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Abstenção e rejeição podem decidir 2º turno

Especialistas avaliam que não comparecimento é um dos fatores que podem decidir disputa

Especial J3
Por Ocinei Trindade
18 de outubro de 2026 - 0h02

Os brasileiros voltam às urnas no dia 25 de outubro para o segundo turno das eleições presidenciais. A população de cinco estados e do Distrito Federal também elegerá seus governadores. A disputa entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pela Presidência da República gera grande expectativa. Os dois candidatos estão tecnicamente empatados, segundo vários institutos de pesquisa. No primeiro turno, Flávio obteve 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula recebeu 45,16%. O petista tenta reverter a desvantagem. Para alguns analistas, a rejeição aos dois candidatos e a abstenção de eleitores no próximo turno podem influenciar o resultado final.

De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), dos 158,7 milhões de eleitores aptos a votar, aproximadamente 33,4 milhões não compareceram às urnas no primeiro turno. O índice de abstenção foi de 21,08%, enquanto o comparecimento chegou a 78,92%. Foi a maior taxa desde 1998. Em 2022, a abstenção no primeiro turno havia sido de 20,95%.

Em Campos dos Goytacazes, Flávio Bolsonaro venceu o primeiro turno com 160.859 votos, equivalentes a 59,10% dos votos válidos. Lula recebeu 91.105 votos, ou 33,47%. Dos 370.237 eleitores aptos a votar em Campos, 80.008 não compareceram às urnas.

O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, afirmou que a Corte pretende intensificar as ações para ampliar a participação dos eleitores no segundo turno. A avaliação é de que o comparecimento precisa aumentar, embora não haja uma única causa identificada para explicar as ausências. Pesquisa Datafolha divulgada em 9 de outubro apontou diferentes motivos relatados por quem deixou de votar: viagem ou ausência da cidade (19%), problemas de saúde (18%), desinteresse pelas eleições ou candidaturas (13%), compromissos de trabalho (9%) e falta de documentos (7%).

Ao analisar a disputa do segundo turno, o cientista político e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Fabrício Maciel, ponderou que o resultado da primeira votação não permite antecipar automaticamente o desfecho da eleição. Na avaliação do professor, a vantagem obtida por Flávio Bolsonaro na primeira etapa e a percepção de maior mobilização de sua campanha são elementos relevantes para a análise do cenário eleitoral.

Fabrício Maciel (Foto: Arquivo Pessoal)

“Desde a eleição presidencial de 1989, os candidatos que terminaram o primeiro turno na frente venceram o segundo. Esse histórico deve ser considerado na avaliação da disputa, mas sem desconsiderar as particularidades do pleito atual e a possibilidade de alterações no comportamento do eleitorado. A abstenção é um fenômeno complexo e recorrente nas eleições recentes. Há pessoas que decidem conscientemente não participar por insatisfação com a política ou por não atribuírem importância ao pleito. Ainda não é possível afirmar se o índice de abstenção aumentará ou diminuirá no segundo turno. A campanha de Lula direciona esforços para conquistar parte dos eleitores que não compareceram às urnas, estratégia para alterar a correlação de forças na disputa”, explica.

Helen Carneiro (Foto: Arquivo Pessoal)

A analista política Helen Carneiro, professora de Direito Constitucional da Universidade Cândido Mendes, acredita que a disputa concentrada em dois candidatos tende a estimular o envolvimento de eleitores e simpatizantes nas redes sociais. “Esse ambiente pode ampliar a participação e acirrar a polarização entre os grupos que apoiam os dois concorrentes. Vejo uma maior mobilização nas redes sociais. Apesar dessa percepção, ainda é necessário acompanhar o comportamento do eleitorado até a votação. A abstenção pode ter influência significativa na definição do resultado final, especialmente em uma eleição marcada pela polarização entre os candidatos”, afirma.

Institutos de pesquisa eleitoral
A poucos dias do segundo turno, os levantamentos dos institutos de pesquisa eleitoral sobre as candidaturas de Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva mostram as preferências dos brasileiros e indicam uma disputa acirrada entre os dois candidatos. Dados divulgados pelo Datafolha, BTG/Nexus, PoderData/AYA, Quaest e Palver mostram vantagem numérica para o candidato do PL, mas as diferenças estão dentro das margens de erro, configurando empate técnico.

Voto|Em Campos, mais de 80 mil eleitores não compareceram às urnas (Foto: Silvana Rust)

A pesquisa Datafolha, divulgada na quinta-feira (15), aponta Flávio Bolsonaro com 47% das intenções de voto, contra 45% de Lula. A margem de erro é de dois pontos percentuais. Considerando apenas os votos válidos, o candidato do PL tem 51%, enquanto o petista registra 49%. Brancos, nulos e nenhum dos candidatos somam 6%, e 2% dos entrevistados estão indecisos.

Na pesquisa BTG/Nexus, divulgada em 13 de outubro, Flávio aparece com 52% dos votos válidos, contra 48% de Lula. Já o levantamento PoderData/AYA, publicado no mesmo dia, indica 51% para o candidato do PL e 49% para o presidente. Ambos apontam empate técnico, considerando as margens de erro informadas de dois e 1,8 ponto percentual, respectivamente.

A primeira pesquisa Quaest sobre o segundo turno, divulgada na quarta-feira (14), mostra Flávio Bolsonaro com 46% das intenções de voto e Lula com 44%, também dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. Os indecisos representam 1% dos entrevistados, enquanto 9% declaram voto branco ou nulo ou afirmam que não pretendem votar.

O levantamento Quaest também avaliou a rejeição dos candidatos. Segundo a pesquisa, 54% dos entrevistados afirmaram que não votariam em Flávio Bolsonaro, enquanto 53% disseram o mesmo em relação a Lula. Sobre o governo federal, 48% declararam desaprovar a gestão petista, e 45% afirmaram aprová-la.

Apesar das diferenças nos números, os cinco levantamentos apontam para uma eleição competitiva, sem vantagem estatisticamente conclusiva de um candidato sobre o outro. A comparação exige cautela, uma vez que as pesquisas utilizam metodologias, amostras e critérios distintos para apresentar os resultados.

Ainda segundo a analista, quando as pesquisas apontam empate técnico “O cenário eleitoral pode sofrer alterações até a votação, dependendo da capacidade de mobilização das campanhas e das mudanças de posicionamento do eleitorado, como a formação de alianças, a rejeição aos candidatos e a capacidade de atrair os eleitores que ainda não definiram seu voto”, considera.

Comportamento do eleitor
O economista Ranulfo Vidigal avaliou que o resultado do primeiro turno favoreceu inicialmente Flávio Bolsonaro (PL), impulsionado também pelo avanço das forças conservadoras no Congresso Nacional eleito para a próxima legislatura. Entretanto, ele apontou que pautas trabalhistas, medidas econômicas do governo federal e a discussão sobre o fim da escala de trabalho 6×1, contribuíram para tornar a disputa mais equilibrada.

“A diferença observada nas primeiras pesquisas pode ter diminuído, embora ainda não haja elementos suficientes para afirmar uma virada eleitoral. A candidatura de Lula recuperou espaço, mas Flávio Bolsonaro continuaria em vantagem numérica”, resumiu.

Ranulfo Vidigal (Foto: Arquivo Pessoal)

O economista Ranulfo Vidigal também destacou o papel dos eleitores indecisos na disputa presidencial do segundo turno. “Esses eleitores deverão avaliar qual dos projetos políticos apresenta melhores perspectivas para o futuro, considerando fatores como renda, emprego e qualidade de vida. Essa avaliação poderá tanto consolidar o resultado do primeiro turno quanto provocar mudanças na distribuição dos votos entre os candidatos. Isso dependerá da intensidade das campanhas eleitorais, da mobilização popular nas ruas e do ambiente emocional que envolve a disputa. Embora não considere uma virada eleitoral o cenário mais provável neste momento, o comportamento dos indecisos e os acontecimentos das próximas semanas podem influenciar o resultado final”, conclui.