

Há alguns anos, programa exibido pela Record mostrou o mapa da miséria no Brasil, com enfoque no Nordeste – uma tragédia avassaladora, escandalosamente incompatível com a gigantesca riqueza do País.
Num recorte da matéria, gravada no interior do Maranhão, uma cena engasga o telespectador. O repórter conversa com a mãe de dois filhos na faixa de 6/8 anos, na cozinha sem reboco. No fogão, a enferrujada panela prepara o jantar: farinha com água e sal.
Já desconcertado com o quadro e segurando as lágrimas, o apresentador – penso eu que sem saber ao certo o que dizer –pergunta aos meninos se o cheiro estava bom. Mas a mãe interrompe:
— Hoje quem vai comer é esse aqui, porque ontem foi a vez do mais velho. Mas tem dia que dá para os dois.
Em outra reportagem da série, o jornalista conversa com um garoto, talvez de uns 10 anos de idade. Indaga o que ele pensa fazer… o que quer ser, quando for mais velho. Mas a criança fica em silêncio – apenas olha. Ela não entende o significado da pergunta. Não tem o que dizer porque não tem sonhos nem futuro. Não conhece outra vida senão aquela, de miséria.
Agora explico: estamos a menos de duas semanas para a eleição de presidente da República, governador, Senado, Câmara e Assembleias Legislativas. E o que há de concreto, de novo, que vislumbre que o Brasil saia da condição infame de contabilizar mais de 50 milhões de pessoas vivendo em condições de pobreza ou pobreza extrema? (*Dados relativamente recentes do IBGE).
E mais: o que o horizonte aponta de diferente entre os políticos que serão eleitos em suas respectivas esferas, comparativamente aos anteriores? Falando francamente… nada.
Dos deputados estaduais ao presidente, há muito o Brasil deveria e poderia ter reduzido sobremaneira a desigualdade social, ampliado a oferta de emprego através de investimentos nos setores produtivos e de serviços, criado uma política pública séria de distribuição de renda e melhorado a qualidade de vida da população.
Só que não fez. Nossa “referência” mais recente é o Petrolão. Não se trata de Bolsonaro ou Lula, mas de todos: Dilma, Fernando Henrique, Collor, Sarney e dos anteriores.
A julgar pela riqueza do Brasil e seus 8,5 milhões de quilômetros quadrados de terra fértil e abundante, ‘dono’ da maior bacia hidrográfica do mundo – onde não se vê vulcões, maremotos, terremotos e outras intempéries severas da natureza – todos os governos, dos recentes aos mais distantes, tiveram condições de reverter o quadro de infortúnio e efetivamente distribuir com os donos do País – o povo – a grandeza do gigante continental. Mas não fizeram.
Política não cumpre seu dever e função institucional
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro… ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!…
Quando se vê episódios como os descritos no início deste texto, das matérias da Record sobre a pobreza no Brasil, observa-se que em linhas gerais a política no Brasil tem sido um problema – não a solução.
Não se pode generalizar. Muitos trabalham pelo desenvolvimento e pela prosperidade, visando o bem estar da população. Outros, não.
O significado de política é de tal modo extenso que defini-lo requer abrangência sem fronteiras. Em linguagem simplista, é a arte de governar. No entendimento de Aristóteles, é a felicidade humana em seu aspecto individual e coletivo. Em outra vertente, digamos complementar àquelas, indica “todos os procedimentos que podem significar tanto cidade-Estado quanto sociedade, comunidade, coletividade…”
Então, em qual desses contextos devemos situar a política praticada no Brasil? Exceções à parte, os eleitos em outubro vão correndo trocar o número do celular, tirar ‘merecidas’ férias da campanha e cuidar da ‘permuta’ (troca-troca) de nomeações entre eles para ‘amparar’ o irmão, irmã, filho, filha, cunhado, sobrinho, etc. e etc., onde o critério técnico é o que menos interessa.
Daí a analogia – grotesca, é bem verdade – de que a política praticada no Brasil afigura-se ao poema de Castro Alves, dos idos de 1870, em que não é possível conceber tamanha desventura perante os céus.
Desta vez, ‘pulando’
Quanto às eleições, depois de tantas e tantas páginas sobre o tema, desta vez vamos abrir mão de comentar a “coerência” das pesquisas – bem como as interpretações absolutamente ‘isentas’ de boa parte dos veículos de comunicação (TV Globo, GloboNews e jornal O Globo que o digam) – em que, praticamente no mesmo período, o instituto Paraná captou que a diferença de Lula para Bolsonaro é de 3,1 pontos; o PoderData apontou o ex-presidente 6% à frente de Bolsonaro, enquanto o Ipec a registrou 15 pontos.
Das duas, uma: ou o Ipec, que na prática substituiu o Ibope, vai ter que trocar novamente de nome, ou os demais institutos vão fechar as portas de vergonha.