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Giovane Nascimento: “Minha rede social é o mundo real”

Professor e músico Giovane Nascimento defende a cultura como resistência ao excesso de vida

Entrevista
Por Yan Tavares
1 de junho de 2026 - 0h01
Foto: Josh

“A minha rede social é a que acontece aqui do lado de fora, no mundo real”. Em um mundo atual onde as pessoas vivem grande parte dos seus dias nas redes sociais, a frase acima é um dos lemas de Giovane Nascimento. Professor, músico e pesquisador, Giovane é o atual Diretor de Cultura da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF) e diretor da Casa de Cultura Villa Maria. Também é coordenador e criador do Grupo de Estudos e Práticas Musicais (GEPMU).

Natural da Baixada Fluminense, marido da Manuella Manhães há 24 anos. Pai do Erick, da Giovanna e do Vitor. Avô da Alice e da Maria Luna. Amante da música e da cultura, torcedor do Fluminense. Giovane Nascimento é Doutor em Políticas Públicas e Formação Humana. Professor da UENF na área de Fundamentos da Educação, atua na universidade há 14 anos. Desenvolve pesquisas envolvendo temas sobre Culturas e Modos de Vida. Cientista Nosso Estado pela Faperj, com atuação nos programas de Pós-Graduação em Cognição e Linguagem e Sociologia Política. Estudou música na Escola de Música Villa-Lobos e no Cigam (curso livre especializado no ensino da música popular), ambos no Rio de Janeiro. Com uma trajetória muito ligada às expressões culturais, ao ensino e à música, ele destaca que vê a cultura como instrumento essencial para a sociedade nos dias atuais.

Para você, o que é a cultura e o que ela representa hoje em dia?
Hoje, vivemos em um mundo globalizado, cada vez mais monopolizado por quatro bigtechs, com quatro CPFs dizendo como as pessoas têm que pensar, comer e ouvir. A cultura é um instrumento importante de reação a isso, porque em tempos que somos frequentemente sequestrados pelo mundo virtual, a cultura é o principal aliado para reivindicar o nosso direito à realidade. A cultura é quem nos permite colocar em questão o direito à realidade. É essencial entender que tudo o que existe lá no virtual, só existe como um efeito do que mundo analógico, do que está aqui fora, do real. A IA, por exemplo, não cria nada sozinha. Precisa que você desenvolva um processo de criação e dê o caminho a ela.

Você dá aulas, coordena projetos de pesquisa e extensão em Campos e Cabo Frio, está na Direção de Cultura de uma universidade importante como a UENF e na direção de um equipamento histórico e cultural tão relevante como a Villa Maria. Como faz para conciliar todas essas atividades e ainda divide o tempo com a família? 
Eu me guio muito por uma bossa, que ´O Samba de Uma Nota Só’, que diz:  ‘Eis aqui este sambinha feito numa nota só. Outras notas vão entrar, mas a base é uma só. Então, na verdade, eu faço muita coisa,  mas a base é uma só. Muitas notas vão entrar, mas a base é uma só. A base é a cultura e dentro dela, eu elejo a sonoridade. Vivo em função da música, pela pulsação da música, pela sonoridade, é o que me guia no dia a dia. Assim, a gente vai vivendo um dia após o outro, elegendo prioridades e trabalhando muito, sempre com a música ditando o ritmo. Não tem um dia que eu não pare para ouvir música prestando atenção no tom, na melodia, estudando. Toda semana, separo meu tempo para tocar guitarra. É meu desafogo.

Você reuniu ensino, pesquisa, formação, cultura e música, criando o Grupo de Estudos e Práticas Musicais, o GEPMU da UENF. Como foi a criação desse projeto e o como é a atuação dele?

Comecei no magistério, dei aulas para crianças, para ensino médio também, sempre na área de história. Depois, na faculdade, caminhei para a filosofia. Na música, cheguei a ter a experiência de tocar na noite, na época em que ainda tinham bandas em barzinhos. Mas, nunca tinha feito esse link entre música e pesquisa. Até que, quando concluí o Doutorado na UERJ, uma amiga me questionou sobre isso. Foi aí que criei o GEPMU, reunindo mestres, músicos e pessoas que gostam da música. Até que tornou-se um projeto de extensão que segue em vigor hoje em dia, chamado ‘Expressões Culturais do Interior do Rio’. Nele, a gente estuda as expressões culturais do interior, como fado, Mana Chica, o mineiro-pau, a ciranda, o jongo e o samba. Foi a partir daí, há mais de 10 anos, que comecei a estudar outras comunidades e suas expressões, especialmente pesqueiras e quilombolas. A gente estuda uma característica marcante nelas, que é a sonoridade diaspórica (diáspora é a dispersão de um povo ou comunidade pelo mundo), fruto de processos como a escravização, bem como do encontro com a cultura indígena, por exemplo.

Como está sendo o trabalho na Diretoria de Cultura da UENF?
Estamos em uma fase de sistematização da Diretoria, levantando dados sobre todas as atividades que vêm sendo realizadas na Villa Maria. Em junho, faremos o segundo mapeamento cultural da UENF, realizando um levantamento sobre o que os nossos universitários pensam sobre cultura, sobre o que está feito de cultura dentro da universidade como um todo. Em agosto, vamos realizar uma audição nos centros da universidade, para ouvir a expectativa deles em relação à cultura. Mas não a cultura como entretenimento e sim, como produção de conhecimento. É uma cultura que estamos buscando criar na universidade. Todo evento que a gente faz, tem caráter formativo, discussão estética, política, entre outras propostas nesse sentido. Tudo isso tem sido trabalhado com vistas da gente entregar um Plano de Cultura na nossa próxima gestão, que vai até 2028. Nossa ideia é apresentar esse plano já consolidado e bem elaborado, deixando a Diretoria de Cultura com um plano de trabalho bem definido.

À frente da Diretoria de Cultura da UENF, você criou o Escritório de Cultura. Como foi que surgiu A ideia e qual o tamanho do significado do Escritório hoje para o seu trabalho na Villa Maria?
A criação do Escritório de Cultura surgiu em função de uma carência enorme do poder público. Hoje, por exemplo, vivemos um momento privilegiado na Cultura em âmbito nacional, com a Lei Aldir Blanc. Essa política de Estado é fundamental, sendo referência inclusive para outros países da América Latina.. É um recurso muito interessante, que permite o apoio a muitos fazedores de cultura e mestres. Mas, a gente ainda caminha muito lentamente em termos de conhecimento dessas práticas culturais, a nossa sociedade ainda não está suficientemente organizada e preparada. Na minha opinião, as universidades precisam ter um papel central no sentido de estruturar e contribuir para a organização da sociedade civil nesse sentido. Essa é a ideia do Escritório, que a universidade se envolva mais com essas políticas e dê apoio às sociedades organizadas, como os conselhos e movimentos culturais.

Você costuma usar o termo Democracia da Cultura no seu trabalho na Diretoria. Como você define esse termo?
Promover a democracia da cultura é fazer com que o acesso à cultura não seja um privilégio. Todos nós temos direito à cultura. Trata-se de promover o que José Américo Mota Pessanha – que elaborou o Plano de Cultura da Villa Maria -,  chamava de busca da cidadania cultural. Ela consiste também em fazer com que os indivíduos entendam que as suas culturas são relevantes para a sociedade. Não se pode ter essa separação, essa hierarquia de artes, o que chamam de grandes artes. Todos que promovem suas artes têm sua importância que deve ser reconhecida. E é dessa forma que trabalhamos no Escritório.