

É problema de quem? Quando o assunto é o cuidado com os canais de Campos, Prefeitura e Governo do Estado frequentemente apontam responsabilidades um para o outro. Quando falta iniciativa do poder público, seja de gestão municipal ou estadual, o problema atinge uma única direção: a população.
Na área urbana, chama atenção a precariedade nas estruturas do entorno do Canal Campos-Macaé e do Canal do Saco, impondo riscos diários de graves acidentes. Já na área rural, as condições estruturais da ponte sobre o Rio Pitangueiras e o assoreamento do Canal do Bachio e Canal dos Coqueiros preocupam os condutores e produtores locais.
A falta de limpeza nos canais também vem prejudicando produtores na Região Serrana. A reportagem do J3News visitou os locais durante a semana e verificou os cenários.


Área urbana
Situação preocupante vive o Canal do Saco, que tem assustado quem passa pelo local, pela forma como o asfalto às margens vem afundando cada vez mais com o passar do tempo. Há três meses, um carro caiu no canal, situado atrás de um shopping, no Parque Julião Nogueira. Sem nenhuma proteção na pista, o veículo desabou após perder o controle. Duas pessoas sofreram ferimentos leves. Sorte diferente do caso que ocorreu em fevereiro, quando um carro com dois homens capotou, também no Canal do Saco. Desta vez, um homem de 60 anos morreu, horas depois de ser socorrido e encaminhado ao hospital.


O J3 noticiou no último dia 17 a medida emergencial da Prefeitura de isolar o trecho da Rua José Naked, onde o asfalto apresenta erosão e a pista vem cedendo. O governo municipal optou por instalar barreiras de concreto no local, ampliando o isolamento da área considerada de risco. Porém, a proteção se encontra apenas em uma das laterais do canal, mantendo o risco de queda de veículos.


Em nota, a Prefeitura disse que já solicitou diversas vezes ao Governo do Estado, por meio do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) e de outras secretarias estaduais, a realização do reparo imediato do Canal do Saco. Segundo o município, qualquer intervenção no corpo do canal depende de autorização do órgão ambiental. A administração municipal acrescentou que já apresentou um projeto de reparos durante reunião entre engenheiros da Prefeitura e do Inea.
Por sua vez, o Inea declarou que não identificou no seu sistema a entrega dos projetos mencionados. Na quinta-feira (23), a reportagem do J3 registrou uma máquina trabalhando na retirada de vegetação. O órgão ambiental informou que realiza o desassoreamento do canal por meio do programa Limpa Rio, com previsão de execução em cerca de 1.890 metros de extensão. Segundo o órgão, as intervenções já alcançaram 1.070m. Sobre ações mais contundentes com relação à estrutura no entorno do canal, Inea e Prefeitura afirmam que mantém contato para alinhar possíveis intervenções.


Outro cenário que preocupa é a estrutura deteriorada nos arredores do Canal Campos-Macaé. A reportagem esteve em dois pontos durante a semana. Nas proximidades do McDonald’s, calçadas destruídas e a falta de anteparo às margens do canal, representam riscos de quedas de veículos. Em 2023, um motorista de 25 anos morreu após despencar com o carro no mesmo local.
Seguindo o trecho, um pouco mais adiante, na região do Parque Rosário, mais problemas estruturais. Calçada quebrada e esburacada, sendo ela a única separação entre a pista e o canal. Em alguns pontos, há carros estacionados irregularmente, aproveitando espaços no calçamento entre a pista e o “valão”. Não há proteção entre a pista e o canal neste trecho. Mais à frente, já no cruzamento com a Av. Arthur Bernardes, a mesma situação de piso deteriorado às margens do canal e falta de proteção entre a pista e o valão, impondo risco de desabamento de veículos.




Douglas Salomão é motorista de aplicativo e percorre a cidade diariamente. Ele comenta que o entorno dos canais tem sido mais uma preocupação para quem dirige na área urbana da cidade. “Além dos problemas já conhecidos do trânsito de Campos, a gente ainda tem que andar mais atento ainda com essa situação nas proximidades destes dois canais, porque a insegurança é enorme”, diz.
Tanto sobre o Canal do Saco quanto sobre o Canal Campos-Macaé, chama atenção um posicionamento do Inea, esclarecendo que questões estruturais como as citadas acima devem ser solucionadas pelo município. “Questões como vegetação marginal, sinalização, reconstrução de calçadas e demais pontos relacionados à via pública estão sob atribuição municipal”, esclarece o órgão.


Projeto de R$ 111 milhões
Em julho de 2023, o Governo do Estado aprovou o Projeto Executivo e Obras de Canalização e Urbanização do Canal Campos-Macaé, elaborado pela Prefeitura de Campos. A obra orçada em mais de R$ 111 milhões seria financiada pelo Fundo Estadual de Conservação Ambiental e Desenvolvimento Urbano (Fecam).
De acordo com o Inea à época, o projeto previa a canalização, a urbanização, o paisagismo e a construção de uma pista auxiliar ao longo de um trecho de três quilômetros de extensão da Avenida José Alves de Azevedo. Três anos depois, o plano não saiu ainda do papel.


O J3 voltou a cobrar uma resposta do Inea agora. O órgão disse apenas que tinha uma vistoria técnica agendada para essa semana, com o objetivo de identificar os pontos mais críticos para desenvolvimento de projetos mais adequados para a localidade – sem citar o projeto de mais de R$ 111 milhões. Sobre o cenário atual, a Prefeitura informou que mantém diálogo com o Inea para viabilizar a execução do projeto de recuperação da estrutura e implantação de uma nova via marginal, ressaltando ainda que o município segue tratando com o Estado os próximos passos para sua execução.
Área rural
Seguindo direcionamento da Associação Fluminense dos Plantadores de Cana (Asflucan), o J3 conversou com produtores rurais da Baixada Campista, que relataram problemas com relação à necessidade de limpeza e desobstrução, tanto no Canal Coqueiros, quanto no Canal do Bachio – situado na região de Pitangueiras.
“A Baixada está com seus rios e canais cheios de vegetação, tendo locais que dá para atravessar os rios e canais sem molhar os pés. Situação grave de abandono. Pior ainda: o esgoto que é lançado no Rio Coqueiros, na região urbana, traz para a Baixada resíduos altamente poluentes, pois não existe tratamento. Verdadeiro descaso do poder público e crime ambiental”, enfatiza o produtor rural Guilherme Siqueira.


Na ponte sobre o Rio Pitangueiras, o cenário assusta. Na parte de cima, falta anteparo em boa parte das laterais, impondo risco de queda de veículos. Nos pilares, a deterioração é visível e preocupa, chegando a ter ferragens expostas. Quando se olha para o canal, vê-se a água em grande parte coberta por vegetação. “As pontes da região estão muito deterioradas. O estado de conservação delas nos preocupa muito, assim como o estado das comportas, tendo em vista que já observamos algumas danificadas”, complementa Guilherme.
Em nota ao J3, o Inea informa que realizou, na última quinta-feira (23), uma vistoria em parceria com a Prefeitura no local, para levantar necessidades e alinhar possíveis intervenções.


Região Serrana


O J3 também conversou com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Campos e com a Associação dos Pequenos Produtores Rurais e Quilombolas de ABC (Aleluia, Batatal e Cambucá), na Região Serrana do município. Eles também relatam que a falta de limpeza dos canais tem causado transtornos à população. “Estamos enfrentando um problema sério neste sentido. Em época de verão, chove bastante e alaga as estradas e até mesmo algumas casas. Isso por conta da falta de limpeza nas valas e canais que cortam a nossa região. Todo esse transtorno dificulta o escoamento da nossa produção e prejudica as nossas atividades na agricultura familiar”, comentou Paulo Honorato, presidente do sindicato e da associação.
Luiza Gomes Honorato é uma das representantes da Associação de Pequenos Produtores Rurais e Quilombolas do ABC e relata as dificuldades impostas pela falta de limpeza de córregos e canais na região.


“Sou moradora de Aleluia e minha casa fica na parte mais baixa da localidade, justamente onde passa o córrego. Em época de cheias, minha residência é uma das mais prejudicadas, por conta da falta do escoamento de água. Prejudica para a gente sair de casa e também para fazer plantio no quintal, que é uma das nossas atividades”, comenta. Para o representante da Associação Norte Fluminense de Engenheiros e Arquitetos (Anfea), Gustavo Manhães, é essencial que o poder público esteja atento ao panorama.


“A fiscalização, seja estadual ou municipal, é fundamental para garantir que fatores externos não venham prejudicar o escoamento dos canais, que podem tanto atrapalhar pela diminuição do fluxo, como também causar inundações em pontos que possam ser bloqueados. Vale lembrar que não menos importante é a manutenção das comportas, usadas para regular a retenção e escoamento de água”, pontuou.
Limpeza do Canal Cambaíba
A Prefeitura destacou ainda que, por meio da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Infraestrutura Rural, está realizando a limpeza do Canal Cambaíba para desobstruir o curso d’água e fortalecer a segurança hídrica no Assentamento Cícero Guedes e em localidades vizinhas. Com cerca de 40 quilômetros de extensão, o Canal Cambaíba liga a BR-356 ao Canal de São Bento e tem papel fundamental no abastecimento e na irrigação da região. “A ação beneficia diretamente mais de 200 famílias que dependem do canal para o abastecimento de água e a produção agrícola”, enfatizou o município.