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Mar avança e desloca foz do Paraíba do Sul

Pesquisas apontam migração do canal principal em direção a Gargaú, em São Francisco

Região
Por Ocinei Trindade
25 de janeiro de 2026 - 0h03
Em Gargaú|Além de alterar a paisagem, avanço do mar também modificou a foz do Paraíba (Foto: SOS Atafona)

O avanço do mar em Atafona, no município de São João da Barra, é um fenômeno conhecido, estudado e documentado há mais de quatro décadas. Nos últimos anos, porém, pesquisadores, ambientalistas e gestores públicos passaram a observar um novo movimento na foz do Rio Paraíba do Sul: o canal principal de saída para o oceano vem se deslocando gradualmente para o norte, em direção à localidade de Gargaú, em São Francisco de Itabapoana, ao mesmo tempo em que se afasta de Atafona.

Eduarda Bulhões (Foto: Arquivo Pessoal)

Segundo o geógrafo marinho e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Eduardo Bulhões, esse comportamento está diretamente relacionado à natureza do delta do Paraíba do Sul, que evolui há cerca de cinco mil anos e responde de forma desigual às forças do rio e do mar. “A foz do Rio Paraíba do Sul faz parte do que tecnicamente chamamos de um complexo deltaico. Trata-se de um delta assimétrico, dominado por ondas, o que significa que é a energia do mar que controla sua evolução ao longo do tempo”, explica Bulhões.

De acordo com o pesquisador, estudos desenvolvidos majoritariamente pela UFF indicam que o sistema vem acumulando mais areia ao norte da foz e menos ao sul, o que provoca efeitos diretos sobre os dois municípios. “Esses mecanismos promovem um crescimento quase contínuo da planície ao norte, em São Francisco de Itabapoana, e geram instabilidade no aporte de sedimentos ao sul, contribuindo para a erosão crônica em Atafona. Essa assimetria oferece indícios claros de um deslocamento progressivo da foz para o norte, algo que já conseguimos observar na escala de tempo atual”, afirma.

Para o ambientalista Arthur Soffiati, a leitura do fenômeno exige uma visão mais ampla, que considere não apenas a foz, mas toda a bacia hidrográfica do Paraíba do Sul e as transformações climáticas globais. “Para entender a situação da foz, é preciso olhar o que aconteceu na bacia como um todo e também no mar. A bacia sofreu desmatamento, erosão, poluição, barramentos e perdeu cerca de dois terços de sua vazão com a transposição para o Rio Guandu”, destaca.

Segundo Soffiati, mesmo antes dessas intervenções humanas, a foz já apresentava instabilidades, mas o cenário atual é agravado pela elevação do nível do mar. “Na luta entre rio e mar, o mar está vencendo. No passado, durante as cheias, o Paraíba desembocava por dois braços e também pelas lagoas de Grussaí, Iquipari e Açu. Hoje, ele desemboca praticamente apenas pelo braço de Gargaú. A tendência é o fechamento permanente do braço de Atafona”, avalia.

Camila Hissa (Foto: Arquivo Pessoal)

Influências na economia
As mudanças na foz têm impactos diretos sobre a vida econômica e social da região, especialmente na pesca artesanal. Para Camila Hissa, integrante do movimento SOS Atafona, a dificuldade de navegabilidade tem levado pescadores a buscar alternativas fora do município.

“O deslocamento da foz tem provocado grandes dificuldades aos pescadores, que estão levando suas embarcações para outros portos, como Macaé, Cabo Frio e Marataízes, para conseguir entrar e sair com o pescado”, relata.

A Secretaria Municipal de Meio Ambiente de São Francisco de Itabapoana disse que acompanha de perto a evolução da dinâmica costeira na região de Gargaú.   Segundo a secretária Luciana Soffiati, o município realiza monitoramento técnico contínuo da região, atento aos riscos futuros.