

Aos 26 anos, a violinista Isabela Rangel desponta como um dos nomes de destaque da música clássica no estado da Bahia e no Brasil, consolidando uma trajetória marcada por talento, disciplina e transformação social por meio da arte. Natural de Campos dos Goytacazes, iniciou os estudos de violino aos 7 anos, primeiro na igreja e, em seguida, no Centro Cultura Musical de Campos. Aos 9, ingressou na Orquestrando a Vida, onde permaneceu por cerca de sete anos, percorrendo toda a formação até integrar as principais orquestras do projeto.
A formação de Isabela Rangel inclui curso técnico em música com especialização em violino, em convênio com o Conservatório de Música do Rio de Janeiro, e bacharelado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ao longo da carreira, já integrou oito orquestras, entre elas grupos em Campos, no Rio e, posteriormente, na Bahia, onde hoje consolida sua atuação profissional. A mudança para Salvador ocorreu em 2021, em meio às incertezas da pandemia.
“Sem a renovação de contratos da orquestra em que atuava no Rio, passei a me dedicar às aulas online. Na mesma época, meu então namorado, hoje marido, o trompetista Raphael Elias, já vivia na capital baiana, o que abriu caminho para minha entrada no Neojiba (Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia), programa criado em 2007 que promove formação musical e inclusão social de crianças e jovens por meio da prática orquestral. Foi uma nova fase na minha vida, pessoal e profissional”, resume.
Há cinco anos na Bahia, Isabela destaca o ambiente musical como um dos principais diferenciais. O contato com músicos de projeção internacional e a estrutura do Neojiba contribuíram diretamente para seu desenvolvimento até conquistar uma vaga na Orquestra Sinfônica da Bahia (OSBA), onde atua como violinista tutti. O ingresso ocorreu após audição nacional em 2024. A orquestra, com cerca de 80 músicos e regida por Carlos Prazeres, é mantida pelo Governo do Estado, com gestão por organização social.
“A rotina é intensa: ensaios de terça a sexta, concertos aos fins de semana e estudo contínuo. Paralelamente, também atuo como professora no próprio Neojiba, mantenho alunos particulares — inclusive de Campos — e participo de apresentações em eventos. É uma agenda exigente, mas gratificante, porque me permite viver da música”, afirma.
Entre os momentos marcantes da carreira, Isabela destaca a atuação como spalla e solista em turnê da Orquestra NEOJIBA, em 2023, interpretando obra de Antonín Dvořák, além da execução do concerto de Jean Sibelius em 2025, sob regência de Ricardo Castro. Também se apresentou em salas importantes da Europa, como o Concertgebouw, em Amsterdã, e a Philharmonie de Paris.


Campos e mulher na música
Ser mulher na música ainda pode ser desafiador. Isabela Rangel relata que já enfrentou momentos de comparação e insegurança, especialmente em relação a colegas homens. “Em determinadas situações, despertava a sensação de não ser suficiente”, conta. Com o passar do tempo, no entanto, ela afirma ter amadurecido, fortalecendo a autoconfiança e reconhecendo o próprio valor como musicista.
Apesar da saudade da família em Campos, diz estar realizada em Salvador. “A cidade, tradicionalmente ligada à música popular, vive um crescimento do interesse pela música de concerto, impulsionado tanto pela atuação da OSBA quanto pelo alcance social do Neojiba, que forma jovens músicos em todo o estado. Meu marido Raphael Elias, também é ligado à formação musical e a projetos internacionais”, destaca. Para ela, a música vai além da técnica. “É uma ferramenta poderosa de transformação. Forma cidadãos mais sensíveis, disciplinados e conscientes”, afirma.
Inspirar crianças e jovens é uma das maiores motivações. Ao ver o interesse de novos alunos, encontra sentido no trabalho musical. “Saber que posso inspirar dá ainda mais propósito ao que faço”, diz. Entre os planos, estão o aperfeiçoamento contínuo, participação em festivais e a realização de um mestrado.
Admiradora de Johann Sebastian Bach e de grandes nomes do violino, como Yehudi Menuhin e Itzhak Perlman, Isabela Rangel acredita que não há um único objetivo na carreira. “Mais importante do que alcançar grandes palcos é a capacidade de emocionar e se conectar com o público — especialmente na música de câmara, onde a escuta e a sensibilidade ganham protagonismo”, conclui.