

Com olhar genérico e sem maior aprofundamento, é pertinente dizer que 2026 recebe grande parte da carga dos problemas que pontuaram 2025, bem como este em relação aos anos anteriores. A questão mais preocupante reside em ponderar se num ano de eleição presidencial, com Copa do Mundo no meio, o Brasil vai conseguir livrar-se, ao menos em parte, dos infortúnios sistêmicos. Como ‘crise da vez’, os desdobramentos da liquidação do Banco Master vem atingindo em cheio a credibilidade das instituições.
Há de se considerar que o País tem sérios desafios a enfrentar. E, sendo 2026 um ano de forte conotação político-eleitoral, as circunstâncias por si mesmas dificultam o enfrentamento dessas questões. Os juros a 15% ao ano (Selic) travam a economia, visto que inibem os investimentos. Por outro lado, a inflação persistente reduz a capacidade de compra do trabalhador. Logo, trata-se de um cenário controverso, espinhoso, que eleva o nível de dificuldade em várias frentes.


Segurança, inadimplência, Correios…
O Brasil não passou 2025 buscando soluções para colher as melhorias no ano seguinte. Ao contrário, manteve em aberto velhos problemas e foi tomado por outros tantos, muitos dos quais arrastados para 2026 – quer pela mancha que deixaram, quer pela falta de solução.
A Segurança Pública tem estado no topo das aflições da sociedade. O crime organizado cresce de forma assustadora, impulsionado pelo tráfico que se alastra. Em fins de outubro o governo do Rio de Janeiro realizou a maior operação dos últimos 15 anos contra grupos criminosos. Ao todo 2,5 mil policiais civis e militares foram mobilizados na tentativa de capturar lideranças e conter a expansão do Comando Vermelho. Os moradores do Rio apoiaram a iniciativa do governo estadual. Oito em cada 10 residentes de favelas aprovaram a operação.
Em entrevista a agências internacionais, Lula definiu a megaoperação como “uma matança” e “desastrosa”. Horas depois o presidente postou uma mensagem em rede social em que defendeu as ações do governo federal na área da Segurança, sem mencionar a afirmação feita anteriormente.


Inadimplência recorde – Outra questão que passou para 2026 sem resposta é o da elevada inadimplência que bateu recorde no ano passado. O percentual de famílias que não tiveram condições de pagar suas dívidas foi o maior desde 2010, não havendo nada no radar que sugira recuo em 2026. Ao contrário, com os juros nas alturas, o consumidor encontra dificuldades para renegociar suas dívidas, seja junto ao comércio varejista e, principalmente, bancos.
Essa condição tem efeito dominó, na medida em que traz mais prejuízo no tempo futuro. Inadimplente, o consumidor não consegue comprar a crédito e o empresário lojista, por seu turno, vê reduzidas suas vendas. Já os bancos fazem pior: aumentam os juros para compensar perdas. É um círculo vicioso que afeta todos.
Correios – A crise nos Correios, que acumula prejuízos da ordem de R$ 6 bilhões, pode ser tratada como assunto passado, mas permanece como uma mancha. Primeiro, os funcionários ficaram sem o plano de saúde. Depois, agenda de demissões. O que se pergunta é como, em plena crise, ao Correios patrocinaram a turnê “Tempo Rei”, de Gilberto Gil, gastando R$ 4 milhões. (Como registro, para onde foram os artistas que cantavam “Salve a Amazônia” durante o governo Bolsonaro? Ao que tudo indica as queimadas cessaram por completo. Ou não?).


Ainda é cedo para que se possa enxergar o quão longe vai o novelo que envolve a liquidação do Banco Master, assunto predominante na mídia e que deixa as instituições em xeque. De imediato observa-se pressões inadmissíveis sobre o Banco Central – órgão autônomo – vindas do TCU e ação no STF.
Na opinião de renomados economistas, o BC agiu certo ao liquidar o Master e o fez baseado em centenas de irregularidades. Não é possível reverter a liquidação. Trata-se de fraudes gigantescas. O assunto Master é da mais alta gravidade e exige que as instituições de Estado ajam com firmeza, sem jogar para baixo do tapete interesses escusos de grupos privados. Em sentido contrário, cairão no descrédito. É aguardar.


Em manifestação de cunho claramente eleitoral, o presidente Lula estica o 8 de janeiro e coloca o ato no palanque da eleição de 2026. Não há mais o que dizer sobre a data, sobre a tentativa “de golpe com abolição violenta do Estado Democrático de Direito”. Não há como tirar mais leite dessa pedra. Contudo, o palanque exige.
O presidente aproveitou a cerimônia dos três anos do 8 de janeiro para vetar a PL da dosimetria. O Senado, contudo, já se articula para derrubar o veto.


Bolsonaro
Como ocorreu ao longo de 2025, Bolsonaro continua produzindo notícia. Depois do julgamento (em que teve comportamento indigno de um ex-presidente da República) e condenação, seguida de prisão domiciliar Bolsonaro, numa atitude transloucada, usou um ferro quente para arrancar a tornozeleira (claro, não deu certo) e ganhou uma preventiva.
De lá para cá seu estado de saúde só tem piorado: sofreu a oitava cirurgia – esta última com 3 intercorrências – e um acidente na cela da superintendência da PF. Seus filhos apontam a todo instante risco de morte. Não se sabe, contudo, a realidade de seu estado de saúde e o quanto a questão psicológica pode levar a um agravamento do quadro.


Maduro e a dancinha
Apoiado na alegação de que Nicolás Maduro governava a Venezuela como um país narcotraficante – além de ter fraudado as eleições e ser um ditador sanguinário – Trump foi lá e capturou, ou prendeu, ou sequestrou (como queiram) o presidente venezuelano.


Fazendo dancinha e desafiando o presidente americano (“Venha me buscar se for capaz; aqui e agora; covarde”), Maduro dançou – literalmente. Para Trump, tudo se encaixou: a maioria da população apoiou, livrou o país de um ditador sem escrúpulo e – o que de fato interessava – ficou com o petróleo. E ponto.


Em tempo: Lula recebeu Nicolás Maduro em maio de 2023 com honras de estado. Disse que ditadura na Venezuela era “narrativa” e que a visita do presidente venezuelano ao Brasil era “momento histórico”.