Campos dos Goytacazes reúne prédios de arquitetura eclética, com distintos estilos elaborados ao longo dos séculos. No entanto, esse patrimônio arquitetônico tem sido cada vez mais afetado pelo abandono ou pela falta de preservação. No Centro Histórico, imóveis públicos e particulares estão comprometidos. Destacam-se o Museu Olavo Cardoso e o Hotel Gaspar, sob responsabilidade da Prefeitura; os prédios da Associação de Imprensa Campista (AIC) e da companhia telefônica Oi. O edifício da banda centenária Lyra de Apollo é um bom exemplo de tentativa de manter um prédio histórico com obras de recuperação, mas o desafio é grande e caro.
Entre tantas construções importantes campistas, o Museu Olavo Cardoso é o pior retrato do descaso e da falta de manutenção, principalmente por ser um equipamento da Prefeitura de Campos. O prédio foi doado pela família Cardoso e, aos poucos, abandonado pelo poder público. Nos últimos anos, a estrutura começou a oferecer riscos. A Defesa Civil providenciou um escoramento da fachada, mas nenhuma obra de recuperação foi realizada.
Outro prédio municipal, doado pela Santa Casa de Misericórdia de Campos, é o Hotel Gaspar. Há mais de dois anos, o edifício encontra-se fechado e sem previsão de reabertura. A Prefeitura de Campos chegou a noticiar que secretarias municipais seriam instaladas no local. Entretanto, nada aconteceu.


Por meio de nota, a Prefeitura de Campos informou que, em relação ao Museu Olavo Cardoso, “estão sendo adotadas as medidas necessárias para garantir a segurança do imóvel, enquanto avançam os procedimentos relacionados à sua recuperação, considerando a importância histórica e cultural do patrimônio. Sobre o Hotel Gaspar, a Prefeitura informa que estão em andamento estudos de natureza técnica e jurídica para avaliar a viabilidade da recuperação do imóvel e sua futura ocupação. A definição sobre os projetos e prazos dependerá da conclusão dessas análises”.
Museu Olavo Cardoso
Para o arquiteto José Luis Puglia, o Museu Olavo Cardoso é “um exemplo deprimente” de como o poder público cuida do patrimônio da cidade. “A casa do empresário foi doada à Prefeitura para se instalar um museu. A obra de restauração do casarão em estilo eclético do final do século XIX foi inaugurada no dia 6 de agosto de 2006. Possuía um acervo importante, com mobiliário original. Infelizmente, após o governo do prefeito Alexandre Mocaiber, o prédio foi abandonado e, sistematicamente, roubado e vandalizado. Hoje não se tem notícias do paradeiro do acervo, e o prédio se encontra em ruínas, com partes que já desabaram. A perspectiva de recuperação e restauro é praticamente inexistente”, lamentou.


Integrante do Coppam (Conselho de Preservação do Patrimônio Arquitetônico Municipal), o arquiteto Renato Siqueira diz que os bens históricos pertencentes à Prefeitura são objeto de descaso. “Há abandono e iminente ruína, como o Museu Olavo Cardoso e o Solar dos Ayrizes, este, após condenação transitada em julgado em 2020. No Coppam, conselho participativo em atividade, criado em 2002, após denúncia ao Ministério Público, também se percebe a ausência dos representantes governamentais, que impossibilita as reuniões pela ausência de quórum, algo que os participantes da sociedade civil tentam evitar ao comparecerem. A Câmara Municipal, por exemplo, nunca compareceu a uma reunião do Coppam sequer”, afirma.
AIC
A Associação de Imprensa Campista, criada em 1929, passou a contar com uma sede inaugurada em 1944. Tem estilo francês Art Déco e é um dos poucos edifícios de Campos nesse formato. Algumas salas comerciais eram alugadas para manter a AIC funcionando. Porém, nos últimos anos, o prédio passou a sofrer danos em sua estrutura, com infiltrações, de acordo com o presidente da instituição, Wellington Cordeiro.


“Com a pandemia de Covid-19, o prédio ficou fechado por dois anos e, quando voltamos, descobri uma grande infestação de cupins no telhado. Na época, não tínhamos verbas. Tive que custear a descupinização total do prédio e, também, a reposição de parte do telhado que caiu pela ação da praga. Mesmo assim, achei necessário interditar o salão superior por conta dos riscos do madeiramento atingido. Fizemos alguns orçamentos para restauro, porém os valores são muito altos e não possuímos recursos próprios. Tentei buscar verbas em instituições como o Ministério Público Estadual e o Ministério do Trabalho, que possuem verbas indenizatórias para doarem para fins de apoio a entidades sem fins lucrativos, mas, infelizmente, não foram à frente. Temos um canal aberto com a Prefeitura de Campos, porém sem definição ainda”, explica.
Antiga Telerj
Ao lado da AIC, fica a sede da antiga companhia telefônica Telerj, que se tornou Oi/Telemar após a privatização nos anos 1990. O complexo consta de um edifício de sete andares, uma torre de telefonia com mirante no topo e um solar em estilo colonial. Antes, no local, funcionou, de 1848 a 1921, o Teatro São Salvador, demolido para dar lugar à empresa de telefonia. Nos últimos anos, a Oi entrou em dificuldades financeiras, e muitos prédios da companhia foram desativados. Atualmente, mato, lixo e sinais de abandono fazem parte do endereço.


Por meio de nota, a Oi informou que adota medidas de manutenção e proteção de seus imóveis desocupados, de acordo com as características de cada local, priorizando as situações que representam risco. “A companhia ressalta que mantém diálogo com os órgãos públicos para avaliar e implementar as providências cabíveis, sempre que necessário, e esclarece que atravessa um processo de Recuperação Judicial e de profunda reestruturação operacional e financeira, o que exige a definição de prioridades na alocação dos recursos disponíveis. Os imóveis que não são mais utilizados em suas operações integram o processo de racionalização e alienação de ativos previsto no Plano de Recuperação Judicial da empresa”, disse.
Exemplos e desafios
A banda Lyra de Apollo possui 156 anos de fundação. Em 1914, ganhou sede própria na Praça do Santíssimo Salvador. Em 1990, foi alvo de um incêndio que comprometeu parte da estrutura. Em 2002, o maestro Ricardo Azevedo assumiu a gestão da entidade. Em 2012, foi iniciado por ele um longo e caro processo de recuperação do prédio. Neste período, mais de R$ 1 milhão já foram gastos na obra. Os recursos vêm de aluguéis de lojas no térreo e eventos.


“Tem que ser um profissional especialista para poder trabalhar na área de restauro. Então, tudo é muito caro. Tem que se acompanhar a legislação exigida pelo Inepac, a obra fica cara, o material é caro. A obra interna já está 90% concluída. Nós estamos fazendo agora o projeto de arquitetura. Precisamos nos livrar, na frente da Lyra, de um poste, de um transformador e de uma linha de alta tensão para começar a trabalhar a fachada do prédio, o que não temos condições de fazer atualmente. Nunca tivemos recursos públicos da Prefeitura. É lamentável que os próprios prédios que pertencem à Prefeitura fiquem desabando. A gente fica triste porque o próprio Poder Público não tem a consideração de conservar”, comenta.
Desafio a ser vencido
A historiadora Graziela Escocard preside o Instituto Histórico e Geográfico de Campos. Ela considera a preservação do patrimônio um desafio complexo por envolver diferentes situações jurídicas e administrativas.


“Independentemente da propriedade, é fundamental compreender que um bem reconhecido pelo seu valor histórico possui também uma dimensão coletiva. Preservá-lo interessa a toda a sociedade. Precisamos olhar para esses edifícios não apenas como problemas do presente, mas como possibilidades para o futuro. Recuperados e utilizados adequadamente, eles podem fortalecer o Centro Histórico, ampliar os equipamentos culturais, estimular o turismo, movimentar a economia criativa e, principalmente, permitir que as próximas gerações reconheçam na paisagem urbana a história da cidade onde vivem”, comenta.
O arquiteto e professor do IFF, Luciano Falcão, diz que há uma combinação difícil: imóveis importantes, valores históricos reconhecidos, mas pouco recurso, pouco apoio e, muitas vezes, pouco interesse:
“A sede da Lyra de Apollo é um exemplo extraordinário. Há cerca de 36 anos, esse prédio vem passando por um processo de recuperação que já o coloca muito próximo de seu vigor original. Trata-se de uma instituição privada e, à frente dela, existe uma pessoa que assumiu para si uma responsabilidade que ultrapassa os limites da própria instituição: o Maestro Ricardo. Ele parece cuidar daquele edifício como quem cuida de alguém da família. Só que não é apenas pela Lyra. É pela cidade. É pela memória de todos. Talvez seja exatamente essa paixão que explique uma parte do que aconteceu ali. A resposta está menos no dinheiro e mais na capacidade de mobilizar pessoas. Não é difícil imaginar o que aconteceria se houvesse ajuda também do poder público. A tecnologia, hoje, permite soluções que, até pouco tempo, pareciam impossíveis. Praticamente todos esses edifícios citados podem encontrar novos usos, novas formas de ocupação e novas maneiras de se sustentar. Patrimônio é aquilo que uma sociedade decide que merece continuar existindo. E a grande pergunta para Campos é justamente essa: o que nós estamos dispostos a preservar?”, finaliza.