Aos 67 anos, Luiz Mário Concebida mantém uma atuação marcada pela inquietude intelectual e pela capacidade de antecipar ideias e projetos. Sem trocadilhos, concebeu iniciativas como o Fundo de Desenvolvimento de Campos (Fundecam) e a Organização dos Municípios Produtores de Petróleo (Ompetro). Atuou como assessor parlamentar na Constituição de 1988 e foi gerente regional da Firjan.
Assume o cargo de assessor executivo para projetos estruturantes da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico de Campos. Poderia ser apresentado como advogado, jornalista entre outras graduações incorporadas ao seu currículo. Melhor defini-lo como especialista em tudo que faz. Nos últimos 50 anos não há nada de economia em Campos e na região que de uma forma ou de outra não tenha passado pelas suas mãos. Modesto por natureza, ele também se define como radialista, falando com orgulho desta fase de sua vida. Nesta entrevista, Luiz Mário fala do novo desafio.
Você é dono de um currículo invejável e entre o muito que já fez eu destacaria a criação do Fundo de Desenvolvimento Econômico de Campos, bem antes dos Fundos Soberanos, ou seja, criou um modelo que depois inspirou outros e também. Criou a Ompetro, que reúne os municípios produtores de petróleo. Agora você assume a assessoria de projetos estruturantes da Prefeitura de Campos. Pode falar um pouco disso tudo?
Na realidade, a gente idealizou algumas coisas mais lá atrás. No período que estive no governo municipal, na gestão do doutor Arnaldo Vianna, estruturamos o fundo e a Ompetro. Mas tem muita coisa que a gente não conseguiu levar adiante, porque foi aquele período muito tumultuado com a doença do doutor Arnaldo. Então, nada foi completamente como imaginamos, embora tenha sido um grande passo. Depois nós tivemos a eleição de Carlos Alberto Campista, que resultou em uma curtíssima passagem, porque houve a cassação do mandato por questões que não vale aqui opinar. Houve depois uma outra eleição igualmente tumultuada, o ambiente político não era bom e o ambiente de negócios e de desenvolvimento sofreu efeitos colaterais. Deixei a Prefeitura em 2008. Muitos projetos não foram adiante, e perdemos oportunidades. O Fundo de Desenvolvimento de Campos, que inspirou muitos outros, foi uma ferramenta importante. Não era fundo perdido e sim um dinheiro para voltar. Essa era a filosofia que norteou o fundo. Gerar realmente novos negócios como faz, por exemplo, o BNDES, observadas as devidas proporções. Mas o modelo, por questões diversas, encolheu.
Além do fundo, você teve uma participação muito importante, inclusive na redação da criação da Ompetro, que hoje é uma entidade muito forte. Como foi botar todos os prefeitos dos municípios nesta organização?
As pessoas me conhecem muito, do radialista, do jornalista, mas eu fiz um curso na Copy Reader, chamado Master Builder Professional, que hoje está em muita evidência, na área de petróleo, gás, energia em geral. Foi uma virada de mesa para mim. Um ano e meio estudando no Rio de Janeiro, indo toda sexta-feira, um sacrifício que você não pode nem imaginar. Saía daqui cinco horas da manhã e ainda voltava para o curso da Faculdade de Direito à noite. Como jornalista tinha trabalhado intensamente na questão dos royalties do petróleo. Era um assunto que mexia comigo. No ano 2000, quando chegamos a 1 milhão de barris/dia de petróleo, percebi que as prefeituras precisavam se unir e então veio a criação. Realmente eu trabalhei muito neste projeto, inclusive no nome da organização e escrevi o estatuto. Tenho orgulho. Doutor Arnaldo; o prefeito de Macaé, na época Silvio Lopes; o de Quissamã, Otávio Carneiro; o de Cabo Frio, Alair Correa; e a prefeita de São João da Barra, Carla Machado. Todos apoiaram a ideia e o projeto nasceu forte. Os municípios eram muito questionados sobre o uso dos royalties e precisavam de uma voz única para se comunicar. A Ompetro foi criada com uma filosofia que infelizmente alguns prefeitos ainda parecem não entender, os novos que vão chegando, não têm noção que isso representou um status para nossa região. Então, foi uma coisa muito interessante, passamos a ser reconhecidos em organizações e todas elas queriam ter contato com a Ompetro. Você pode compreender a Ompetro também com um consórcio dos municípios produtores.
Recentemente, o prefeito Frederico Paes se referiu à Ompetro como a principal ferramenta de representação dos municípios produtores. Como você observa isso?
Isso não me surpreende. Tenho uma relação com Frederico quase que familiar, pela convivência com o pai dele, Francisco, que foi vereador, e sua mãe, Francisca. Sempre acreditei em Frederico desde quando ele era um jovem engenheiro agrônomo. Então, quando surgiu a oportunidade da criação da Coagro, que o Frederico nos procurou no Fundecam, eu imediatamente achei que eu tinha que agarrar aquela coisa. Apostamos no projeto e Frederico foi o mentor de tudo, com uma capacidade de gestão incrível.
Você foi assessor parlamentar do Major Osvaldo Almeida, deputado Constituinte, ou seja, você colaborou com sua escrita e ideias na Constituição de 1988, que está em vigor. Isso é histórico. Já se deu conta disso?
Foi realmente uma coisa muito importante a minha vida. Eu trabalhei 10 anos aqui na Copercredi, também como assessor do Conselho de Administração da cooperativa e quando o Major foi eleito deputado federal, ele me puxou para lá, Brasília. Tenho muito orgulho disso, e um orgulho ainda maior de assessorar um homem da estatura do Major Almeida, um dos constituintes mais atuantes e respeitados. Tanto que eles quando eleitos disse que era para participar da Constituição e depois deixou a política. E está ai até hoje, com 90 anos, lúcido. Esses, sim, é um homem histórico.
Agora você assume um novo desafio como assessor executivo de projetos estruturantes. Existe a expectativa da BR Offshore, um projeto que você conhece bem em vários estágios. Pode falar sobre isso?
Essa é uma das pautas, mas existem outras. Acredito que, com o prefeito Frederico, vamos conseguir concretizar esse antigo sonho da região da Barra do Furado. Mas a pauta é extensa e vai se concentrar na chamada transição energética. É neste contexto que Campos tem que crescer. Nós não podemos ficar distantes dessas coisas. Temos aqui vizinho o maior projeto privado das Américas, que é o Porto do Açu… não acordou pra isso até hoje. Temos que acordar para isso. Fazer acontecer a Zona Especial de Negócios. O investimento na Barra do Furado é uma das pautas e a transição energética é pauta permanente.
Você é uma pessoa muito modesta, mas só para situar o leitor, você já rodou o mundo e conhece tudo que existe de moderno neste assunto, como de Aberdeen, na Escócia, só para dimensionar mesmo seu conhecimento. Fale sobre isso.
Olha, eu estive lá, mas eu também fiz uma visita muito importante, que foi no Golfo do México, através da gigante Choueste, que inclusive é uma das empresas instaladas no Porto do Açu. Vi de perto a maior base do mundo passando alguns dias lá no Golfo do México. Então sei bem sobre esse projeto de processo de descomissionamento de plataformas e navios e acho isso extremamente viável aqui. O Brasil até hoje está bem perdido nessa situação e a solução está aqui, no Açu ou na Barra do Furado, para fazer essas operações de descomissionamento, fazendo a economia circular.
Vamos voltar um pouquinho do passado. Muita riqueza da cidade do Rio de Janeiro veio do açúcar de Campos. E a gente entrou num estágio de estagnação nos últimos 20 anos e agora a cana volta. Foi um erro relaxar com a cana?
Acho que nossa região cometeu um erro muito grande e o Estado e a União. O setor foi desestruturado com a política do Fernando Collor, que acabou com o Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA). Isso foi um erro histórico para nossa região, porque ele abandonou inclusive as bases legítimas e antigas históricas da produção de açúcar, como é o caso do Estado do Rio de Janeiro. Agora, todos sabemos que a cana é a biomassa mais importante. A gente tem ouvido o Eike Batista falar numa supercana e eu acredito em tudo que o Eike fala, apesar de ter cometido alguns erros, mas esse homem já realizou muito. Então, acreditamos neste setor da cana e existe uma coisa gigantesca acontecendo no campo aqui na região, além da excelência da genética bovina. Tudo isso está na pauta. Vamos trabalhar.