

Campos enfrenta há anos desafios relacionados à mobilidade urbana, com gargalos logísticos e problemas de infraestrutura que impactam a circulação, a conectividade e o desenvolvimento do município. O transporte público também está entre os principais pontos de atenção.
Entre as questões que permanecem sem solução definitiva estão o contorno da BR-101, a ligação da rodovia com a Ponte Alair Ferreira, em Guarus, e a Estrada dos Ceramistas, na Baixada Campista. A suspensão de voos comerciais no Aeroporto Bartolomeu Lisandro também representa um obstáculo para a conectividade da cidade. São demandas que afetam não apenas o deslocamento da população, mas também a logística e a atividade econômica do município.


BR-101 e os gargalos que não são resolvidos
Uma das questões que mais preocupam Campos quando os assuntos são mobilidade urbana e o sufocamento da competitividade do município por conta dos gargalos logísticos é a concessão da BR-101. A nova concessão, vencida pela Arteris sem concorrência, tem pontos importantes para a cidade. Entre eles, destacam-se o contorno da rodovia no município e a incorporação da Avenida Estilac Leal ao traçado federal, absorvendo a Ponte Alair Ferreira e tirando o fluxo de caminhões da área urbana.
Porém, as duas situações não estão entre os planos mais urgentes da concessão, assinada em 2026 e renovada até 2048. Sobre o contorno de Campos, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) declarou à reportagem que o cronograma contratual tem entrega do Projeto Executivo prevista para o 5º ano de concessão e emissão da licença ambiental no 8º ano de concessão. Sem previsão para execução das obras.
“A efetiva execução das obras e a inclusão do trecho correspondente no contrato de concessão dependerão de deliberação da ANTT e da celebração de termo aditivo, com os respectivos efeitos tarifários incorporados por meio de revisão extraordinária ou quinquenal, com base no projeto executivo aceito. Assim, a execução da obra ainda dependerá das providências e aprovações contratuais mencionadas”, diz a nota. Sobre a incorporação da Av. Estilac Leal à rodovia, fazendo a ligação direta da rodovia à Ponte Alair Ferreira, a população terá que esperar ainda por até seis anos, como informou a Arteris. “A intervenção deverá ser executada até o 6º ano da concessão, o que corresponde ao prazo limite de março de 2032.


Estrada dos Ceramistas sem prazo
Enquanto as intervenções na BR-101 têm prazos, ainda que longos, a Estrada dos Ceramistas sequer tem previsão de conclusão das obras. O Departamento de Estradas de Rodagem (DER-RJ) disse ao J3 apenas que as obras na RJ-238 têm previsão de serem retomadas em breve. “O DER-RJ já conduz os procedimentos necessários para a continuidade das intervenções e mantém acompanhamento técnico permanente da rodovia”, disse o órgão.


Sem acesso também por via aérea
As dificuldades de acesso que afetam Campos passam também pelos ares. Campos não tem voos comerciais desde março de 2025. Não há previsão da Azul, nem da Infra – empresa que administra o aeroporto Bartolomeu Lisandro -, de mudança no cenário. No mês passado, o subsecretário municipal de Turismo, Edvar Chagas Júnior, cobrou por iniciativas para mudança do cenário. Na visão dele, o principal problema do Aeroporto Bartolomeu Lisandro está no modelo de concessão adotado em 2019, com duração de 29 anos e seis meses. Em sua avaliação, foi firmado um contrato de longo prazo com uma empresa que não possui a mesma experiência e expertise de grandes operadores aeroportuários internacionais. A atuação da empresa vai além da gestão da infraestrutura, incluindo a captação de novas rotas, o relacionamento com companhias aéreas e o desenvolvimento econômico dos terminais.
Enquanto isso, Macaé passará a contar com voos diretos para o Aeroporto Internacional de Guarulhos, na Grande São Paulo, a partir de fevereiro de 2027. A operação será realizada pela Latam Airlines e marcará a estreia da companhia no município, conectando a região ao principal hub aéreo do país.


Município com soluções no radar
Diante deste cenário, o planejamento municipal de mobilidade busca saídas e alternativas, enquanto espera por outras soluções que independem da Prefeitura. As novas possibilidades foram reveladas ao J3News pelo subsecretário de Mobilidade Urbana, Sérgio Mansur. Em entrevista à reportagem, o engenheiro civil revelou que Campos estuda a implantação de uma nova via de ligação entre Travessão e Ururaí, utilizando o leito da antiga linha férrea.
“A proposta busca criar uma alternativa à BR-101, que atualmente corta a área urbana do município de norte a sul e concentra grande parte dos deslocamentos”, comenta Mansur.
O subsecretário de Mobilidade conta ainda que um anteprojeto do município prevê o aproveitamento do antigo leito ferroviário para a implantação de pistas de rolamento e ciclofaixas. “O planejamento também considera a possibilidade futura de utilização do corredor para um sistema de transporte coletivo de maior capacidade. A proposta seria executada por etapas e permitiria ampliar as opções de deslocamento entre diferentes regiões do município, reduzindo a dependência da BR-101”, diz.
Veículo Leve Sobre Pneus
Sobre o transporte, Sérgio Mansur revelou que a Prefeitura recebeu há cerca de duas semanas um urbanista e representante de uma empresa para apresentar a proposta de trazer veículos leves sobre rodas para a cidade. O equipamento é mais conhecido como VLP (Veículo Leve Sobre Pneus). “O município avalia essa possibilidade. Já sabemos, por exemplo, que seria bem mais barato e viável do que o VLT. Esse veículo andaria em vias e faixas exclusivas, sem engarrafamento. Caberia a adaptação de faixas para ele, bem como um estudo de demanda, identificando onde tem maior volume de passageiros e necessidade. Está no nosso radar. Temos que pensar grande pela cidade”, enfatiza.
Um caminho pela antiga ferrovia
Um tema que repercutiu bastante em Campos nos últimos meses foi a situação da antiga ferrovia na cidade. Em maio, o J3News divulgou com exclusividade a retirada de 32 vagões inservíveis da antiga Rede Ferroviária Federal do espaço histórico no município. Os equipamentos foram vendidos e levados para o Espírito Santo. A informação foi confirmada ao jornal à época pela VLI, companhia logística responsável pela gestão da Ferrovia Centro Atlântica (FCA) em todo o país. A FCA teve a sua concessão renovada com a VLI até 2056. Porém, com 3,1 mil km da malha ferroviária sendo devolvida ao Governo Federal. O Corredor Minas-Rio foi incluído neste pacote. Portanto, com Campos incluído no trecho devolvido à União.
A Prefeitura de Campos confirmou ao J3 que a Ferrovia Centro-Atlântica (FCA/VLI) está em processo de devolução do trecho ferroviário que corta a cidade ao Governo Federal, por desinteresse operacional da concessionária. Atualmente, grande parte da malha ferroviária existente no município encontra-se sem utilização e em estado de abandono. O subsecretário de Mobilidade Urbana, Sérgio Mansur, explica que essa devolução pode ter papel importante para o avanço de novos projetos na cidade.
“Para esse processo ser concluído, é necessário que seja definida e formalizada uma indenização ou compensação por parte da VLI à União. Isso poderia abrir espaço para projetos de mobilidade urbana em Campos. A ponte ferroviária poderia receber o veículo leve sobre rodas, bem como poderia tornar-se solução para ciclistas de Guarus para o Centro. Ela pode ser adaptada de diferentes formas. É um patrimônio histórico e a melhor maneira de preservar um patrimônio é utilizando e cuidando dele”, pontua.
Firjan cobra melhorias e envia propostas a candidatos
A reportagem especial consultou a Firjan sobre o quanto pesa sobre o município toda essa série de dificuldades logísticas enfrentadas há anos. Para o presidente da Firjan Norte Fluminense, Francisco Roberto Siqueira, quando os acessos logísticos não funcionam de forma adequada, o custo recai sobre toda a cadeia produtiva.


“A má condição das vias gera impactos diretos para a indústria, para o comércio, para os serviços e para a população. Há impacto na atração de novos investimentos, na eficiência das operações existentes e na capacidade de transformar os ativos regionais em desenvolvimento econômico”, pontua. A entidade enfatiza ainda que entregou nos últimos meses propostas aos candidatos a governador, visando melhorias pelo desenvolvimento da região:
“São muitos os desafios logísticos enfrentados na região. Nos últimos meses divulgamos o estudo Vocações e Potencialidades Econômicas do Rio de Janeiro e produzimos a Agenda de Propostas Firjan para um Rio de Futuro, que reúne sugestões também para o Norte Fluminense, com a intenção de que estes estudos possam se transformar em benefício não apenas para o setor produtivo, mas para toda a sociedade. A Firjan é parceira do Estado e tem feito a entrega do documento com as propostas aos candidatos à eleição apontando fronteiras capazes de transformar a indústria fluminense, gerar empregos e ampliar o desenvolvimento econômico”, conclui Francisco Roberto.