

O site J3News foi inaugurado no dia 27 de junho de 2012 pelo seu diretor-presidente Dr. Herbert Sidney Neves. Quatro anos depois, no dia 15 de setembro, circulou pela primeira vez a versão impressa do jornal que se chamava, inicialmente, O Jornal Terceira Via. O projeto foi desenvolvido pelo diretor Fábio Paes, que completa esse ano 10 anos no Grupo.
Nesta entrevista, ele avalia uma década do periódico e o jornalismo impresso em Campos, no Brasil e no mundo. Apesar dos desafios enfrentados pelo jornalismo impresso nos últimos anos, segundo Fábio, o papel ainda mantém espaço entre os leitores, especialmente em mercados locais. Para Fábio Paes, é preciso considerar os hábitos de consumo de informação e as características de cada público antes de decretar o fim do jornal em papel. Ele destaca que, mesmo diante da redução da circulação de grandes veículos, ainda existe uma demanda significativa pelo formato impresso.
Fale sobre como surgiu a ideia de fazer o jornal impresso e como começou esse projeto?
Recebi em 2016 o convite diretamente do Dr. Herbert Sidney Neves para assumir as operações do Terceira Via. Cheguei no final de junho daquele ano e, em 15 de setembro, em menos de 3 meses, lançamos o jornal impresso. A decisão se deu a partir da percepção de que o impresso ainda tem um papel importante e continua sendo relevante.
Principalmente em um mundo totalmente digital, onde tudo se perde na internet e as informações estão dispersas, o impresso tem um destaque próprio. Ele coloca esse tipo de veículo de comunicação em uma posição diferenciada. Principalmente em Campos, que tem uma tradição muito forte de imprensa escrita, com grandes jornais e um consumo expressivo por parte dos formadores de opinião.
E, por incrível que pareça, o jornal impresso é a nossa principal plataforma de anúncios. Percebemos que os anunciantes querem estar no impresso. Isso mostra que existe leitor, repercussão e relevância, o que faz a diferença para o anunciante, para o público e para nós.
O que você destacaria em relação ao jornal impresso, considerando que existe um movimento mundial de crescimento do digital e até o cinema, recentemente, com “O Diabo Veste Prada 2”, sobre a crise do jornalismo diante do avanço digital?
Acredito que o nosso grande diferencial é atuarmos em todas as plataformas de comunicação. Um leitor de Campos pode ler uma matéria no impresso, depois encontrá-la no Instagram, no site e também acompanhá-la na televisão. É uma diversificação de plataformas utilizando a mesma informação, o que nos permite alcançar diferentes públicos.
Quando se fala que a imprensa escrita em papel está em crise, essa crise realmente existe. Grandes jornais tiveram que fechar as portas, inclusive veículos que circulavam com mais de um milhão de exemplares por dia.
Mas precisamos observar a cultura da nossa sociedade. Ainda existe uma parcela significativa da população que consome o impresso, principalmente porque o nosso jornal tem distribuição dirigida. O leitor não precisa pagar para ter acesso.
Outro diferencial é que o nosso jornal não trabalha apenas com notícias que já foram divulgadas na internet. A crise dos jornais impressos diários está muito relacionada ao fato de eles publicarem e cobrarem, no dia seguinte, uma informação que o leitor já viu em algum lugar na internet. Não tem mais sentido isso.
O nosso modelo é diferente. O jornal chega gratuitamente às casas e empresas, com matérias especiais, conteúdos mais analíticos e aprofundados, colunas sociais e de economia, além de uma apresentação moderna e colorida. Esse é o nosso diferencial.
O jornal surgiu em 2016, às vésperas de uma eleição municipal, e agora completa dez anos também às vésperas de uma eleição Como você vê a importância do jornalismo, inclusive do jornal impresso, nesses momentos políticos e eleitorais?
Quando vim para cá, já havia uma linha editorial estabelecida pelo Dr. Herbert: a proposta de ser um jornal múltiplo e democrático. Ele tinha a percepção de que existia uma imprensa muito claramente posicionada de um lado ou de outro. Por isso, o nome Terceira Via. A ideia era criar um veículo de comunicação que desse espaço para todos os segmentos e oferecesse aos formadores de opinião a possibilidade de ler matérias de diferentes linhas de pensamento.
Seguimos essa linha editorial do Dr. Herbert até hoje. Esse é um dos nossos grandes diferenciais: a filosofia que está por trás da construção do jornal. Ele nasceu para ser uma terceira via, continua sendo uma terceira via e o público percebe isso. Nossa credibilidade é muito grande porque diferentes grupos e pensamentos encontram espaço no jornal.
Em dez anos e mais de 500 edições, você se lembra de algum momento que gostaria de destacar, além da transição da marca Terceira Via para J3News?
Quando lançamos o jornal, lembro perfeitamente da primeira edição. Ela nos marcou muito. Colocamos uma criança em um barco, olhando para o horizonte do Rio Paraíba do Sul, simbolizando uma reflexão sobre o futuro.
Ao longo desses dez anos, acompanhamos muitas transformações e fizemos a cobertura de diferentes momentos da cidade. Vivenciamos crises econômicas, sociais e problemas relacionados à segurança pública. Produzimos grandes reportagens sobre áreas de Campos que, em determinado momento, passaram por transformações e foram dominadas pela criminalidade, afetando o cotidiano e a qualidade de vida da população.
Cobramos muito a Prefeitura, mas também reconhecemos aquilo que precisava ser reconhecido. Fizemos o mesmo com os governos estadual e federal. São centenas de matérias produzidas ao longo dos anos, elogiando o que precisava ser elogiado e criticando o que precisava ser criticado.
E a mudança do nome de Terceira Via para J3 News?
A mudança do nome Terceira Via para J3News ocorreu porque, depois das eleições de 2018 e 2020, o termo “terceira via” ganhou uma forte conotação política no cenário nacional. Não queríamos que o veículo fosse associado a uma determinada posição política ou partidária.
Algumas pessoas que não conheciam o jornal passaram a imaginar que se tratava de um veículo político-partidário, o que nunca foi o caso. A mudança também acompanhou uma tendência global de modernização de marcas, com empresas reduzindo e simplificando seus nomes.
Adotamos o J, de jornal, o número 3, que simboliza as três vias, e o termo News, relacionado a notícias. Fizemos um grande trabalho de transformação da identidade visual, e a nova marca foi bem recebida.
Hoje, pesquisas de opinião e estudos qualitativos mostram que as pessoas apontam diretamente o J3News como um dos veículos de comunicação mais importantes da cidade.
Outra característica do J3 é a diversidade de temas, com colunismo social, moda e conteúdos voltados ao público jovem, que também dialoga com as redes sociais e o impresso. Comente.
Esse é o nosso olhar para a sociedade: observar o que está acontecendo. A sociedade é formada por diversas tribos e comunidades, que cada vez mais se organizam em grupos com interesses próprios.
Os nerds têm uma comunidade própria, assim como as pessoas que consomem moda, esporte e colunismo social. São diferentes universos dentro de uma mesma sociedade, com interesses específicos.
Quando o jornal chega à casa ou à empresa das pessoas, precisa cumprir o papel de oferecer informação para todos esses públicos. O pai pode procurar uma leitura sobre política; a mãe pode buscar uma matéria de moda, política ou economia; e o filho pode se interessar por esportes e games.
O jornal procura cumprir esse propósito. Temos colunistas sociais que alcançam diferentes segmentos e colunistas políticos que abordam diversos assuntos. Nossas matérias são diversificadas, e isso cria um amplo conjunto de informações que contribui para a percepção de que o J3News é um veículo completo.
Qual mensagem destacaria nesses dez anos com mais de 500 edições para o público leitor?
O papel da imprensa é muito importante e, às vezes, não é reconhecido por todas as pessoas. Atualmente, existe uma grande disseminação de informações, muitas vezes incorretas, em grupos de WhatsApp e redes sociais. Isso gera confusão na sociedade e pode ser prejudicial à democracia.
O jornal tem a responsabilidade de verificar as informações, consultar as fontes e confirmar se aquilo procede ou não. Essa responsabilidade é fundamental para o exercício do jornalismo.
Além disso, estamos escrevendo a história da cidade. Esses registros permanecem e podem ser estudados daqui a 50 ou 100 anos. Os historiadores consultam jornais porque eles retratam o cotidiano de uma sociedade.
É um papel enorme, que nem sempre é percebido no dia a dia. Talvez isso fique mais evidente quando alguém consulta um jornal de 100 anos atrás, como ocorre com o Monitor Campista, e consegue compreender como era a sociedade daquela época, o que as pessoas faziam e quais acontecimentos marcaram aquele período.
Temos certeza de que, daqui a 20, 50 ou 100 anos, as pessoas também estarão lendo e estudando o J3News.
O que você gostaria para os próximos dez anos, seja profissionalmente, para a empresa, para a cidade, o Estado ou o Brasil?
Meu grande desejo é que as pessoas busquem mais informação. Muitas não têm dimensão do perigo de uma sociedade mal informada. Isso representa um risco para a democracia e também para o desenvolvimento intelectual, pessoal e emocional das pessoas.
Gostaria que a sociedade tivesse maior preocupação em se informar, ler mais e buscar fontes confiáveis. O Brasil ainda é um país que lê pouco, e isso contribui para dificuldades de interpretação.
Muitas vezes, as pessoas leem uma matéria e não conseguem compreender adequadamente o conteúdo. Isso ajuda a explicar por que informações equivocadas e fake news ganham tanta proporção em uma sociedade que lê pouco e, muitas vezes, tem dificuldades para interpretar aquilo que lê.
Meu sonho é que a sociedade avance nesse sentido, até chegarmos ao ponto de poder dizer: “Estamos lendo mais do que os argentinos”, não apenas ganhando deles na Copa do Mundo, mas também lendo mais.