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Ele fechou a ‘Casa dos Horrores’

Delegado de Campos, hoje titular de uma Delegacia no Rio, conta como desbaratou uma quadrilha de pedófilos

Entrevista
Por Aloysio Balbi
24 de agosto de 2020 - 16h14

Luís Maurício Armond, delegado de polícia (Foto; Silvana Rust)

O delegado Luís Maurício Armond que já foi titular das duas Delegacias de Polícia Civil de Campos – Centro e Guarus –  ocupando também o cargo de superintendente regional, agora atua na Zona Norte do Rio, mais precisamente na DP de Campo Grande. Na semana passada, ele, em uma operação conjunta com a Delegacia Especializada de Proteção à Crianças e ao Adolescente, desbaratou uma rede de pedofilia que atuava no estado e era liderado por um estrangeiro procurado por crimes diversos.

A ação do delegado campista teve grande repercussão. Quando a sede da organização foi descoberta, até mesmo os policiais mais experientes ficaram chocados. Era uma espécie de “Casa dos Horrores”, tendo sido o nome da Operação batizada assim. Na verdade, era uma casa travestida de estúdio de
gravação, mas não convencional: na verdade um estúdio de gravação de cenas de sexo com menores. A “Casa dos Horrores” tinha equipamentos para seduzir os menores, como balanço e outros. A polícia ainda não tem ideia de quantas menores foram vítimas destes criminosos. Com a tomada de depoimentos dos envolvidos será possível alcançar esse número. Sabe-se que essa era uma das maiores quadrilhas deste tipo de crime atuando não só no Rio, mas em outros estados do país.

Nesta entrevista, o delegado Luís Armond, que se notabilizou pelo arrojo e estratégia, revelou detalhes desta operação, que pode ser o fio da meada para que outras quadrilhas do gênero sejam igualmente desbaratadas.

ENTREVISTA:

A Delegacia da qual você é titular juntamente com outra delegacia especializada em crimes contra crianças e adolescentes, desbaratou uma organização criminosa que tinha à frente um cidadão europeu, que mexia com sado masoquismo, pedofilia, entre outros crimes. Como foi esse trabalho?

Na realidade a investigação se desenvolveu somente através da unidade da qual atualmente estou lotado como Titular, qual seja 35ª DP -Campo Grande, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.Quando, na última terça, tomei conhecimento através de duas mães que estavam na unidade. Ambas estavam com suas filhas de 5, 12 e 14 anos. As quais relataram fatos que caracterizaram abusos sexuais.

Essa operação batizada de “Casa dos Horrores” foi precedida de um trabalho de inteligência e como foi isso?

De posse dessas informações, determinei a minha equipe que diligenciasse e com enorme surpresa descobrimos um estúdio fotográfico com três cenários, nos quais haviam objetos que reproduziam ambientes infantis, juntamente com acessórios sexuais, além de apetrechos sadomasoquistas.

O Senhor já tinhas atuado em um caso tão complexo como este ou visto algo parecido?

De complexidade sim, mas não de tamanha perversão e horror envolvendo crianças e adolescentes.

O Senhor se notabilizou na Polícia Civil como um policial intuitivo e arrojado, estando sempre na linha de frente das operações que deflagrava. Como age o delegado Luís Armond?

Procuro atuar da forma mais profissional possível, porém com bastante energia e empenho. Para isso, junto não somente toda minha experiência profissional na polícia por mais de 20 anos, como também, e principalmente, com minha vivência pessoal e intuição. Me colocando sempre no lugar das vítimas e lesados, vendo-os como se fosse comigo. Então busco justamente dar a resposta que gostaria de ter se fosse comigo para com eles.

Em Campos, sua terra Natal, o senhor foi titular de duas delegacias, e chegou a superintendência regional da Polícia Civil. Agora o senhor está em Campo Grande, Zona Norte do Rio, área de alto risco. Como é trabalharem um ambiente tão tenso assim?

Demanda um alto grau de controle emocional e perspicácia investigativa. Atuando com coragem contra o crime organizado, bem como com determinação para com os demais crimes. Evidente que tomando as cautelas devidas, não somente pelo risco que determinadas áreas dominadas pela milícia mais letal do Brasil possui, mais também pelos seus componentes. Pois que já demonstraram sua ousadia, como por exemplo o caso do assassinato da vereadora Marielle.

Quando se participa de uma operação complexa como essa, livrando vulneráveis, no caso crianças, das garras de criminosos, isso emociona um policial, mesmo que esse seja experiente como o Senhor?

Demais, ainda mais sendo pai. Muitas vezes me peguei chorando. Pois nem sempre é fácil ver crianças, cujas vidas estão sendo destruídas e sua sexualidade pervertida.

O Senhor tem uma clara noção do tamanho da criminalidade em Campos e na Região. Acha que a tendência é se acentuar?

Tenho muita esperança que não. Pois existem profissionais capacitados para isso. Mas devemos sempre ficar atentos, pois como na iniciativa privada, sempre temos inovação e ousadia para que esses negócios ilícitos prosperem. Devendo sempre estar atentos as mudanças e artimanhas da criminalidade.

Está no seu projeto de vida voltar a atuar em uma das delegacias de Campos?

Num futuro sim. Mas no momento estou focado nesse projeto pessoal e profissional de crescimento. Não somente na carreira mas também no aprendizado que trabalhar na Capital proporciona.

Com esse rodízio de delegacias, o Senhor vem acumulando uma rara experiência na elucidação de crimes diversos no estado do Rio. O que ainda assusta o delegado Luís Armond?

Assusta a maldade e barbárie do ser humano. Que na maior parte das vezes apenas querendo enriquecer, não titubeia em matar ou prejudicar
esses hipossuficientes. Que não somente crianças e adolescentes, mas também idosos, mulheres, doentes, etc.

Ainda dentro deste quadro de experiência, na sua avaliação o crime está migrando realmente para o interior do estado?

Claro. Mas não digo que estão deixando a Capital. Mas sim uma ampliação tanto na territorialidade como na lucratividade. Pois que se aproveitam da vida calma e serena que em muitos lugares do interior tem, para usar da inocência e caráter da população para se beneficiar. Em especial o tráfico de drogas e os estelionatários (golpistas).

Tráfico de drogas: Divulgação PM)

O tráfico de drogas é realmente a caixa de pandora no que se refere a grande maioria dos crimes em território fluminense?

Não. Hoje sem dúvida este lugar é ocupado pelas milícia. Que inclusive passaram a dominar o tráfico e os treina para agirem como milicianos.

Como é a rotina do delegado Luís Armond?

Corrida, complicada, agitada, rssss. Não há como ser diferente nos grandes centros com distâncias e mazelas tão escancaradas pela imprensa.

Investigando tantos casos de grande repercussão que resultam em prisões de criminosos extremamente violentos, o Senhor se preocupa com sua segurança?

Sem dúvida. Procuro tomar todas as cautelas possíveis e, como não poderia deixar de ser, confio no Senhor para me guiar nos seus desígnios.
E até hoje nunca falhou.