

Normalmente, a página publicada no domingo é reproduzida, com alguns ajustes, no Site. Isso em virtude de a edição fechar no final da tarde de sexta-feira. Entretanto, como nos últimos meses todas as matérias trataram, exclusivamente, da corrida presidencial, não tem sido possível aproveitar o texto sequer parcialmente face às mudanças que ocorrem de um dia para o outro nas respectivas campanhas as quais, não raro, arrastam ingredientes novos e negativos.
O debate de domingo na Band guardava a expectativa de que particularmente ao eleitor indeciso fosse dado subsídios para que escolhesse, entre os dois candidatos, aquele que melhor expusesse suas propostas e programas para o Brasil do futuro. Longe disso, o que o telespectador assistiu foi um show de horrores — um espetáculo de baixarias que superou qualquer ‘previsão’ de que o ruim pudesse piorar. Mas piorou.
O presidente Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro mostraram o porquê são tão rejeitados. Não dá pra dizer quem venceu — os dois perderam.
Alguns poucos pontos, que não chegam a ser assim tão esclarecedores, mostram uma certa diferença de visão que pode servir, timidamente, para dar alguma noção ao eleitor. Entre eles o da Segurança Pública, na discussão da ‘saidinha de presos’, deixa clara a posição de cada qual. Nas ‘Privatizações’, a mesma coisa: Lula é frontalmente contrário, enquanto Flávio admite possibilidades, exceto em se tratando da Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica.
Em linhas gerais, Lula mostrou-se nervoso, irritado e impaciente — o que não contribuiu junto ao eleitor. Esqueceu de dar boa noite ao público. Em certos momentos passou a imagem de cansaço, se atrapalhou nas considerações finais e estourou o tempo sem concluir o raciocínio.
Flávio fugiu das perguntas e não respondeu praticamente nada — característica de quem precisa se esconder. Apesar de mostrar mais desenvoltura e movimentar-se melhor no estúdio, teve passagens de arrogância. Excedeu-se nos deboches e ironias — o que pode ser entendido como desrespeito.
Forçoso reconhecer que único debate realizado desde que começou a campanha, ao invés de oferecer algo ao eleitor que até então só viu troca de acusações, aprofundou a desinformação. O expectador não teve como tirar nada de favorável. Assistiu, tão somente, uma apresentação circense ruim, de números ruins e de artistas ruins. Zero qualidade.
É difícil dizer até onde a bombástica entrevista da lobista Roberta Luchsinger — que nos últimos meses ganhou ‘notoriedade’ face sua ligação mais que perigosa com Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha —, foi alcançada pelas pesquisas posteriores a tempo de causar estragos na campanha do PT. A matéria veio ao ar no sábado (17), pela CNN, o que dá poucos dias para que seu conteúdo seja absorvido pelo eleitor.
Seja como for Roberta é amiga do filho do presidente Lula (não dá pra negar) e está sendo investigada em três inquéritos no STF por corrupção, lavagem de dinheiro e uso de tráfico de influência junto a órgãos do governo federal no esquema de fraudes bilionárias no INSS. E está sendo investigada pela PF justamente por sua ligação com Lulinha.
Por óbvio está no centro de supostos atos ilícitos — o que não é novidade alguma. Da mesma forma, não por acaso resolveu dar a entrevista entre o 1º e 2º turnos da eleição. Mas, ainda que mal intencionada — ou em troca de algum tipo de vantagem — o que falou é muito grave.
O que disse — A coisa toda tende a ganhar novos contornos com o avanço das investigações. Mas a amiga de viagem de Lulinha afirmou que o presidente Lula da Silva mentiu e que o filho dele se sentou várias vezes com ministros que integram seu governo.
Roberta disse que está reagindo porque Lula a chamou de “pilantra” e a colocou como “boi de piranha”. A lobista aumentou o tom, com sérias acusações contra o presidente. “Não serei eu o boi de piranha que tanto querem. Então, assim: o que eu fiz, se for crime, vou responder ao devido processo legal. Na minha cabeça não existe crime, mas já fui investigada e condenada pelo presidente. Ele é um covarde, um canalha, com uma mulher, que tem duas filhas” — concluiu com acusações graves que precisam ser esclarecidas.
É uma lástima para o País que durante a campanha os dois candidatos que polarizaram a disputa presidencial tenham sido marcados por episódios degradantes e incompatíveis com o mais alto cargo da república.
Tem o ‘Dark Horse’ de Flávio; a alegação de que o Instituto Lula teria recebido R$ 30 milhões “por fora” para um filme; as mal explicadas ”rachadinhas” do senador do PL; a CPI do INSS que o governo se empenhou em enterrar e que envolviam o nome de Lulinha na fraude dos descontos dos aposentados; as investigações da PF que apontam indisfarçável ligação e obtenção de vantagens de Jaques Wagner, amigo pessoal de Lula e então líder do governo do Senado, com o Master (Wagner resistiu, mas precisou deixar a liderança) e por aí segue… até novas e recentes investigações sobre Flávio, desta vez por suposta lavagem de dinheiro.
Trata-se de esquema ilegal supostamente praticado pelo advogado Willer Thomaz, num desdobramento de investigação anterior sobre evasão de dinheiro. Conforme publicou O Globo, ao analisar a situação a PF encontrou vínculos com Flávio, o que fez a investigação ser enviada ao STF. O relatório diz que os “elementos analisados” reportam proximidade entre Flávio e o advogado. O senador do PL estranhou que a investigação tenha sido revelada num domingo (18), poucas horas antes do debate.
Nos últimos dias uma enxurrada de pesquisas foi divulgada. Lula conseguiu diminuir a vantagem, mas ao que parece bateu no teto sem alcançar o senador. Todos os institutos projetaram Flávio na frente na intenção de votos, inclusive o primeiro levantamento após o debate, da Real Time Big Data, divulgado nesta terça (20), conferindo 52% dos votos válidos a Flávio e 48% a Lula.
O PoderData/Aya, que logo após o 1º turno deu 6 pontos de vantagem a Flávio para, semana passada, captar empate de 50% a 50%, em novo apanhado de segunda-feira (19) voltou a apontar Flávio com 4 pontos a frente: 52% a 48%. Seria, talvez, um indicativo de reversão na redução. Nos próximos dias e até o sábado, véspera do 2º turno, várias novas pesquisas serão divulgadas.
Nesta reta final, o debate de sexta-feira da Globo é nova chance para os que candidatos exponham algo de útil para o eleitor, diferente do realizado domingo passado.