechados – a maioria abandonado. Um deserto urbano repleto de placas de “Vende-se” e “Aluga-se”.
Não há cor, nem vida. Nem gente. Só o cinza do inanimado e desabitado.
Antes – Para qualquer pessoa com mais de 40 anos e um mínimo de sensibilidade, difícil não passar por ali e sentir um certo aperto.
Alfaiataria, escritório de contabilidade e lojas de roupa. O movimentado jornal A Notícia, escritório de advocacia e barbearia. O famoso Bar São Jorge, um supermercado e um pequeno e aconchegante bar.
Armarinho, açougue, consultório médico e um estacionamento que estava sempre cheio sem dar conta de atender à demanda. Os pontos comerciais, quase todos sobrados, com moradia em cima. E muito mais.
Isso, para não falar que a área já abrigou um pequeno terminal urbano, se não me engano (escrevo ‘de cabeça’) onde circulavam os ônibus do ‘Parque Botelho’.
Enfim, trata-se de realidade cruel sem que se veja no horizonte perspectiva de reversão.
No Centro, marasmo é predominante
Não obstante a paisagem daquele trecho da 7 de Setembro seja uma espécie de ‘símbolo’ maior da debilidade, a rigor o Centro como um todo sofre com o desmonte, excetuando algumas partes isoladas.
Constata-se o declínio em boa parte da João Pessoa, da Andradas, da Alberto Torres, da Carlos Lacerda, da Marechal Deodoro, da 21 de Abril e por aí segue.
Muito embora não se cuide aqui do lado econômico-financeiro-comercial, cabe reconhecer que administrações obsoletas – que não acompanharam as tendências inovadoras do mercado e o perfil mais exigente do consumidor – têm seu peso negativo na derrocada.
Por outro lado… Exemplos rigorosamente contrários também não faltam: comerciantes conservadores, que gerenciam nos dias atuais do mesmo modo que há 40 anos, e seguem de vento em popa. Na própria João Pessoa, particularmente no trecho da 13 de Maio no sentido Mercado, uma gama de lojistas não mudaram nada e já passaram para seus filhos a mesma “fórmula” que continua contabilizando expressivo volume de vendas.
Logo, tudo é muito relativo, circunstancial e cada qual tem seu modus operandi.
Projeto Centro 4
Na próxima semana Campos vai estar completando mais um ano de emancipação política, somando 188 de município. Antes, dois séculos do tempo de Vila e coisa e tal, conforme quase todo ano se relembra – o signatário já escreveu umas duas dúzias de matéria sobre o tema – e que só nos aproveita como importante fato histórico.
O que causa espécie está bem mais pertinho: os 20 e poucos anos de repasse de royalties e a má utilização do recurso em infraestrutura de ponta, ambiente de negócio progressista e qualidade de vida.
Há décadas se discute a revitalização do Centro, sendo que as ações – algumas até válidas – não vão além do paliativo. Ainda agora se fala no ‘Projeto Centro 4’. Mas será algo de relevância, de vanguarda, capaz de redimir anos de meros remendos; ou mais do mesmo?
Estaria a a cargo da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do município, dirigida pelo ex-vereador Mauro Silva, a responsabilidade de viabilizar projetos compatíveis com os anos 2023 e com as necessidades de Campos. Mas, é preciso trabalho vigoroso. Afinal, dinheiro tem.
O empresariado
Vez por outra se ouve dizer que a cidade tem uma fatia de lojistas e comerciantes de segmentos diversos pouco comprometidos com iniciativas de ponta. Ora, essa é uma realidade – em menor ou maior escala – que atinge todos os municipios do Brasil. Campos não seria exceção. Só é exceção no volume de dinheiro que recebe do petróleo.
Cada qual tem sua maneira própria de gerir seus negócios. Aliás, já ensina o dito popular: na prática a teoria é outra. Não raro se fala que o Centro não é mais o mesmo por causa da Pelinca – o que não é uma verdade absoluta.
Fosse diferente e não veríamos lojas, restaurantes, bares e outras atividades abrirem e fecharem em 2-3 anos – ou menos. O rodízio de estabelecimentos na área gastronômica é enorme – muitos não passam de seis meses. Por outro lado, o Kantão do Líbano, que há cerca de 40 anos está ali no final da Pelinca, não abre mão dos mesmos critérios de quatro décadas. Só o que fez foi atravessar a rua.
Explicar sucesso e fracasso sem particularizar cada qual é erro predominante que sobrevive camuflado por aparências e falso conhecimento. A Ford, a Toyota, a Volks, a Folha de São Paulo, a Confeitaria Colombo, a Antárctica e tantas outras marcas espalhadas pelo Brasil e mundo afora não mudaram nem mesmo suas logomarcas, muitas das quais mantendo, inclusive, tipologia arcaica.
Enfim, que o setor público – seja de Campos ou de qualquer outro lugar – invista em conhecimento, em qualidade e cumpra seu dever.