×
Copyright 2024 - Desenvolvido por Hesea Tecnologia e Sistemas

Tabuleiro político campista ainda em busca de definição

Convenções partidárias começam em junho, mas especulações já apontam alguns nomes na corrida por vaga em Brasília

Especial J3
Por Ocinei Trindade
8 de março de 2026 - 0h01

Faltam poucos dias para os destinos dos pré-candidatos às eleições de outubro começarem a se definir mais claramente. Este é o caso do prefeito de Campos dos Goytacazes, Wladimir Garotinho (PP), que poderá deixar a Prefeitura para concorrer a deputado federal; e do governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), que pretende disputar o Senado. Especulações e incertezas tomam conta do cenário político fluminense. Em Campos, nomes do ex-governador Anthony Garotinho (Republicanos), do presidente afastado da Assembleia Legislativa do Estado do rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacellar (União), do deputado Caio Vianna (PSD) e da delegada Madeleine Dykeman (União) são cogitados para concorrer à Câmara dos Deputados. As convenções partidárias — período de escolha oficial de candidatos — ocorrem entre 20 de julho e 5 de agosto.

Wladimir Garotinho (Fotos: Reprodução/Redes Sociais)

Durante visita de Cláudio Castro a Campos na última quarta-feira, para lançar a pedra fundamental do Batalhão de Polícia Militar de Guarus, Wladimir disse que seu futuro será definido nos próximos 15 dias. Ele teria sido convidado pelo senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República, para ingressar no PL e ser coordenador de sua campanha no Norte Fluminense. Wladimir calou-se. Já Cláudio Castro enfrenta julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que pode cassar seu mandato e torná-lo inelegível por oito anos. O Ministério Público acusa o governador de abuso de poder político e econômico no chamado “escândalo do Ceperj”. Isso envolve ainda Rodrigo Bacellar e o ex-vice-governador Thiago Pampolha – que deixou o cargo para assumir o cargo de conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio. O TSE marcou a retomada do julgamento para o próximo dia 10.

Caio Vianna

Atualmente, Campos dos Goytacazes conta com Caio Vianna como deputado federal. Ele é o terceiro suplente do PSD. O titular do mandato, Daniel Soranz, foi nomeado por Eduardo Paes secretário municipal de Saúde do Rio de Janeiro. Caio Vianna assumiu o mandato na Câmara pela primeira vez em 2023.  Procurado pela reportagem do J3News a respeito de suas pretensões eleitorais em outubro, ele não respondeu aos questionamentos.

O silêncio também foi mantido por Rodrigo Bacellar. O J3News quis saber do político que se encontra afastado do cargo desde dezembro de 2025, sobre o que cogita politicamente neste momento turbulento. Ele foi preso durante a Operação Unha e Carne, da Polícia Federal (PF), em 3 de dezembro. O parlamentar teria vazado informações sigilosas sobre investigação contra o ex-deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, conhecido como TH Joias, acusado de intermediar compra e venda de armas para o Comando Vermelho (CV), principal facção criminosa do Rio de Janeiro.

Rodrigo Bacellar

Bacellar chegou a ser cotado para disputar o Governo do Rio de Janeiro e uma cadeira de deputado federal. No entanto, o cenário não é favorável para certezas sobre seu mandato e carreira política. Recentemente, a imprensa divulgou investigações da Polícia Federal envolvendo o deputado afastado por suspeita de lavagem de dinheiro e supostos indícios de que ele seria sócio oculto de um frigorífico em Campos dos Goytacazes. A evolução patrimonial do parlamentar também é analisada pela investigação. Em nota ao G1, a defesa de Bacellar afirmou que “após uma ação açodada e arbitrária da autoridade policial, com graves falhas, fica nítida a tentativa de criar novos fatos, também rasos, com novas ilações, como imputar ao deputado imóveis e negócios que nunca foram dele.”

Um nome forte em Brasília
As eleições de outubro mexem com os atores políticos de Campos. Em um pronunciamento atribuído a Wladimir Garotinho, de acordo com o analista político Rodrigo Lira, o prefeito de Campos teria mencionado a necessidade de a cidade e região contarem com um nome forte em Brasília como deputado federal. Isto reforçou a especulação dele deixar o cargo de prefeito. O cientista político Georges Coutinho, em entrevista ao J3News, comentou a suposta intenção do ex-prefeito e ex-governador Anthony Garotinho também disputar a eleição como deputado federal. “Haveria espaço para dois candidatos da mesma família?”, questionou.

Anthony Garotinho

O nome de Anthony Garotinho também aparece como suposto candidato ao Governo do Rio de Janeiro. Fontes ligadas ao político garantem que ele foi sondado pela influente família Cozzolino, do município de Magé, para ingressar no partido Democracia Cristã (DC) entrar no páreo estadual e concorrer com os pré-candidatos Eduardo Paes (PSD) e Douglas Ruas (PL). Procurado pelo J3News, Garotinho não respondeu sobre suas intenções eleitorais.  Nas últimas semanas, ele tem participado de programas de entrevistas e podcasts, com análises eleitorais e críticas a adversários políticos. Isso lhe tem dado alguma visibilidade nas redes sociais.

O nome da delegada Madeleine Dykeman (União) surge como possibilidade considerável para disputar uma vaga na Câmara dos Deputados. Novata em 2024, ela concorreu pela primeira vez à Prefeitura de Campos dos Goytacazes. Obteve 67.354 votos (24,22%) e perdeu para Wladimir, eleito no primeiro turno com 192.232 votos (69,11%).

Recentemente, Madeleine divulgou sua saída do grupo político de Rodrigo Bacellar e declarou total apoio a Flávio Bolsonaro para presidente do Brasil. Ela disse que é pré-candidata a deputada federal, mas não confirmou se pretende ingressar no Partido Liberal. Caso isso ocorra, e se Wladimir migrar para a sigla, os adversários políticos iniciariam um novo momento no bolsonarismo campista.

Madeleine Dykeman (Foto: Silvana Rust)

“Este é um passo natural dentro do propósito que venho construindo. Neste momento, estou dialogando e avaliando o cenário político com responsabilidade. A definição (de partido) será feita no tempo adequado, sempre com foco em coerência com as bandeiras que defendo. Acredito na força da minha história e no diálogo que está sendo construído. Tenho trabalhado com serenidade e responsabilidade para que todas as etapas sejam cumpridas de forma transparente. Após 18 anos como delegada de polícia, atuando no combate ao narcotráfico, aos homicídios e na proteção às mulheres vítimas de violência, percebi que muitos dos desafios que enfrentamos na ponta dependem de decisões tomadas em Brasília. Quero contribuir na construção de leis mais eficazes, na destinação correta de recursos e no fortalecimento da segurança pública e da proteção às famílias”, diz a pré-candidata.

Incógnitas e análises
As especulações que envolvem políticos campistas no pleito de 2026 têm sido analisadas por especialistas e lideranças partidárias. Para a cientista social Simone Pedro, os nomes que se apresentam revelam a força de um padrão recorrente na política local. “É o protagonismo de lideranças pertencentes a redes políticas já estruturadas. Trata-se de nomes com capital eleitoral acumulado, capacidade de mobilização e inserção institucional consolidada. Isso revela o cenário de um município em que a política ainda opera fortemente a partir de vínculos históricos, estruturas familiares ou de grupo. A tendência é mais de acomodação estratégica dessas forças, do que rupturas profundas. Por outro lado, quando o campo competitivo se concentra em atores já conhecidos, o risco é que a disputa se torne mais uma reorganização de poder do que uma discussão potente e estruturante sobre o futuro da cidade”, comenta.

Para o historiador e analista Fábio Siqueira, o nome de Wladimir Garotinho é o que se destaca neste momento para uma vaga no Legislativo em Brasília.

“Wladimir, com o apoio do vice que assumirá, do secretariado, da bancada de vereadores governistas e da estrutura do governo, é o principal favorito para a Câmara Federal dentre os nomes mencionados. Se ele permanece no PP ou se vai para outro partido, é uma questão. Se for para o PL, vai disputar com a Delegada Madeleine no mesmo palanque eleitoral. Caso aceite assumir publicamente a coordenação da candidatura de extrema direita, vai constranger colaboradores diretos que optaram por Lula em 2022. Há que conferir o peso e os apoios destinados a essas pré-candidaturas. Outra questão, já abordada pelo próprio patriarca dos Garotinho na mídia, é a possível divisão dos eleitores entre pai e filho. Caio Vianna, agora aliado de Wladimir, será candidato à Alerj? Independente das acusações apresentadas pela PF contra Rodrigo Bacellar, ele terá direito a ampla defesa e, até que se prove em contrário, será um forte candidato ou cabo eleitoral para qualquer cargo eletivo em Campos”, conclui.