

A Arte Cerâmica Sardinha se recusa a ser mais uma entre tantas outras no distrito de São Sebastião, em Campos dos Goytacazes. Com quase 100 anos de tradição que teve início com a fabricação de telhas e hoje produz tijolos revestimentos e cobogós, o empreendimento aposta na inovação formando parcerias com universidades da região e se pautando em uma filosofia que transforma resíduo em recurso e barro em conhecimento.
Diferente da maioria das cerâmicas da região, que produzem tijolos padronizados, a Sardinha fabrica mais de 50 produtos diferentes: tijolos de várias cores, como vermelho, branco e mesclado, além de nove modelos de cobogó, o elemento vazado que ganha cada vez mais espaço na arquitetura contemporânea.






Das usinas de açúcar ao forno centenário
Rodolfo Azevedo Gama é proprietário da Arte Cerâmica Sardinha há 32 anos. Nascido e criado em São Sebastião, é de família de ceramistas, mas se formou engenheiro agrônomo e trabalhou por uma década em Campos, tendo passagens pela Usina Cambaíba, Coopercred e no Colégio Agrícola, sempre distante de telhas e barro.
Por volta de 1994, decidiu arrendar a antiga Cerâmica Sardinha, que apesar de não ser relacionada, coincidiu com o sobrenome da família de sua esposa, também “Sardinha”. A telha francesa produzida ali no início do século XX já trazia um desenho de sardinha em sua superfície. E a tradição não estava apenas nessa olaria.


Ciência e inovação
O distrito de São Sebastião concentra diversas cerâmicas. Campos dos Goytacazes, como um todo, figura entre o segundo e terceiro maior polo cerâmico do Brasil, disputando com São Paulo e com uma região no estado do Ceará.


“Nós, aqui em Campos, abastecemos 75% da produção de tijolos do estado do Rio”, conta Rodolfo. Apesar de secular, o mercado campista das cerâmicas ainda carecia de inovação sistêmica, e é aí que a Arte Cerâmica Sardinha se destaca.
“Entre todas as cerâmicas que já existiam quando entrei nesse mercado, eu não ia ser só mais um. E como ser diferente? Eu me aproximei das universidades. É lá que está quem estuda, quem pesquisa”, diz.


Há mais de 20 anos, a cerâmica mantém parcerias com a Universidade Estadual Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), com a Universidade Federal Fluminense (UFF) e com o Instituto Federal Fluminense (IFF). Alunos de graduação, mestrado e doutorado encontram na Sardinha um laboratório vivo para desenvolver suas pesquisas, e Rodolfo, um parceiro que aprende junto.
“Se você quiser defender uma tese no setor cerâmico, vem aqui que eu quero. Se eu puder te orientar, eu te oriento. Então aprendo com as suas forças e vontades, com a sua ideia e com experiência”, resume.


O resultado mais expressivo dessa parceria é um trocador de calor patenteado, inspirado no funcionamento de um chuveiro elétrico. A ideia, segundo Rodolfo, surgiuem conjunto com o Polo Embrapii (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial) do IFFluminense. Ao se perguntar “Como é que é aquecida a água do chuveiro elétrico?”, a resposta virou uma serpentina instalada dentro da chaminé: o ar frio entra, passa pelos dutos aquecidos pelos gases da queima — que chegam a 400 ou 500 graus — e sai a 200 ou 300 graus, sendo reintroduzido na fornalha.


O sistema rendeu a Rodolfo o prêmio de Empresário do Ano da região Norte e, mais importante, uma economia de 15 a 20% no consumo de lenha. “Isso aí tem patente registrada”, afirma com orgulho.
Sustentabilidade do resíduo ao sabonete
Junto de pesquisas e inovação, a preocupação ambiental também está em cada etapa da produção.
“Quando você passa no lugar e vê casas com lixo jogado, você sabe que pode reciclar aqui, mas ninguém faz. O país tem 200 milhões de habitantes, tem muita coisa para ser jogada no lixo ainda”, lamenta.






Na Sardinha, o “lixo” vira insumo. O pó de serra, antes descartado por serrarias às margens do Rio Paraíba, hoje é comprado e usado como combustível nos fornos. Resíduos de granito, bagaço de cana e até entulho da construção civil são objetos de pesquisa para incorporação à massa cerâmica.
E não para por aí. Em um dos cantos da cerâmica, funciona um pequeno laboratório de sabonetes artesanais — feitos com argila e essências, como maracujá. “É um encantamento. Você vem com sua família encontrar um tijolo aqui, no final te encanta com o sabonete de argila”, diverte-se. O projeto, que começou como brinde para clientes, caminha para a escala comercial.




A cerâmica também apoia o Caminhos de Barro, projeto da UENF que capacita artesãs da região a transformar barro em peças de valor agregado.
Prestes a completar um século, a Arte Cerâmica Sardinha é mais que uma fábrica de tijolos. É um centro de pesquisa, uma escola e um laboratório de sustentabilidade.
“Você pode pegar a argila, que é um bem finito, e usar para durar um século ou para durar um mês. É isso que eu tento mostrar: o meu legado aqui é esse”, conclui Rodolfo.