

Os números das últimas eleições mostram uma mudança no comportamento eleitoral dos campistas. Entre 2010 e 2024, Campos passou por diferentes ciclos políticos, com alternância de partidos e lideranças locais. No voto para presidente, a mudança ficou mais nítida a partir de 2018, quando candidatos identificados com a direita passaram a dominar a disputa. Ainda assim, os resultados para outros cargos mostram que reduzir o eleitor campista a “direita” ou “esquerda” simplificaria uma realidade marcada também por nomes, famílias políticas e avaliações de governo.
Em 2010, Dilma Rousseff (PT) foi a mais votada no primeiro turno, com 91.973 votos, seguida por José Serra (PSDB), com 76.991, e Marina Silva (PV), com 69.099. No segundo turno, Serra passou à frente e venceu por 124.141 a 110.731.
Em 2014, Dilma liderou novamente o primeiro turno, com 87.767 votos, contra 76.892 de Marina Silva (PSB) e 66.909 de Aécio Neves (PSDB). No segundo turno, venceu por 129.689 a 107.652.
A mudança mais clara ocorreu em 2018. Jair Bolsonaro (PSL) teve 131.431 votos, contra 40.355 de Fernando Haddad (PT). Em 2022, Bolsonaro chegou a 159.381 votos, enquanto Lula teve 93.871. No segundo turno, foram 171.999 votos para Bolsonaro e 100.427 para Lula.


Segundo os dados do TSE, houve uma mudança para a direita no voto presidencial campista a partir de 2018. Para o cientista político Rodrigo Lira, porém, isso não basta para definir todo o eleitorado.
“O que os números apresentados permitem afirmar com bastante segurança é que houve uma mudança muito expressiva no voto presidencial a partir de 2018 e que esse movimento permaneceu forte em 2022. Mas ainda seria precipitado transformar isso na definição de uma identidade política única do eleitor campista. Quando observamos as eleições municipais, a composição da Câmara e mesmo a votação de candidatos de diferentes campos políticos, aparece uma realidade muito mais plural”, afirma.




Mudança também para outros cargos
Para governador, a mudança também aparece. Em 2010, Sérgio Cabral (PMDB) liderou em Campos, com 122.778 votos. Em 2014, Anthony Garotinho (PR) foi o mais votado, com 96.584. Em 2018, Wilson Witzel (PSC) liderou com 76.432 e, em 2022, Cláudio Castro (PL) chegou a 192.042, contra 40.383 de Marcelo Freixo (PSB).
No Senado, houve maior alternância. Lindbergh Farias (PT) liderou em 2010, com 124.798 votos. Em 2014, Romário (PSD) foi o mais votado. Em 2018, Flávio Bolsonaro (PSL) liderou, com 106.436, e, em 2022, Clarissa Garotinho (União) ficou em primeiro, com 107.239, seguida por Romário (PL) e Alessandro Molon (PSB).
Entre os deputados, o peso de nomes e grupos locais fica mais evidente. Anthony Garotinho (PR) liderou a disputa para deputado federal em 2010, Clarissa Garotinho (PR) em 2014 e Wladimir Garotinho (PRP) em 2018. Em 2022, Caio Vianna (PSD) esteve à frente.
Para deputado estadual, nomes ligados à política local também dominaram as primeiras posições. Roberto Henriques (PR) e Geraldo Pudim (PR) lideraram em 2010; Bruno Dauaire (PR) e Geraldo Pudim, em 2014; Abu (PPS) e Gil Vianna (PSL), em 2018. Em 2022, Rodrigo Bacellar (PL), seguido por Bruno Dauaire (União), e Thiago Rangel (Podemos).
O voto que muda
A ciência política recomenda cautela ao classificar os partidos brasileiros em uma única régua ideológica. Estudo de Bruno Bolognesi, Ednaldo Ribeiro e Adriano Codato, publicado na revista Dados, a partir de levantamento com 500 integrantes da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP), identificou mudanças na posição ideológica de diferentes legendas e apontou movimento de parte do sistema partidário em direção à direita. A pesquisa também chama atenção para siglas cuja atuação é mais orientada pela conquista de votos e cargos do que por programas ideológicos definidos.
Na prática, isso aparece em Campos. Em 2018, Wladimir foi o deputado federal mais votado, seguido por Marcão Gomes (PR) e Caio Vianna (PDT). Em 2022, Caio passou à liderança, seguido por Juninho Virgílio (União), e Luis Carlos Gomes (Republicanos
Grupo local pode alterar o mapa eleitoral
A eleição municipal reforça essa diferença. Em 2020, Wladimir Garotinho, então no PSD, venceu a Prefeitura no segundo turno com 121.174 votos, contra 110.094 de Caio Vianna (PDT). Em 2024, já pelo PP, foi reeleito com 192.232 votos. Delegada Madeleine (União) ficou em segundo, com 67.354, e Professor Jefferson (PT) teve 13.222.
Entre os vereadores mais votados também aparecem diferentes campos políticos. Em 2024, lideraram Kassiano Tavares (PP), Thamires Rangel (PMB) e Marquinho Bacellar (União). Em 2020, Abdu Neme (Avante), Anderson de Matos (Republicanos) e Marquinhos Bacellar (Solidariedade) ficaram entre os primeiros. Em 2016, Marcão Gomes (Rede), Pastor Vanderly Mello (PRB) e Jorge Rangel (PTB) foram os mais votados.
Para Rodrigo Lira, o eleitor pode utilizar critérios diferentes conforme o cargo. “Na eleição presidencial entram com muita força temas nacionais, identidade política, economia, segurança, valores e avaliação dos grandes campos políticos. Na eleição municipal, a proximidade aumenta muito”, explica. Nesse caso, entram avaliação da administração, conhecimento pessoal do candidato, atuação nos bairros e distritos e vínculos com grupos políticos.


Eleitor pendular
A possibilidade de escolhas diferentes conforme o contexto também aparece na análise do cientista político George Coutinho. “Nesse sentido, não é incomum que um mesmo eleitor transite entre os dois lados do espectro político. No contexto contemporâneo, esse fenômeno também aparece na figura do chamado eleitor pendular: aquele que, em diferentes momentos, mostrou-se capaz de votar tanto em Lula quanto em Bolsonaro”, disse.
A história política de Campos traz exemplos. Em 2012, Rosinha Garotinho (PR) venceu a eleição para prefeita, enquanto Dr. Makhoul (PT) ficou em segundo. Em 2016, Rafael Diniz (PPS) venceu contra Dr. Chicão (PR), candidato da ex-prefeita Rosinha.
A trajetória da família Garotinho também ajuda a entender o cenário. Anthony Garotinho disputou a Presidência em 2002 pelo PSB e, após o primeiro turno, declarou apoio a Lula. Em 2014, como candidato ao governo do Rio pelo PR, esteve aliado nacionalmente à candidatura de Dilma Rousseff. A trajetória posterior aproximou o grupo do campo associado à direita, com apoio a Jair Bolsonaro e a Cláudio Castro em 2022.
“Garotinho transitou pelos dois lados do espectro político em sua biografia política e é, sem dúvida, um ator de indiscutível popularidade e uma espécie de arquiteto dos termos em que a cultura política local se organizou. Isso, evidentemente, revela uma dimensão de personalismo: um eleitorado que, a despeito das mudanças partidárias e programáticas de Garotinho, permanece, em alguma medida, fiel à sua figura”, afirma George.
Wladimir percorreu parte desse caminho em diferentes siglas. Foi eleito deputado federal em 2018 pelo PRP, passou pelo PSD e disputou as eleições municipais de 2020 e 2024 pela legenda. Em 2026, deixou a Prefeitura e se filiou ao PL para disputar novamente uma vaga na Câmara dos Deputados.


O eleitor campista tem lado?
O comportamento eleitoral também encontra respaldo em pesquisa do Núcleo Norte Fluminense do Observatório das Metrópoles. Em levantamento realizado em 392 domicílios da área urbana de Campos, em fevereiro e março de 2022, entre os entrevistados que declararam uma posição ideológica, 39,7% se identificaram com a direita, 31,6% com o centro e 28,7% com a esquerda. Ao mesmo tempo, 66,7% disseram não ter interesse por política e 21,7% não souberam ou não quiseram responder à questão ideológica.
A pesquisa identificou ainda elementos de conservadorismo na cultura política local, mas ressaltou o peso de fatores sociais, políticos e institucionais nessa formação.
Para George Coutinho, é necessário um levantamento específico e atualizado para definir com precisão um perfil do eleitor de Campos.
“É possível sustentar a existência de um comportamento pendular nas eleições majoritárias para a Presidência da República. A partir desse trabalho, realizado por meus colegas, podemos identificar uma tonalidade mais conservadora predominante no que diz respeito às escolhas valorativas e morais de parcela da população”, disse.
“É importante, contudo, não transformar essa constatação em uma caracterização definitiva do eleitor campista. O estudo nos oferece uma indicação relevante sobre determinados traços da cultura política local, mas não permite, por si só, estabelecer um perfil completo do comportamento eleitoral do município”, completa.
Os dados e as análises dos cientistas apontam, assim, para um eleitorado que pode escolher candidatos de diferentes campos conforme a eleição e o contexto. “Em vez de afirmar simplesmente que ‘Campos é de direita’ ou ‘Campos é de esquerda’, considero mais interessante dizer que Campos passou por uma clara mudança no seu padrão de voto presidencial a partir de 2018, sem que isso tenha eliminado a pluralidade e a lógica própria que historicamente caracterizam a política local”, resume Rodrigo Lira.


Três ex-prefeitos na disputa deste ano
A eleição de 2026 acrescenta outro elemento a essa história: três ex-prefeitos conhecidos da região tentam levar para o Legislativo a força política construída em seus municípios.
Carla Machado, ex-prefeita de São João da Barra por quatro mandatos, chegou à Alerj pelo PT em 2022, deixou a legenda em abril de 2026, ingressou no PSD e concorre novamente. Francimara Azeredo, ex-prefeita de São Francisco de Itabapoana, disputa uma vaga de deputada estadual pelo Solidariedade. Wladimir Garotinho, ex-prefeito de Campos, disputa uma vaga de deputado federal pelo PL, após deixar o cargo em abril deste ano.
Os partidos mencionados na reportagem correspondem às legendas pelas quais os candidatos disputaram as respectivas eleições.