

Se vocA? fosse resumir o significado da HistA?ria e o papel dos historiadores no Brasil e no mundo, como definiria?
O historiador A� o pesquisador que acaba revelando verdades que ninguA�m quer ouvir para nA?o destruir a zona de conforto de conceitos estabelecidos.
A internet ajudou a produzir histA?rias para a HistA?ria? Como lida com a velocidade da informaA�A?o hoje em dia?
Sim, a internet escreve a atual histA?ria da humanidade, A� o nosso tempo, o aqui e o agora. A velocidade da informaA�A?o muitas vezes espanta, mas o que mais me espanta A� a velocidade da desinformaA�A?o, ou da a�?informaA�A?oa�? trucada, que acaba pulverizando ruA�dos.
Sobre Campos, como A� pesquisar sua histA?ria e como consultar as fontes de pesquisa? Quais sA?o as suas fontes? Como vocA? trabalha?
A nossa histA?ria A� muito rica e ainda hA? muito a ser trabalhado. Os cursos de humanas nas nossas universidades tem dado um tratamento especial a essas fontes e nos revelado histA?rias incrA�veis.
Campos ao contrA?rio de outros municA�pios nA?o queimou sua documentaA�A?o referente ao perA�odo da escravidA?o, por exemplo, nA?o seguiu a cabeA�a do Rui Barbosa, e por essa razA?o temos muitos documentos preservados no nosso Arquivo PA?blico Municipal cuja equipe faz um trabalho primoroso.
A CA?mara Municipal, gestA?o de Dr. Edson em parceria com o APM, iniciou um trabalho de recuperaA�A?o das primeiras atas do nosso legislativo para serem disponibilizadas na internet felicitando a busca e a pesquisa.
Adoro ter a minha disposiA�A?o inA?meras bibliotecas e A� nela que busco informaA�A�es, alA�m da minha prA?pria biblioteca que A� A�nfima perto da de tio Welligton, tambA�m tiro dA?vidas com a equipe do APM.
Afinal, Campos tem quantas datas de aniversA?rio? Qual a melhor para adequA?-la: 28 de marA�o de 1835 ou 29 de maio de 1677? E por quA??
NA?o sA?o tantas datas assim. Uma A� de fundaA�A?o da Villa de SA?o Salvador dos Campos a�� 29 de maio de 1677 e outra de elevaA�A?o A� categoria de cidade a�� 28 de marA�o de 1835. Uma A� data de nascimento e a outra de maior idade para melhor entendimento. Penso que todas duas devem ser celebradas (trazidas A� lembranA�a) uma vez que sA?o dois momentos distintos de nossa trajetA?ria histA?rica.
A idade de Campos estA? sendo revista por parte de alguns movimentos de historiadores, pesquisadores e jornalistas? Qual a sua opiniA?o sobre o inA�cio da histA?ria?
O historiador trabalha com fontes, sejam elas orais, escritas, iconogrA?ficas, mas A� preciso que essas fontes dialoguem e que sejam incontestA?veis. Sendo assim as fontes mais precisas sA?o as da fundaA�A?o da Villa por Salvador Correa de SA? e Benevides e a de elevaA�A?o A� categoria de cidade, as demais datas e fontes sA?o frA?geis, mas claro sA?o A?timas para promover o debate profA�cuo de conhecimento histA?rico.
Como vocA? avalia o interesse das pessoas pelo passado e pela histA?ria do paA�s e da cidade onde vive? Como estA? Campos na HistA?ria?
A cada documento revelado, uma nova interpretaA�A?o pode ser feita, e mais um ponto do enorme quebra-cabeA�a A� colocado A� luz.
Nossa histA?ria econA?mica, desde os primeiros anos de colonizaA�A?o do Brasil, sempre nos colocou em destaque na historiografia nacional a�� o gado, a indA?stria aA�ucareira e a de extraA�A?o do petrA?leo. Sendo assim a nossa histA?ria refletiu todos os momentos da histA?ria mundial e nacional, mas ainda hA? muito a ser revelado.
VocA? tem na sua famA�lia alguns vultos histA?ricos, como o seu pai Wilson Paes, ex-prefeito e o seu tio Wellington Paes, mA�dico, imortal da ACL e um colecionador de jornais e revistas. Fale um pouco deles e de sua ligaA�A?o com esse lado da histA?ria pessoal que se mistura A� da cidade.
Minha a avA? Nini A� a grande a�?culpadaa�? de tudo isso.
Em homenagem a ela minha segunda filha se chama Anna. Uma senhora baixinha, da roA�a (Murundu) que sA? tinha atA� a terceira sA�rie primA?ria, mas que gostava de ler os clA?ssicos nacionais e que lia muito para seus netos. O gosto da minha avA? pela leitura e pela contaA�A?o de histA?rias da famA�lia inclusive incentivou todos nA?s, meu pai, meu tio e a mim. Meu pai dizia que sA? quem pode avaliar nossos feitos sA?o os outros, isso A� sA?bio, entA?o deixo aos outros essa tarefa. Mas sem dA?vida, o fazer bibliA?filo do meu tio A� uma importante contribuiA�A?o para nA?s, na medida que ele nA?o sA? coleciona, e muito organizadamente, revistas, jornais, folheteria e livros, mas tambA�m os disponibiliza A� pesquisadores.
VocA? frequenta muito a biblioteca de seu tio, Wellington? Como A� essa rotina? Como poderia abrir mA?o dessa preciosidade?
Frequentemente ligo para Tio Welligton e deixo com ele a tarefa de localizar a resposta que necessito, muitas vezes para colegas. Depois repasso a informaA�A?o construindo a ponte, ou eu mesma vou atA� lA? e bebo na fonte (alA�m da cerveja gelada compartilhada). No momento estou aqui pesquisando sobre cantigas de roda e brincadeiras para a construA�A?o do A?ltimo livro infanto-juvenil da ColeA�A?o TA? Chegando, que deverA? abordar esse assunto. A obra pesquisada A� da Ana Augusta Rodrigues, folclorista que recolheu esses cantares e brincares em Campos e SA?o JoA?o da Barra a�� ela morou na Usina de Barcelos, onde seu marido ocupava importe cargo.
Como avalia a situaA�A?o dos arquivos pA?blicos e bibliotecas pA?blicas de Campos, como o Arquivo Municipal em Tocos e o PalA?cio da Cultura desativado?
O Arquivo PA?blico Municipal viu poucos momentos de fartura seja em material humano ou de uso para elaboraA�A?o do seu importantA�ssimo trabalho. Mas a equipe, embora pequena e com poucos recursos, continua garimpando preciosidades e disponibilizando o material.
JA? a Biblioteca Municipal, que homenageia o maior estadista que jA? tivemos na histA?ria local e nacional, que foi o Nilo PeA�anha, vive um momento de caos. Ou melhor, vivemos um momento de caos sem ela. Muitos podem atA� dizer que ela nA?o faz falta porque hoje ninguA�m mais lA? … Eu diria que isso nA?o A� uma verdade. Primeiro porque a BMNP nA?o abrigava apenas livros material, mas tambA�m os virtuais colocando um conjunto de computadores e rede de internet a disposiA�A?o de um nA?mero enorme de pessoas alA�m de orientar as consultas de estudantes. Digo atA� que passamos por uma mudanA�a na forma da leitura, assim como aconteceu quando deixamos de ler tA?buas de argila para ler pergaminhos, e desses para ler livros, e agora para ler virtualmente muitas outras formas de texto.
A HistA?ria se preocupa mais com o passado, com o presente ou com o futuro? Como lidar com essas narrativas que servem para nortear e identificar uma cultura ou uma sociedade?
A histA?ria se preocupa em contar a histA?ria sem julgamentos, apenas expor as verdades, que sA?o muitas, dependendo do objeto estudado ou exposto. Presente, passado e futuro sA?o abstraA�A�es do tempo para nossa orientaA�A?o. Eu diria que a abstraA�A?o temporal A� a mais difA�cil de absorvermos. A abstraA�A?o de quantidade pode ser visualizada em nA?meros, a de espaA�o pode ser visualizada em plantas e mapas, mas a temporal embora visualizadas em nA?meros (2018) ou (11:03) ela pode ser facilmente identificada, mas nA?o quantificada, nem Einstein conseguiu entender muito bem o tempo e essa foi uma das suas frustaA�A�es. A histA?ria de longa duraA�A?o e a histA?ria de curta duraA�A?o trabalhada pelo LeGofe, nos dA? um melhor sentido para a construA�A?o da histA?ria da humanidade no local ou no global.
A sociedade, a polA�tica, a economia e as artes ajudam a contar a HistA?ria de um povo. Como Campos estA? escrevendo sua histA?ria neste momento ou nos A?ltimos tempos?
O campista A� tisgo, cabrunco e lamparA?o, tudo isso junto e misturado nos dA? uma caracterA�stica A�mpar no territA?rio. Um viajante do sA�culo XIX nos identificou como rudes, com muito dinheiro as sem civilidade, sem hA?bitos civilizados das cidades grandes e ricas, e somos habitantes de uma cidade grande e rica. Mas somos assim estranhos. E na nossa estranheza social, fomos e somos capazes de construA�A�es fantA?sticas nas artes e na polA�tica. A economia desenvolvida no territA?rio A� claro alavancou a construA�A?o do ecletismo, por exemplo, revelado em nossa arquitetura. Em qualquer setor das artes temos campistas de destaque nacional e internacional a�� artes PlA?sticas, mA?sica erudita ou popular, nA?o vou cometer a insanidade de citar, pois nA?o caberia na limitaA�A?o solicitada nessa entrevista. Cabe uma matA�ria a parte.
O interesse pela preservaA�A?o e pela valorizaA�A?o da HistA?ria comeA�a nas escolas, em casa, nos governos? Como estimulA?-las em tempos de internet?
Atualmente sou bolsista de universidade aberta no grupo de pesquisa Oficina, orientado pela professora Simonne Teixeira a�� UENF/CCH/LEEA e lA? vimos desenvolvendo trabalho sobre educaA�A?o patrimonial ambiental, onde alA�m do estudo e reflexA?o, organizamos cursos palestra e material didA?tico pedagA?gico. NA?s entendemos que a preservaA�A?o e a valorizaA�A?o da histA?ria e do patrimA?nio sA? acontece se o sujeito entende que o patrimA?nio lhe pertence. EntA?o se nos governos e as famA�lias tivermos sujeitos conscientes de sue empoderamento e pertencimento de todo essa riqueza patrimonial ambiental, entA?o teremos uma histA?ria e um patrimA?nio preservados, valorizado e, conservados, para legarmos orgulhosamente as geraA�A�es futuras.
VocA? A� autora de algumas obras literA?rias. O que prefere? Realidade ou ficA�A?o? Fale de seus livros.
Sem dA?vida sA?o obas de ficA�A?o, mas baseadas em sA?lidas pesquisas. Escrever para os pequenos A� uma tarefa que pode parece fA?cil, mas nA?o A�. Quando escrevemos para iguais a tudo momento somos contestadas ou confrontadas, mas quando escrevemos para os pequenos eles tomam o que colocamos no papel como verdades incontestA?veis, entA?o a nossa preocupaA�A?o e responsabilidade cresce.
A pesquisa tem que ser tA?o sA�ria e profunda como se fosse para os grandes, mas muito cuidadosamente colocadas para eles. Contamos tambA�m com o trabalho do nosso ilustrador AlA�cio Gomes e de nossas revisoras Simonne Teixeira, Arlete Sendra e Edda Moreira.
A ColeA�A?o a�?TA? Chegandoa�? A� composta d seis livros, todos com abordagem do patrimA?nio cultural ambiental a�� O Ururau PanA�udo fala da lenda do Ururau da Lapa e para ela lemos OsA?rio Peixoto e Sisneiros; Indiozinho CrascA? a�� trA?s o nosso indA�gena GoitacA? e a mata de restinga seu habitat junto ao mar, para esse buscamos uma pesquisa realizada pela Officina com leitura de mais de vinte viajantes e memorialistas sobre os indA�genas da nossa regiA?o; Rainha Raya��a fala da tradiA�A?o dos nossos doces e da Mulata Teixara nele buscamos internet, e um trabalho de pA?s-graduaA�A?o do Ives Duque (IFF) especialmente sobre o chuvisco; Chiquinha Faceira que rememora a nossa danA�a da Mana Chica, a mana Chica do Caboio, foi pesquisada em OrA?vio Soares e Alberto Lamego.
O prA?ximo serA? o MistA�rio do Jongo que pretendemos lanA�ar na X Bienal do Livro de Campos, traz a danA�a de origem africana e nossa Noinha como jongueira jA? patrimonializada. Mas antes desse lanA�amos ainda esse mA?s de maio A HistA?ria do Livro, que nA?o faz parte da coleA�A?o e que trA?s a histA?ria da escrita atA� os e-books.
Como historiadora, arrisca um palpite de como estaremos daqui a 100, 200, 500 anos? O que o passado pode nos ensinar para encarar o futuro?
Eu nA?o!!!!! A histA?ria nA?o A� previsA�vel, mas o homem o A�, entA?o podemos dizer que continuaremos construindo coisas boas e mA?s, coisas que agradam e desagradam, transformando o patrimA?nio recebido e legando algo mais as geraA�A�es futuras, tecendo e bordando conhecimentos, histA?rias, saberes, com cores fortes ou esmaecidas, mas sempre construindo.
Para vocA?, a HistA?ria se repete entre as civilizaA�A�es com altos e baixos, abundA?ncia e declA�nio? Devemos ser otimistas ou pessimistas diante dos fatos atuais?
A histA?ria nA?o se repete exatamente, ela pode parece igual uma vez que a humanidade nA?o muda em sua essA?ncia, continuamos em nossa humanidade a ser amorosos, traidores, corruptos, companheiros, assassinos, irmA?os… mas a tecnologia estA? sempre mudando e dando novas caras ao nosso a�?sera�? humano. NA?s temos historicamente falando, mais de 12 mil anos de histA?ria, e podemos continuar por um tempo ainda maior com momento de ais consciA?ncia humanitA?ria e outros de mais guerras e atrocidades. Gosto muito do Lulu Santos e a letra da sua mA?sica a�?Como uma onda no mara�? e em outra ela fala … e assim caminha a humanidade com passos de formiga e sem vontade …