

Uma ideia simples, alimentada pela curiosidade de um professor de física mostrou para o mundo a importância da ciência produzida em Campos dos Goytacazes. Marcelo de Oliveira Souza, doutor em Cosmologia, professor e pesquisador da Universidade Estadual Norte Fluminense (Uenf) e diretor do Clube de Astronomia Louis Cruls, teve um artigo aceito pela revista Acta Astronautica, uma das mais prestigiadas publicações científicas da área espacial. O trabalho propõe um novo método para traçar rotas interplanetárias usando asteroides como referência e, como consequência, identificou uma trajetória que reduz o tempo total da missão a Marte em quase um terço das estimativas atuais.
Na última semana, a rotina do professor Marcelo teve uma reviravolta com a repercussão do artigo na mídia nacional. Para além dos cálculos orbitais, Marcelo vê nessa atenção ao artigo uma vitória para a ciência feita no interior do Estado. A visibilidade, segundo ele, tem um poder transformador sobre as novas gerações: “Imagina um garoto pensando: será que eu também consigo ter essa repercussão com ciência? Não precisa ser jogador de futebol. Ele pode conseguir isso fazendo pesquisa, descobrindo coisas novas.”
No dia 14 de abril, ele esteve em dois programas da J3TV, o Manhã J3 e o Vox PopCast, detalhando e tirando dúvidas sobre essa pesquisa que teve início de forma casual, em 2015, enquanto analisava catálogos de asteroides com risco de aproximação da Terra. Foi quando identificou o CA21, asteroide cuja trajetória em 2020 passava próximo à Terra e depois à Marte em pouco mais de 30 dias. “Eu comecei a imaginar: a gente dava oito meses para fazer essa viagem. Será que não é possível usar essa trajetória como referência?”, conta.


Janela de 2031
Viagens a Marte só são viáveis durante as oposições, alinhamento que ocorre a cada 26 meses. Marcelo testou as janelas de 2027, 2029 e 2031, mas só a última apresentou resultados compatíveis com a tecnologia atual. “Para 27 e 29, eu até conseguia trajetórias rápidas, mas exigiam velocidades que ainda não temos. Em 31, deu certo: 56 dias para ir, 35 dias de estadia e 135 dias para voltar”, afirma.
O motivo é geométrico, pois as órbitas elípticas fazem com que cada oposição seja única. A configuração de 2031 é a que mais se assemelha à do asteroide CA21 em 2020. “A geometria desses encontros se aproxima. Por isso consegui um bom resultado”, explica. Um detalhe curioso: a versão da órbita usada no estudo já não está mais disponível nos bancos da Nasa, foi substituída por observações mais refinadas. “Se eu não tivesse guardado aqueles dados há dez anos, não conseguiria repetir o trabalho hoje”, comenta.
Avaliação e desafios
O caminho até a aceitação do artigo passou pelo crivo rigoroso da Acta Astronautica. Foram seis meses de avaliação por dois revisores anônimos, especialistas na área. “Não houve questionamento sobre os resultados, mas precisei ajustar a forma de apresentação. A ciência funciona assim: você publica para ser julgado pelos pares”, ressalta.
Marcelo reforça que o ineditismo do trabalho está no método, não apenas na rota encontrada. “Para publicar em qualquer revista científica, precisa ter novidades. E essa é a novidade: usar órbitas de asteroides para fazer viagens rápidas. A solução para 2031 é uma consequência disso”, afirma.