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Derretendo sob o calor vorcariano

Recente pesquisa do Datafolha deu sobrevida à candidatura de Flávio. Previa-se estrago bem maior

Guilherme Belido Escreve
Por Guilherme Belido
25 de maio de 2026 - 19h21

Fosse em países de elevado nível de politização, nos quais o eleitor, via de regra, logo assume olhar severo ante deslizes dos que postulam ou exercem cargo público, e a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro estaria inapelavelmente ferida de morte. Afinal, o senador que reivindica ser o próximo presidente da república está atolado até o pescoço com um ex-banqueiro que hoje é o símbolo-mor da corrupção no Brasil.

E como desgraça pouca é bobagem, o caldeirão onde o escândalo é fervido não cessa de receber novos ingredientes. Nas duas últimas semanas, Flávio negou, e depois admitiu, ter cobrado dinheiro a Daniel Vorcaro para financiar o filme de seu pai — mas garantiu ter sido num único contato de áudio. Adiante, ‘pensando melhor’… disse que poderiam surgir novas mensagens.

E em mais uma apimentada de fazer chorar, acrescentou ter visitado Vorcaro quando o dono do liquidado Banco Master já estava em prisão domiciliar e a quem, aliás, chamou de “irmão”. Em suma, de “ligações perigosas”, o conjunto da obra virou um grande escândalo.

Os aliados e até onde vai o ‘rolo’

Para que a pré-campanha prossiga é necessário, antes, que pare de piorar. E o primeiro desafio está em convencer os próprios aliados que estão de cabelo em pé sem saber se o estrago é só esse mesmo ou se vem mais coisa por aí. Com ruídos em série, não se pode descartar nem mesmo que enquanto esta matéria é escrita novas tempestades não estejam se formando.

Por ora, na melhor das hipóteses, Flávio precisa superar as barreiras erguidas junto à base de sustentação de sua candidatura. Há muita cautela por parte dos evangélicos, de parlamentares ligados ao pessoal do agro, de empresários, investidores e financistas da Faria Lima — maior centro de negócios do País, espécie de Wall Street brasileira —, bancada ruralista e políticos de direita em geral.

O desalento de parte dos aliados reside no fato de que o escândalo veio justo quando a campanha estava conseguindo reduzir resistências e Flávio, de acordo com algumas pesquisas de abril, pela primeira vez aparecia um ou dois pontos na frente de Lula — o que foi emblemático.

Situação atual e a pesquisa Datafolha

Pesquisas imediatamente após o escândalo mostraram o estrago na candidatura de Flávio, que recuou vários pontos. Só que de forma até surpreendente, a Datafolha de sexta passada, (22), mostrou impacto menor do que esperado, com diferença de apenas 4 pontos no 2º turno: 47% para Lula, contra 43% de Flávio. Para o 1º turno, a distância aumentou: o presidente com 40% e Flávio 31%. 

Relevante salientar que o Brasil, 11ª economia do mundo, não investiu na politização e instrução de sua gente que, em termos sociais, segue como País de terceiro mundo, refém do populismo e das habituais promessas de campanha que não saem do palanque. Trata-se da velha política da bica d’água.

Assim, a despeito do baque para o pré-candidato do PL, pelas circunstâncias acima apontadas, se a candidatura sobreviver às próximas duas semanas pode não ter grande importância daqui a pouco mais de 4 meses. E mais: pesquisas de opinião oscilam de acordo com o momento específico. Mudam mercê do fato mais recente… do escândalo da vez… da descoberta de novos bodes nas salas e por aí segue.

Já vimos esse filme

“A sociedade
só toma
conhecimento
quando quer”

(FERNANDO H. CARDOSO)

Em 2005, o estridente escândalo do Mensalão balançou a candidatura de reeleição de Lula. Mas, com o transcurso de tempo entre as denúncias e a realização do pleito, o líder do PT emplacou novo mandato. Agora, da mesma forma, ao eleitor petista convicto não vai importar as promessas que não foram cumpridas, a picanha com cervejinha e a redução da inflação. Nem que os juros estão mais altos do que quando assumiu a Presidência, bem como o endividamento das famílias, o recorde no número de aumento dos impostos, o rombo fiscal, o fiasco da COP 30 e por aí adiante. O eleitor do PT vai votar em Lula, e ponto. 

No outro lado da moeda, o sentimento antipetista, o desgaste do PT e a elevada rejeição a Lula é que podem manter vivas as pretensões de Flávio. Afinal, a termo e a cabo, o bolsonarista de carteirinha, igualmente, não está nem aí para o que Flávio fez ou deixou de fazer. Assim é o Brasil.