A reportagem especial do J3News desta semana, “Campos com 370 mil votos em jogo” (leia aqui) aborda o comportamento do eleitor que vai às urnas no domingo (4), além de ouvir autoridades da Justiça Eleitoral sobre os preparativos para o pleito que elegerá presidente, governador, senadores e deputados estadual federal. O cientista político e professor José Luís Vianna, da Universidade Federal Fluminense também participa da matéria. Nesta entrevista, ele amplia as observações e análise da campanha eleitoral, a crise no Judiciário, além do desencanto de parte do eleitorado em relação à política.


Como analisa esse período eleitoral, as campanhas presidenciais e as pesquisas que têm apontado empate técnico para presidente?
Realmente, está uma eleição atípica. É surpreendente como o silêncio das ruas… Não tem campanha de rua, não tem campanha visual de rua, é só mesmo nas redes sociais. Eu acho que a eleição está se decidindo por caminhos outros, não só das redes sociais, mas dos grupos que se formaram, dos guetos que se formaram e que estão se retroalimentando. Eu acho que a minha expectativa é que, uma semana antes, se continuar esse empate técnico, aí sim você vai ter manifestações mais amplas, generalizadas, mais acirradas. Firmes, mais vibrantes, no sentido positivo e no sentido negativo também, do acirramento e da hostilidade.
O empate técnico, para mim, reflete muito mais como está o embate político hoje no mundo inteiro. Primeiro, intermediado por fake news, por uma crise da democracia ocidental liberal, crise dos poderes. É mundial isso: um avanço da direita e da extrema-direita. E um desgaste da esquerda pela dificuldade que a esquerda vem enfrentando também no mundo inteiro de tentar minimizar as consequências do neoliberalismo. A esquerda vem cedendo a uma ordem neoliberal que agrava as questões climáticas. A questão da violência agrava a questão da corrupção, agrava a questão da crise climática, que eu já falei, e agrava absurdamente a questão da concentração de renda, da exclusão, da segregação, todo tipo de segregação, de preconceito no plano da cultura, dos valores.
E aí o confronto é radical mesmo. São valores opostos. Os valores da direita e da extrema-direita são retrocessos nas conquistas da história da humanidade, dos direitos e do reconhecimento da diversidade e da possibilidade de universalização dos direitos e das relações sociais.


De acordo com pesquisas, o candidato Eduardo Paes (PSD) têm despontado como favorito ao Governo do Rio de Janeiro. Qual a sua percepção sobre isso?
Eduardo Paes sempre teve uma boa imagem, sempre soube cultivar uma boa imagem. Obviamente, ele estava muito ligado à imagem de carioca, cara do Rio, mas ele vem trabalhando. Ele já perdeu a eleição para governador, então vem trabalhando há muitos anos, talvez desde que se elegeu para prefeito da última vez. Ele vem trabalhando para corrigir os erros que cometeu das outras vezes e ampliar as alianças. Ampliou talvez até demais. É um momento favorável também, de desgaste do Cláudio Castro e de vários grupos e candidatos que se aliam ao Cláudio Castro. Quem pagou com isso também, eu acho, foi o PL, e o grupo dos bolsonaristas também está pagando caro. E eu acho que a possibilidade de o Paes se eleger em primeiro turno é importante. O espectro de forças e partidos que ele reuniu é imenso.
Quais as perspectivas para os parlamentos estadual e federal e o comportamento do eleitorado?
A eleição parlamentar para deputados e senadores sempre foi uma eleição que, até a reta final, o eleitor se coloca como indefinido, não sabe dizer o nome dos candidatos a deputado e acaba sendo definido, em parte, pelos candidatos a presidente, que reforçam determinadas candidaturas, principalmente ao Senado; e também pelas redes que as pessoas têm hoje, que passam pela religião, pelas mídias digitais, e, no final, se define. Embora tenha uma margem muito grande que continue indiferente até a véspera e vote por razões nada de projeto, nem ideológica, nem de valores, de nada, por redes de cabos eleitorais mesmo, redes de influência pessoal.
Como observa a crise do STF e a influência disso nas eleições de 2026?
A crise no STF é uma crise profunda das democracias ocidentais também. A judicialização da política é um fenômeno mundial. A guerra híbrida, que é a guerra que junta o enfrentamento político tradicional com o enfrentamento das redes e com a judicialização, é uma marca hoje da política mundial. E, no Brasil, particularmente, o Judiciário vem se deteriorando há muito tempo.
O Conselho Nacional de Justiça é um órgão recente, mas é com ministros indicados pelos membros do STF. Então, ele, que seria o órgão acima do STF, eu não vejo as opções de regularizar, regular e limitar o STF. Então, a tendência é o STF ir ocupando funções mesmo com o tempo, com os anos. E essa intimidade que vem da história da política brasileira, de autoridades com polícia, com crime, com empresário, com dinheiro, com privilégio, pompa, essa promiscuidade, depois desses anos todos da República Brasileira, termina com esse esgotamento.
E, realmente, o STF requer mais controle e caminhos para punição mesmo, não pelo Congresso, como é feito hoje, porque o impeachment da Dilma Rousseff e, agora, o abuso da maioria do Congresso em querer impedir vários ministros do STF é uma coisa casuística, em função de quem está e tem maioria de ocasião. Acho que tinha que ser uma coisa muito mais complexa, mais sofisticada do ponto de vista político e com um Conselho Nacional de Justiça autônomo, independente do Supremo Tribunal.


Interferências externas no processo eleitoral brasileiro têm sido acompanhadas por diferentes setores, inclusive por parte da economia. O pensa a respeito?
Eu acho que a interferência externa está sendo total. Os Estados Unidos sempre influenciaram a política no Brasil, principalmente em momentos mais acirrados. Trump é um militante, um líder e um chefe, um cabo da direita internacional sob hegemonia dos Estados Unidos. O país está perdendo força no mundo, deixando de ser hegemônico, e lembrou que a América Latina, historicamente considerada seu quintal, pode se desgarrar e se aproximar da China e da multilateralidade.
Isso fez com que Trump interferisse diretamente. Não tenho dúvida nenhuma de que ele está envolvido em tudo isso que nós estamos vendo de acirramento e polarização. Acho que há uma conjuntura que está favorecendo institucionalmente a candidatura de Flávio. A interferência direta dos Estados Unidos está presente. Está lá o Eduardo, está lá o Marco Rubio e todo o aparato que comanda isso, e Trump executa o plano.
O que esperar do pleito de domingo em relação à vontade dos eleitores?
Para mim, o dia 4 e a participação dos eleitores são uma incógnita ainda, porque vai depender da dramaticidade com que a gente vai chegar ao dia 4. Porque eu acho que a perspectiva da polarização é a gente ter uma última semana ou os últimos dias extremamente dramáticos, extremamente acirrados, de tudo ou nada.
Eu reconheço também que há um desencanto total nos eleitores, que vem crescendo nas eleições, por causa do desgaste falando da democracia representativa ocidental que nós temos no mundo inteiro, e um desgaste particular da política brasileira pela desmoralização do político, pelo grau de corrupção generalizada que junta crime organizado, polícia, Judiciário e Executivo e o Legislativo, embora com muitas e grandes e honrosas exceções.