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Abandono de patrimônio histórico local recebe críticas de especialista

O arquiteto e urbanista Luciano Falcão, professor do IFF, diz acompanhar com preocupação a situação do Centro Histórico da cidade

Campos
Por Ocinei Trindade
30 de agosto de 2026 - 0h05

O arquiteto e urbanista Luciano Falcão, professor do Instituto Federal Fluminense, em Campos dos Goytacazes, acompanha com preocupação a situação do Centro Histórico da cidade. O desaparecimento de construções importantes, devido ao abandono ou à falta de conservação ao longo dos últimos anos, ocorre em prédios particulares e pertencentes ao poder público municipal. O pesquisador sugere reflexões e medidas da sociedade organizada para evitar maiores transtornos por conta do patrimônio ameaçado. “Preservar é uma escolha”, diz.

Luciano Falcão

De acordo com o pesquisador, o patrimônio edificado de Campos desafia gestores e moradores. “Precisamos pensar no que será necessário fazer para que, no futuro, ainda esses pedaços da cidade que também contam quem somos. Basta caminhar pelo centro para encontrar situações que dizem muito. O prédio da Associação de Imprensa Campista, a antiga sede da Oi Telemar, logo ao lado, o Hotel Gaspar, na Praça de Salvador, e o Museu Olavo Cardoso são exemplos de edifícios que enfrentam, cada um à sua maneira, o abandono ou a dificuldade de manutenção”, destaca.

Luciano Falcão afirma que o Centro possui uma combinação difícil: imóveis importantes, valores históricos reconhecidos, mas pouco recurso, pouco apoio e interesse. “É espantoso perceber isso quando olhamos para outros exemplos. O Edifício Itu foi completamente demolido. O Hotel Flávio, depois de um incêndio, também acabou demolido. Em algum momento, esses edifícios deixaram de ser vistos como patrimônio, mas como problema. A solução encontrada foi transformar aquilo que poderia continuar contando uma história em entulho, talvez utilizado como aterro em algum lugar. Esses edifícios tinham um valor que, muitas vezes, é incomparavelmente maior do que o custo necessário para mantê-los vivos.”

A cidade tem perdido edifícios, paisagem, memória e referências. “É curioso como existem visões tão diferentes dependendo de quem olha para o problema. De um lado, o cidadão comum, que muitas vezes se apega a uma casa antiga, a uma fachada, a uma praça, a um prédio porque reconhece ali alguma coisa da sua própria história. Do outro, pessoas que ocupam posições de poder e que têm condições concretas de decidir o destino desses lugares. A chave da mudança, portanto, ao meu ver, talvez seja simplesmente o interesse. É preciso, no mínimo, estar aberto à ideia de que patrimônio não é estorvo”, destaca.

Educação e exemplos
Cidades do mundo inteiro costumam preservar suas histórias, inclusive de guerras, conflitos, desigualdade e opressão. Para o arquiteto e urbanista, “nem toda história é bonita, mas merece ser contada” e serve como modelo de educação.

“Conhecendo nossas referências, podemos construir autoestima, formar cidadãos mais conscientes e criar uma relação mais madura com a cidade. O que estamos deixando para quem virá depois de nós? Tudo aquilo que construímos hoje será passado algum dia. Nossas casas, nossos edifícios, nossas praças, nossas decisões, nossas escolhas. Quanto dessa história nossos descendentes ainda conseguirão enxergar? Será que vão encontrar apenas fotografias de edifícios que poderiam ter permanecido de pé?”, questiona.

O que parece faltar não é necessariamente dinheiro, nem tecnologia, nem conhecimento. “Talvez falte aquilo que a Lyra de Apollo e seu maestro Ricardo nos ensinam há décadas: interesse, paixão e disposição para mobilizar pessoas em torno de uma ideia. Porque patrimônio não é apenas aquilo que está tombado, uma fachada bonita ou construção antiga. Patrimônio é aquilo que uma sociedade decide que merece continuar existindo. E a grande pergunta para Campos é justamente essa: o que nós estamos dispostos a preservar? Quando destruímos um edifício, não estamos apenas derrubando paredes. Estamos escolhendo uma parte da história que não será mais contada”, conclui.