

A violência está presente na rotina diária dos brasileiros. Em cidades como Campos dos Goytacazes, alguns crimes podem ganhar mais notoriedade; já outros nem chegam ao conhecimento público. Nas últimas semanas, ações violentas ganharam projeção e causaram espanto na sociedade. Chacina de três jovens em Guarus; tentativas de homicídio como a do prefeito da Uenf; mortes por balas perdidas em Campos e São Francisco; apedrejamentos de veículos cometidos por traficantes na BR-101, no Parque Santa Helena, aparecem nas estatísticas. Para autoridades policiais, o comércio ilegal de drogas impulsiona a violência.
Em 2020, na área do 8º Batalhão de Polícia Militar (Campos, São João da Barra, São Fidélis e São Francisco de Itabapoana), aconteceram 155 homicídios. As tentativas de homicídio chegaram a 173. Os dados são do Instituto de Segurança Pública (ISP). Em 2021, há apenas relatórios disponibilizados de janeiro a abril. Neste período, 70 assassinatos foram registrados. Foram dez crimes a mais, se comparado de janeiro a abril de 2020, que chegou a 60 mortes. As tentativas de homicídio este ano também aumentaram. Foram 77 de janeiro a abril, e 57 em 2020 no mesmo período.


Para Roberto Uchoa, policial federal com especialização em Segurança Pública e mestrado em Sociologia Política, Campos, apesar de ser uma cidade do interior, tem problemas típicos de cidades grandes de regiões metropolitanas, e a disputa de territórios por facções criminosas é um deles.
“A região de Guarus tem se notabilizado nos últimos anos como palco central desses conflitos, que causam muitos homicídios. A atuação das Polícias Militar e Civil tem tido como objetivo amenizar o problema, mas a escassez de recursos humanos e de uma política multissetorial dificulta a ação das forças de segurança”, comenta.


Em Campos, existem alguns territórios demarcados por traficantes de drogas há décadas, como as comunidades Tira-Gosto e Baleeira. Mais recentemente, bairros de Guarus, como Santa Helena, Lebret, Novo Eldorado, Santa Rosa, entre outros, aparecem como cenários de conflitos e tensões envolvendo crimes como homicídios e tentativas de homicídio.
“Não basta o Estado entrar somente com a repressão. Ela é, sim, necessária, mas, ao mesmo tempo, as diferentes esferas governamentais devem atuar principalmente no lado social, levando serviços e instalações de atendimento à população, como creches, unidades de saúde e áreas de lazer. O Estado somente terá o controle real dessas regiões quando resolver atuar efetivamente em prol da população dessas áreas”, analisa Uchoa.
De acordo com o delegado Pedro Emílio Braga, da 146ª Delegacia de Polícia Civil, em Guarus, o número de crimes em 2021 cresceu quando comparado ao mesmo período de 2020.


“A 146ª DP tem tradição em repressão e enfrentamento ao tráfico de drogas e crimes de homicídios. Oitenta por cento dos homicídios decorrem dos confrontos estabelecidos entre facções e diferentes organizações narcotraficantes. A unidade vem trabalhando com bastante afinco no sentido de realizar as prisões necessárias para a manutenção da ordem na circunscrição, em termos de aproveitamento da produtividade investigativa. A gente segue dentre os primeiros lugares da Polícia Civil, considerando o Estado como um todo, e também com muitas prisões. Há várias ações planejadas para este ano”, explica.
Casos de Violência
No último dia 16, um homem foi assassinado a tiros no Parque Santa Helena, em Guarus, por suspeita de envolvimento com tráfico de drogas. O crime aconteceu pela manhã, em frente a uma igreja católica.


No dia 5, Sávio Bryan Rosa Ribeiro, de 20 anos, Marlon Rodrigues Pereira, de 25, e Matheus Fernandes Carvalho, de 25 anos, foram encontrados assassinados às margens da BR-356. Eles moravam próximo ao distrito de Travessão, perto de uma área disputada por traficantes. Não foi confirmado o envolvimento deles com drogas.
No dia 6, motoristas que passavam pela BR-101, próximo ao Parque Santa Helena, foram apedrejados por pessoas ligadas ao tráfico de drogas. Esta ação também aconteceu no local no dia 19 de maio. O motivo seria a prisão de traficantes, de acordo com informação da polícia. No dia 3 de maio, o prefeito da Uenf, Marcelo Viana, escapou de uma tentativa de homicídio na localidade de Martins Lage. Um suspeito do crime foi preso.
No dia 25 de maio, Rosivane Fonseca, de 51 anos, morreu após ser atingida por bala perdida no bairro Novo Eldorado. Em janeiro, em São Francisco de Itabapoana, balas perdidas também atingiram três pessoas em diferentes ocasiões. Duas mulheres sobreviveram e um homem morreu.
Em agosto de 2020, um adolescente e uma mulher foram encontrados decapitados em distintos locais de Guarus. Os crimes foram cometidos por traficantes.
O delegado Pedro Emílio Braga constata que o apedrejamento de carros no Santa Helena foi a reação de manifestantes residentes do bairro Santa Helena a ações de repressões da Polícia Militar. “É importante salientar isto. O fato não tinha um direcionamento voltados a crimes de roubo e funcionou muito mais como manifestação que extrapolou o limite da manifestação de pensamento, e acabou por descambar a atos violentos contra transeuntes”, cita.


Sobre o fato registrado no Santa Helena, segundo o comando do 8º BPM, medidas de reforço de policiamento foram adotadas com o intuito de minimizar os efeitos de disputa territorial entre grupos criminosos. O policiamento ostensivo na região foi intensificado com três viaturas.
Elucidação de crimes


De acordo com o delegado Ronaldo Cavalcante, a 134ª DP é a primeira colocada do Estado do Rio em índice de solução de crimes. “Notadamente no crime de homicídio, desde que nossa equipe chegou em final de setembro, acho que cerca de 80% dos homicídios que ocorreram em nossa área têm autoria certa ou em vias de se identificar”, destaca.
Para Pedro Emílio, da 146ª DP, prioriza-se a apuração dos crimes de homicídios. “É o nicho criminológico que mais afeta a comunidade aqui estabelecida. A gente tem um rígido controle não só das estatísticas, mas também em termos de planejamento estratégico de enfrentamento à essa realidade. Com relação ao percentual de elucidação, a gente trabalha com um dos três mais altos índices de elucidação de crimes do Estado do Rio de Janeiro. São de 50 a 60% dos homicídios e homicídios tentados são resolvidos desde a nossa chega aqui em 2019”, avalia.


Para o delegado da Polícia Federal em Campos dos Goytacazes, Paulo Cassiano, a parceria entre as instituições do sistema de segurança pública é indispensável ao enfrentamento da criminalidade urbana. “Na nossa região, a Polícia Federal mantém um entendimento muito bom com as todas as demais forças policiais. Essa união acaba refletida em diversas operações e em intercâmbio de informações criminais”, afirma.
A assessoria de comunicação da Polícia Rodoviária Federal informou que tem contribuído com outras forças de segurança no combate a crimes na sua área de atuação. Por meio de nota, a PRF diz que reforçou o patrulhamento nos locais com ocorrências de projeção de pedras sobre os veículos, como ocorreu no Santa Helena, em Guarus.
Investimento social
O delegado Ronaldo Cavalcante admite as limitações da Polícia Judiciária quanto à falta de quadros, recursos e plena infraestrutura no combate à criminalidade.
“Não existe receita para se combater homicídios e tráfico de drogas. Há um viés social, já que o tráfico está relacionado intimamente com índice alto de homicídios. Acho que 90% dos homicídios têm a ver com o tráfico. Não há fórmula pré-fabricada de combate a esses delitos. A gente tenta resolver com aquilo que a gente tem”, considera.
Para o especialista em segurança pública Roberto Uchoa, a única forma de diminuir a violência é investir nos jovens.
“Precisamos disputar nossos jovens com o crime. Enquanto não dermos visibilidade e sensação de pertencimento, iremos continuar vendo muitos jovens sendo seduzidos pelo crime, que oferece algo de imediato. Não dá mais para fazer com que os jovens vivam em ambientes violentos, sem estrutura mínima, condições insalubres e com péssima educação e querer que eles acreditem que se fizerem tudo certo terão oportunidades”, conclui.