Por Leo Barros


A oportunidade apareceu, Amarildo não desperdiçou. Com a determinação de um jovem de 23 anos, o ponta-esquerda substituiu o craque Pelé na Copa do Mundo de 1962 e foi decisivo na caminhada pelo bicampeonato mundial da Seleção Brasileira. Virou o placar contra a poderosa Espanha de Puskas (naturalizado espanhol), marcando os dois gols. No final, 2 a 1 para o Brasil, classificação para a fase final e a consagração do Possesso – apelido que ganhou do jornalista Nelson Rodrigues durante a competição.
Nascido no bairro da Lapa, em Campos, Amarildo conquistou o mundo. Na Copa, no Botafogo e na Itália, onde é ídolo de Milan, Fiorentina e Roma. Os últimos anos têm sido difíceis. Com 86 anos, está há quase três internado em estado grave na Unidade de Tratamento Intensiva (UTI) de um hospital do Rio. Sofre com as sequelas de um AVC desde 2024, o que agravou o seu quadro clínico de Alzheimer. Ao seu lado, seus filhos e sua esposa Fiamma, com quem é casado há quase 60 anos, que o acompanham diariamente.
Sou Goytacaz até morrer
“O Goytacaz sempre foi a extensão da minha casa. Meu pai foi jogador do clube, eu e meus irmãos também. Jogávamos lá, nos campinhos de várzea, na rua. O esporte sempre nos uniu”, conta Amarildo para o FGV CPDOC.
O Possesso tinha o futebol no DNA. Seu pai, Amaro da Silveira, foi um dos primeiros campistas convocados para a Seleção Brasileira. Era atleta do Goytacaz quando jogou o Campeonato Sul-Americano (atual Copa América) de 1923, em Montevideo (Uruguai). Quando criança, Amarildo corria para o Estádio Ary de Oliveira e Souza para ver os craques do Flamengo: Zizinho, Dida, Pavão, entre outros. Se não tinha ingresso, pulava o muro, machucava a mão, mas o importante era assistir a partida.


Na adolescência, o torcedor virou jogador. Ainda muito jovem, vestiu o manto alvianil nas competições da época. Foi campeão fluminense e campista, antes de seguir para o Flamengo. “Campos era uma cidade de craques. Didi foi campeão em 62 ao meu lado, tínhamos outros jogadores no cenário nacional. Muitos outros não conseguiram sair da cidade. Minha perseverança e explosão me levaram para o meu sonho”.
Glorioso é a ponte para o sucesso
A passagem pelo Flamengo foi rápida e injusta. No Botafogo, virou ídolo. Ao lado de craques como Garrincha, Didi e Zagallo, formou um ataque poderoso. Os títulos do Carioca e do Torneio Rio-São Paulo o levaram para a Copa de 62. Jovem, era reserva de Pelé, até o craque sofrer uma lesão muscular na segunda rodada.
Contra a Espanha, o Possesso entrou em campo, derrubou os espanhóis e classificou o Brasil. Voltou a marcar na decisão contra a Tchecoslováquia, fez o primeiro do Brasil nos 3 a 1 que garantiu o bicampeonato mundial.


“Fiquei triste pelo Pelé, mas vi que era a minha oportunidade. A chance de substituí-lo me deu ainda mais vontade e responsabilidade. Todos me apoiaram. Eu já era o Possesso. Não era um desconhecido. O Pelé era o Pelé e eu era o Possesso, que atuava pelo grande time do Botafogo na época”, disse Amarildo em entrevista ao jornal Extra na Copa de 2014.
O campista ainda foi pré-convocado para a Copa de 1966. Porém, uma lesão muscular o tirou do Mundial da Inglaterra. Na década de 1960, além do bi mundial, Amarildo foi para a Itália. No Milan, foi artilheiro, fez o gol do primeiro título da Copa da Itália do clube. Na sequência, a idolatria foi na Fiorentina, marcando gols decisivos na conquista do último título do Italiano da equipe em 1968–69. A despedida da Itália foi na Roma, onde é lembrado até hoje pelos torcedores por seus gols de falta. Antes da aposentadoria, voltou ao Brasil para jogar no Vasco. Porém, retornou para morar em Florença, onde ficou até 2007.


Nome na História
Mais de seis décadas após a explosão do Possesso na Copa do Chile, Amarildo segue sendo lembrado pelo futebol brasileiro e mundial. Referência de garra dentro de campo, passou a ser treinador após a aposentadoria. Passou pela base da Fiorentina e Botafogo, além de clubes como Sorso, Rondinella, Turris, Pontedera; Al-Ain e Sharjah dos Emirados Árabes; e Espérance, da Tunísia. No Brasil, destaque para o America.
Em 2011, foi diagnosticado com câncer na garganta. Nos últimos três anos, o Alzheimer foi o adversário que não conseguiu ser driblado. “Meu pai está internado na UTI, em estado muito grave. É alimentado e hidratado através de sondas gástricas, perdeu totalmente a visão. Minha mãe fica de segunda a domingo no hospital com ele das 7h até 21h. Esse é o amor de quase 60 anos de casamento”, conta o filho de Amarildo, Rildo Silveira.
A proteção da família mantém a memória do Possesso ativa na história do futebol. As entrevistas e convites para eventos na época de Copa do Mundo ficaram no passado. Porém, relembrar os capítulos do Mundial do Chile é quase obrigatório para os amantes do futebol. A mágoa é a ausência da procura de ex-companheiros e clubes da sua vida.
“Os amigos do meu pai do Milan, Fiorentina e Roma estão sempre em contato. Aqui no Brasil ninguém. Só Dunga e Bebeto que sempre tiveram um carinho imenso pelo meu pai e procuram saber como ele está. Botafogo e Vasco nunca procuraram meu pai ou foram visitá-lo no hospital. É uma baita falta de consideração, pois lembrar da pessoa quando não estiver mais aqui é a coisa mais fácil”, desabafa o filho do Possesso.