

Tiago Abud – Articulista e Defensor Público – Chorei. Era o dia 05 de julho de 1982. O melhor time do Brasil que eu vi jogar perdeu de 3×2 para a Itália no Estádio Sarriá, na Espanha, dando adeus a Copa do Mundo. Tinha seis anos na época. Ao fim do jogo, minha solução para aquela derrota foi chutar a bola dente de leite na parede da garagem, exaustivamente, como que se estivesse golpeando Paolo Rossi, nosso algoz do dia.
Quarenta e quatro anos se passaram e em outro 05 de julho, mais uma derrota. Desta vez não chorei. O Brasil perdeu da Noruega por 2×1 e foi de novo eliminado, precocemente, de uma edição da Copa do Mundo. Talvez pelos fios de cabelo branco adquiridos com o tempo, não esperava ser campeão. Vou confessar que até ganhei o bolão no dia da eliminação, apostando na vitória dos adversários pelo placar exato.
Durante a Copa, usei em três jogos a mesma camisa amarela, sem lavar. Superstição serve de amuleto, para quem é órfão dos talentos de outras épocas do futebol brasileiro. Mas a minha camisa amarela está desbotada.
Desbotada pela falta de planejamento dos organizadores do futebol brasileiro, que em um ciclo de quatro anos conseguiram a proeza de trocar quatro técnicos. Esses mesmos organizadores que acabaram com a base do futebol do Brasil, quando passaram a ensinar aos meninos que a tática vale mais que a técnica, igualando, por baixo, o nosso futebol a qualquer outro praticado em outro canto do mundo. Desperdiçam talentos.
Desbotada por uma geração de jogadores perdedores com a camisa verde-amarela, infantilizados, que se preocupam mais com a própria imagem do que com o jogo em si, que se acostumaram a não decidir e para quem a derrota se tornou algo comum. Perder faz parte, mas se não servir de aprendizado, presta apenas para tornar o homem sem brio.
Desbotada por um técnico que foi contratado para replicar na seleção o sucesso que faz no futebol internacional, mas que apostou em manter a panela de jogadores que o seguem, como titulares e como convocados.
Desbotada por saber que, apesar dos cinco títulos mundiais, não somos mais referência no futebol.
Se quisermos resgatar o protagonismo histórico, é urgente que o futebol brasileiro entenda que o talento bruto só frutifica quando amparado por profissionalismo de ponta. Ciclos não são remendos. Enquanto não houver planejamento e execução, sem lugar para amadorismo, da base ao profissional, a nossa camisa amarela continuará desbotada.
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