

“Quando o Carnaval sai da data oficial, ele perde força, visibilidade e entra em um ciclo de irregularidade que enfraquece a festa”. A análise do pesquisador e carnavalesco Marcelo Sampaio, que acompanha o Carnaval de Campos desde os anos 1980, ajuda a explicar como a maior celebração popular do país foi, aos poucos, perdendo sua melodia, ritmo e harmonia pelas ruas da cidade. Mais uma vez, Campos não terá Carnaval na data oficial.
A cidade, que por décadas manteve viva a tradição dos desfiles de escolas de samba, blocos e bois pintadinhos, foi deslocando a folia do calendário nacional ao longo dos anos. Perdeu espaço e identidade, tornando-se um evento fora de época e cercado de incertezas.
As dúvidas em torno do Carnaval campista não são recentes. Elas se acumulam há quase uma década, antes mesmo da pandemia. Segundo o especialista, a falta de recursos, aliada à decisão de sucessivas gestões de não destinar verbas públicas diretas às escolas de samba e agremiações, por exemplo, comprometeu a realização dos desfiles tanto na data oficial quanto fora dela.


Desde 2009, quando a festa foi transferida do calendário nacional, o Carnaval de Campos passou a viver de altos e baixos. A mudança, inicialmente justificada por fatores pontuais, acabou se tornando permanente. Com isso, a cidade deixou de integrar o circuito tradicional do Carnaval.
Às vésperas do Carnaval, marcado para os dias 14 a 17 de fevereiro, o cenário segue indefinido. A menos de duas semanas da data, não há confirmação sobre desfiles, estrutura ou apoio às agremiações, reforçando a sensação de que a festa segue sem planejamento contínuo.
Para o pesquisador, a ausência de subvenção direta do poder público foi determinante para o enfraquecimento da festa. “Durante muitos anos, a Prefeitura participou diretamente do financiamento dos desfiles. Hoje, as agremiações dependem quase exclusivamente de editais, o que não sustenta uma festa tradicional como o Carnaval”, afirma.


Carnaval fora do Centro
Marcelo também aponta que a retirada dos desfiles do centro da cidade foi outro erro estrutural. Segundo ele, o Carnaval precisa ocupar áreas centrais para provocar impacto urbano, social e simbólico. Além disso, afirmou que o deslocamento para o Centro de Eventos Populares Osório Peixoto (CEPOP) trouxe problemas de acesso, transporte e esvaziamento do público, apesar de, nos primeiros anos, o espaço ter recebido grandes públicos e atrações nacionais.
Outro fator citado é a perda do vínculo comunitário. Com desfiles fora de época, muitas escolas passaram a terceirizar mão de obra, fantasias e alegorias, reduzindo a participação local. “Carnaval sem comunidade perde sua essência. Assim como o futebol, precisa de povo”, resume.
A redação solicitou um posicionamento da Prefeitura de Campos para saber se existe planejamento, estudo ou diálogo em andamento sobre a realização dos desfiles das agremiações carnavalescas neste ano. Até o fechamento desta edição, na última sexta-feira (30), não houve retorno.
A equipe de reportagem procurou o presidente da Associação de Bois Pintadinhos de Campos Dos Goytacazes (Aboipic), Marciano da Hora, mas ele não respondeu aos questionamentos até o fechamento desta edição.