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Entrevista: produtora campista na cena com Walter Salles

Campista é produtora executiva do mais renomado cineasta brasileiro que dirigiu o filme "Central do Brasil"

Entretenimento
Por Redação
21 de fevereiro de 2019 - 17h10

Maria Carlota Fernandes Bruno nasceu em Campos, mas saiu cedo de cena, indo para o Rio de Janeiro. Trabalha com o famoso Cineasta Walter Moreira Salles Júnior, há 21 anos, ou seja, desde quando ele começou. Produtora executiva da VideoFilmes, Maria Carlota é a mão e o braço direito do cineasta e também tem boas ideias na cabeça. Discreta e elegante, raramente fala do seu trabalho reconhecido e respeitado em seu meio profissional. Com mais de duas décadas de trabalho, ela se tornou, por exemplo, amiga de ninguém mais ninguém menos que a atriz Fernanda Montenegro, que foi a protagonista do filme “Central do Brasil”. Sobre Walter Salles, Maria Carlota diz que ele é, antes de tudo, o embaixador do cinema brasileiro. O nível de amizade e confiança entre os dois é tanto que ele chega a quebrar o protocolo da formalidade e o chama de “Waltinho”. Filha de família tradicional de Campos, ela sempre evitou holofotes e flashes preferindo, discretamente, ficar por trás das câmeras.

Você é de uma família tradicional de Campos e não mais que de repente, pelos idos dos anos 80 saiu de cena, para participar nos bastidores das mais belas cenas do cinema brasileiro. Como foi isso?
Na realidade, em 82 passei no vestibular de Letras na PUC e me mudei para Rio. Segui um pouco o caminho dos meus irmãos que também fizeram faculdade aqui. Na PUC fiz bons amigos e um deles me disse que um amigo dele estava procurando uma secretaria executiva bilingue para trabalhar na VideoFilmes. Como eu já estava empregada na Mitsubishi, eu recusei, mas um ano depois, o diretor executivo me contatou novamente e eu decidi largar o trabalho em uma multinacional para me aventurar no mundo do cinema. Acho que foi uma escolha acertada que mudou o curso da minha trajetória profissional. E depois de mais de 20 anos, acompanhando Walter Salles em várias produções, em 2012, assumi o cargo de diretora da produtora.

Pergunta inevitável: como é trabalhar com Walter Salles?
Bom, depois de 30 anos, eu diria que é muito fácil. No início, eu comecei trabalhando com o diretor executivo e aos poucos Walter foi me demandando pois ele precisava de alguém que falasse francês e inglês. Na realidade é uma vida, então tem momentos muito prazerosos e outros mais duros mas sempre dentro de um respeito e educação. Aprendi muito com ele e hoje em dia temos relação de amizade, parceria e principalmente de confiança.

A primeira experiência sua neste ramo envolveu um dos maiores nomes do cinema mundial que é o ator Peter Coyote, no filme A Grande Arte, baseado no romance de Rubens Fonseca. Como foi isso?
Foi incrível. Eu cheguei na VF e eles estavam começando a produção do filme e Peter Coyote chegou com um laptop e naquela época ninguém trabalhava com laptop e daí eu virei a pessoa de confiança do Peter. Era um tempo em que fazer cinema era bem mais simples. Não tinha tantas regras. Era uma produção nacional mas com atores internacionais e com parte da técnica que também veio de fora, como stunt que veio para treinar os atores para a luta com as facas.

O Rubem Fonseca não fala com ninguém, não se deixa fotografar e reza a lenda que ele seria um pouco avesso a arte do cinema. Ele deu palpites em sua grande arte na tela?
Não me parece que ele seja avesso ao cinema. Além de A Grande Arte, outros livros viraram filme, entre eles a serie Mandrake e o Homem do Ano. Na realidade ele é alguém muito discreto que não gosta de ser fotografo ou aparecer em público, algo inconcebível para os dias atuais. Com relação à Grande Arte, teve uma troca grande entre Rubem e Walter durante a escritura do roteiro mas ele nunca impôs nada.

Central do Brasil talvez seja a obra prima de Walter Salles, e o papel que mais projetou a atriz Fernanda Montenegro. Dizem que ela foi garfada no Oscar. Isso é calúnia ou tem um pouco a ver?
Não saberia responder essa pergunta. Acho que naquela época a Academia jamais daria um prêmio para uma atriz que não fosse norte-americana. Afinal, o Oscar é uma premiação do cinema norte-americano. Depois de muitos anos, agora é que estamos vendo a abertura do Oscar para produções de língua não-inglesa. Para esse ano, o excelente “Roma” do mexicano Alfonso Cuarón está concorrendo a 10 prêmios, entre eles melhor filme, atriz e direção.

Você acha que no atual momento político do Brasil seria possível fazer um filme como “Diário da Motocicleta”, mostrando o lado humano de um médio argentino recém formado que depois se transformaria em Che Guevara?
Diários de Motocicleta não é um filme brasileiro. Na realidade Robert Redford comprou os direitos do livro e ofereceu ao Walter para fazer a direção. Eu diria que Diários foi uma aventura cinematográfica latino-americana pois foi filmado na Argentina, Chile e Peru. Mas para mim, o mais lindo desse projeto foi ter a oportunidade de ter ido a Cuba e conhecer os filhos do Che Guevara, mas principalmente conhecer o companheiro do Che jovem, Alberto Granado, que a essa altura já era um senhorzinho e sua linda família. Para mim fazer cinema é ter a oportunidade de ter esses encontros momentâneos mas que podem perdurar toda uma vida. Até hoje, eu falo com os filhos do Granado. Ele já faleceu. Aprendi muito convivendo com essa família em Cuba. E assim como ele, fiz grandes amizades pelo mundo graças ao cinema.

Paris, Te Amo, foi uma tentativa de tornar a obra de Walter Salles, digamos assim, um pouco mais europeia?
Não. Ele foi convidado por uma produtora francesa a fazer um episodio sobre Paris junto com outros cineastas mas naquele momento ele já era bem reconhecido na Europa. Na realidade, Central do Brasil foi uma coprodução francesa e ele ficou bastante conhecido principalmente na França, por conta do Central. E depois, vários de seus filmes foram exibidos no Festival de Cannes.

Abril Despedaçado para muitos é considerado um clássico. Foi um filme que deu muito trabalho como se comenta?
Eu adoro Abril Despedaçado e tem a fotografia magistral do grande mestre Walter Carvalho que assina os primeiro do Walter, como Terra Estrangeira, Central e O Primeiro Dia.

Voltando a Fernanda Montenegro. Vocês se tornaram amigas?
Não somos amigas. Ela é a grande dama das artes. É uma das pessoas mais elegantes que conheço.Tem sempre uma palavra carinhosa e agora no relançamento do filme depois de 20 anos, convivemos alguns dias já que o filme foi relançado na Mostra de Cinema de São Paulo e no FestRio.

Fale um pouco do Walter Salles. Ele parece que tem um pouco de Rubens Fonseca nele?
Sim, no sentido da discrição. Além de ter muito talento, ele é antes de tudo um Embaixador do cinema. Sempre fez e faz um trabalho de divulgar o cinema brasileiro lá fora. O sucesso de Central do Brasil fez com que o mundo olhasse para o nosso cinema. O filme visto por mais de 6 milhoes de pessoas no mundo e ganhou mais de 50 premios internacionais. E agora com o relançamento tivemos a dimensão de que o filme é atemporal e essa é uma qualidade que poucos filmes atingem. As plateias se emocionam. Waltinho, é assim que o chamo, tem um olhar particular e é muito detalhista, mas acima de tudo é muito atencioso e também é fiel às pessoas que estão ao seu lado. Ele é um gentleman.

Você que esteve com ele literalmente desde “O primeiro Dia”, acha que ele sofreu no começo algum tipo de hostilidade pelo fato de ser filho de um banqueiro?
Não, até porque como a família sempre foi muito discreta e naquela época não existia o google, somente um pequeno círculo carioca sabia ou fazia ligação dele com o nome da família.

Vocês estão trabalhando em que no momento? Algum projeto em curso?
Ele está passando uma temporada fora do Brasil e eu estou tocando a produtora e para esse ano, vamos lançar o longa-metragem de Flavia Castro que se chama Deslembro e estou começando a produção de um documentário que será filmado na Argélia e será dirigido por Karim Ainouz, diretor de Madame Satã e Praia do Futuro, entre outros. E Walter está no momento desenvolvendo dois roteiros.

O cinema brasileiro tem espaços para crescer?
Acho que ele cresceu bastante nos últimos 20 anos, e temos mecanismos de incentivo que são bastante fortes e que movimentam a diversidade. Acho que temos mais quantidade mas não sei se temos tanta qualidade como os filmes que são feitos na Argentina ou México. Por outro, no mundo, ficou mais fácil fazer cinema, no sentido que antigamente só se filmava em 35mm e hoje em dia, você pode fazer um filme com o seu celular. Creio que o digital abriu espaço para muitos cineastas que não poderiam ter seus filmes produzidos na época do 35mm. E Netflix foi uma revolução. Não acho que o cinema vá acabar, assim como quando o cinema chegou e só havia o radio, o radio está vivo até hoje, mas acho que ele vai caminhar para um outro lugar. No entanto, como o mundo ficou muito fragmentado no que diz respeito a informação, você não consegue atrair um jovem para uma sala de cinema e fazer com que ele fique sentado durante 1h30 se não for um blockbuster. Acho uma pena. as mídias sociais estão consumindo as pessoas, enquanto que elas poderiam estar consumindo livros, indo ao cinema e convivemos mais com os amigos.