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A aula de pilates e o Supremo Tribunal Federal – Tiago Abud

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Artigo
Por Redação
27 de setembro de 2026 - 0h01

Tiago Abud – Articulista e Defensor Público – No último romance escrito pela minha colega Mariana Salomão Carrara, intitulado Cláudia Vera Feliz Natal, ela trata da história de um magistrado recém-aprovado, às voltas com um processo administrativo disciplinar instaurado contra si pela demora no julgamento de um caso de disputa de guarda e reconhecimento de maternidade de uma criança por duas mulheres.

Dentre as muitas histórias que a trama revela e que envolvem o jovem juiz, numa delas, pela sua timidez e em razão do recato que a profissão exige, ele tinha vergonha das posições que precisava fazer nas aulas de pilates na pequena cidade na qual judicava.

Na quadra histórica atual, em que o Supremo Tribunal Federal está no olho do furacão pela conduta dos seus próprios ministros, é impossível não ligar uma coisa à outra e dizer: quanta falta de timidez, recato e honestidade a parte dos integrantes da Corte.

Quando ingressei no sistema de justiça, há distantes vinte e cinco anos, a Justiça era lugar de gente honesta. Ainda é — honrada pelos milhares de homens e mulheres que são juízes e juízas no Brasil. Tinha-se a impressão, naquela época, de que a corrupção no Judiciário estava, se existisse, nos tribunais superiores, porque não se via dela no andar de baixo.

Hoje, os fatos noticiados demonstram, ao menos no campo dos indícios, juízes (no plural) da Suprema Corte advogando e enriquecendo por intermédio de parentes, montando institutos para angariar recursos ilegais — em atividade vedada por lei — e fazendo política com a caneta, também em conduta proscrita. Para ficar só nisso. 

Vorcaro mostrou como o rei está nu. O capitalismo faz, para lembrar Marx e Engels, do Estado um comitê para defesa de seus interesses. O dinheiro sujo comprou a Nova República e mostrou em que malta ela se transformou. Está na hora de encerrá-la e refundar o Brasil.

Todavia, se tivesse que apostar — desde que não fosse por meio das bets —, diria que, por certo, perder-se-ia mais esta oportunidade. Será que a sociedade brasileira quer essa refundação? Tenho certeza de que não. Não à toa, de doze candidatos à Presidência da República, um deles, visceralmente ligado aos esquemas do banqueiro, arrebata aproximadamente um terço do eleitorado. Quem vota nele, em exercício suicida, autoproclama-se contrário à corrupção. De quem, hipócrita?

Preferia o tempo em que o juiz tinha vergonha de ir à aula de pilates.

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