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Craques do Passado: Pinheiro, o Xerife Tricolor

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Esporte
Por Redação
5 de julho de 2026 - 0h05

Por Leonardo Barros

De torcedor de rádio em Campos a ídolo eterno do Fluminense. Pinheiro pegou estrada, ainda na adolescência, deixando o interior para garantir o futuro nas Laranjeiras. Aos 17 anos, fez a sua estreia nos profissionais do clube. A primeira das suas 603 partidas, sendo o segundo jogador com mais jogos disputados com a camisa tricolor – ficando atrás apenas do goleiro Castilho (com 697). Com classe e técnica refinada, o campista é considerado um dos melhores zagueiros da História do Fluminense, tendo sido titular da Seleção Brasileira na Copa de 1954.  

“Escutava os jogos pelo rádio. A transmissão chiava, ficava nervoso, quase quebrava o aparelho (risos) até o som ficar bom. Quando jogava pelo Fluminense, ficava pensando se era realmente verdade. Estava ao lado de craques, tendo essa oportunidade. Será que realmente era verdade? Ficava me perguntando toda hora”, contou Pinheiro em entrevista à TV Cultura na década de 1990.

Ainda na época que era ouvinte dos jogos, a diversão era o futebol na rua, descalço em campos improvisados. O bom desempenho na várzea o levou para o Americano, onde jogou em diversas posições: meio-campista, centroavante e até como goleiro. Mas foi na zaga que se destacou de verdade. Chegou a disputar uma partida no profissional do clube de Campos, com 16 anos. Porém, uma viagem ao Rio de Janeiro mudou a sua trajetória.

Mesmo na defesa, Pinheiro tinha que mostrar habilidade para “driblar” sua família que não via futuro no futebol. Entre uns cascudos e outros, embarcou para a capital na companhia de um irmão mais velho, José Pinheiro, árbitro de futebol. O motivo da viagem era o esporte mais popular do mundo: um jogo no Maracanã e assistir o treino do Fluminense nas Laranjeiras.

“O Fluminense tinha jogadores de Campos, que me conheciam. Eles me chamaram para treinar com os profissionais. Entrei, fui bem e me chamaram para ficar. Ficaram assustados quando disse que tinha apenas 16 anos. Comecei a morar na concentração das Laranjeiras. Meu irmão voltou para Campos sozinho”, lembra Pinheiro à TV Cultura.

Ídolo tricolor

“O mais sublime dos beques que apareceram nas Laranjeiras”.

A descrição do jornalista Nelson Rodrigues apresentava Pinheiro aos torcedores. Das arquibancadas, outros apelidos chamavam a atenção como “Xerife Tricolor” e “Marechal da Área”. Foram mais de 10 anos como capitão do clube, sendo importante em conquistas na década de 1950: Cariocas de 51 e 59; Copa Rio, competição internacional em 52; Torneio Rio-São Paulo de 57 e 60.

Antes das conquistas, a estreia também foi marcante. Morador do alojamento do clube, foi convocado às pressas para sua primeira partida nos profissionais, aos 17 anos, em 1948. A partida contra o Nacional do Uruguai, nas Laranjeiras, terminou com vitória tricolor por 2 a 1. Pinheiro saiu aplaudido pela atuação, quando anulou o craque brasileiro Heleno de Freitas, que defendia a equipe uruguaia.

No Tricolor, também virou zagueiro-artilheiro. Contava que passou a cobrar pênaltis depois que o seu conterrâneo Didi perdeu duas cobranças contra o Madureira. “Não tinha essa de bater de bico. Era de peito de pé, firme, sem chances para o goleiro”, relatava Pinheiro. Foram 51 gols pelo Fluminense. Em citação ao site Uol, o cantor tricolor Chico Buarque, “escalou” Pinheiro entre os 11 de todos os tempos das Laranjeiras.

Copa do Mundo na Suíça

Craque do Fluminense e destaque da Seleção Carioca, Pinheiro chegou à Seleção Brasileira em 1952. No mesmo ano, foi campeão pan-americano no Chile com vitória de 4 a 2 contra o Uruguai, que ainda tinha atletas que foram campeões da Copa de 1950, justamente em cima do Brasil, no Maracanã.  

O ápice pelo Brasil foi a Copa do Mundo de 1954, na Suíça. Foi titular nos três jogos da seleção, formando defesa com Castilho, Djalma Santos, Nilton Santos, Brandãozinho e Bauer. Um 5×0 contra o México e um empate em 1×1 diante da Iugoslávia abriram a campanha no Mundial. Depois, vinha a Hungria de Puskas, no jogo que ficou conhecido como a “A Batalha de Berna”. O Brasil perdeu por 4 a 2, foi eliminado e teve confusão no final da partida.

“Fomos para o vestiário, levei uma garrafada na cabeça. Falaram que foi o Puskas, mas não vi se foi”, contou Pinheiro.

O Professor

Depois de 18 anos de Fluminense, Pinheiro deixou o clube e passou rapidamente por Bonsucesso e Bahia. Já veterano, o campista pendurou as chuteiras e virou treinador. Assim como nos campos, a carreira de técnico  também foi vitoriosa. Na base tricolor, foi tricampeão da Copa São Paulo de Futebol Júnior (71, 73 e 77) e campeão do Torneio de Nice de 77. Ajudou na supervisão da construção de Xerém, Centro de Treinamento das divisões de base do Tricolor. Revelou outros ídolos do clube, como os zagueiros Edinho e Abel Braga.  

“Pinheiro me deu muitas broncas. Mas sempre foi meu exemplo. Aprendi tudo com ele. Jogou na mesma posição que eu e sabia tudo”, disse Abel Braga ao GE em 2011.

Como treinador no time principal do Fluminense, Pinheiro atuou em 119 jogos. O campista também foi técnico do América-MG, Americano, Goytacaz, Cruzeiro, America-RJ, entre outros. No clube celeste de Minas, Pinheiro foi campeão da Copa do Brasil de 1993, ano em que lançou o menino Ronaldo, de 17 anos, no time principal. O jovem se tornaria o Fenômeno anos depois, sendo bicampeão da Copa pela Seleção em 1994 e 2002.

João Carlos Batista Pinheiro morreu em 2011, aos 79 anos, vítima de complicações ligadas a um câncer de próstata. O Fluminense prestou diversas homenagens na época, decretando luto oficial de sete dias.