



Mais uma vez, uma região do subdistrito de Guarus vive dias de pânico e terror por conta da guerra entre facções criminosas por território. O bairro do Parque Prazeres completou, na última quinta-feira (8), seis dias consecutivos de tiroteios. De acordo com a Polícia Civil, o cenário de violência armada tem como motivação o confronto entre facções rivais, com a tentativa de invasão e tomada do poder por parte do grupo que domina a comunidade conhecida como Casinhas do Nolita. Lá, três suspeitos foram presos entre quinta e sexta-feira (9).
Pelas redes sociais, circulam várias pichações da facção criminosa Amigos dos Amigos (ADA), dando conta da tentativa de tomada do tráfico na região, em guerra declarada ao Terceiro Comando Puro (TCP). Aterrorizada pela guerra, a população chegou a emitir uma nota pedindo reforço policial.
O Parque Prazeres passou a contar com base móvel da Polícia Militar (PM), desde quinta-feira. No mesmo dia, a Polícia Civil começou a realizar ações para identificar envolvidos nos confrontos. Além das prisões, houve apreensão de materiais utilizados pelo tráfico: armas, munições, drogas e rádios transmissores.


Uma semana de guerra em Guarus
“Precisei ir ao shopping em um dos dias desta semana (semana passada). Na hora de ir embora, tive muita dificuldade. Nenhum motorista por aplicativo queria pegar corrida para o Parque Prazeres. Eu só queria ir para casa e não conseguia. Acabei indo muito tempo depois, pegando um táxi”. O relato de uma moradora que preferiu não se identificar expõe a difícil situação em que a população do Parque Prazeres se viu logo nos primeiros dias de 2026.
No dia 3 de janeiro (sábado), criminosos de uma facção rival decidiram tentar invadir e tomar o controle do bairro. Desde então, há registros frequentes de violência armada no local. Naquele dia, equipes da PM foram recebidas a tiros durante uma ação na comunidade e houve revide para conter os criminosos envolvidos. Quatro dias depois, o cenário continuava assustador. Disparos começaram a ser ouvidos na tarde e noite de quarta-feira (7). Os tiros avançaram pela madrugada de quinta-feira. O barulho dos confrontos chegou a ser registrado por moradores, com vídeos circulando pelas redes sociais.
Em meio à guerra, a PM instalou um trailer em um ponto estratégico do Parque Prazeres, na quinta-feira (8). O 8º Batalhão de Polícia Militar (8º BPM) informou ao J3 que iniciou um esquema de reforço policial na área, com intensificação das ações ostensivas e de revistas a pessoas e veículos. O 8º BPM anunciou ainda que o bairro passou a contar desde então com policiamento diuturno, com presença dos policiais 24 horas por dia, com o objetivo de garantir a paz e ordem da população local. As operações táticas também foram reforçadas, inclusive em áreas de difícil acesso e matas, contando com o suporte especializado do Batalhão de Ações com Cães (BAC).
“Agora vai… Se Deus quiser o bairro agora vai ficar tranquilo, em nome do senhor Jesus”, disse um morador durante o vídeo que registrou a chegada do trailer da PM. O reforço do policiamento atende a um clamor dos moradores, que chegaram a publicar um pedido de socorro nas redes sociais. “Famílias estão acuadas, trabalhadores impedidos de circular, escolas e comércios funcionando sob tensão e um bairro inteiro refém da criminalidade”, disse a nota.
Depois de realizar investigações sigilosas, a Polícia Civil levou à rua ações estratégicas para combater a criminalidade envolvida nos confrontos. Na sexta-feira (9), dois homens foram presos e um terceiro foi baleado durante um confronto policial na comunidade conhecida como Casinhas do Nolita. Armas, drogas, munições e rádios transmissores foram apreendidos na mesma ação. No dia anterior, um adolescente já havia sido preso no mesmo local, além de uma espingarda apreendida após ter sido encontrada enterrada.


Combate
As ações foram conduzidas pelo delegado Ronaldo Cavalcante, titular da 146ª Delegacia de Polícia (Guarus), com apoio de agentes da 134ª DP (Centro) e Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam).
“Desde que tomamos conhecimento desses ataques promovidos pela facção criminosa ADA no Parque Prazeres e adjacências em face da facção TCP, começamos a trabalhar em conjunto. A PM intensificou o policiamento diário e nós, da Polícia Civil, realizamos o nosso trabalho investigativo, buscando identificar e localizar os criminosos envolvidos. Identificamos que alguns estavam escondidos em um pasto. Primeiro, na quinta-feira, apreendemos a arma de fogo que aparecia em um vídeo que circulava pelas redes sociais. Ela estava enterrada e foi encontrada com o apoio do Batalhão de Ações com Cães. No mesmo dia, voltamos a essa zona rural e localizamos um adolescente, que estava entre os nossos procurados. Ele foi apreendido e encaminhado ao Cense (Centro de Socioeducação, vinculado ao Degase). Na sexta-feira, a equipe da PM conseguiu realizar a prisão de três elementos. Os três foram presos em flagrante, autuados por tráfico, associação pelo tráfico e porte de arma de fogo de calibre restrito. O posto móvel da PM vai continuar no local e as nossas investigações continuam avançando para qualificar todos os envolvidos”, comentou o delegado.
“Saidinha de Natal”
A reportagem apurou também que o aumento da violência armada na região teria ligação direta com a “Saidinha de Natal”. A apuração do J3 dá conta de que parte dos envolvidos estaria ligada a detentos beneficiados com a Visita Periódica ao Lar (VPL), que não teriam retornado às unidades prisionais dentro do prazo estabelecido, encerrado no dia 30 de dezembro. De acordo com a Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap), 19 presos do Norte e Noroeste Fluminense não retornaram às unidades após o período.
Gerente do tráfico preso e violência na guerra entre facções
A Polícia Civil prendeu, na última quarta-feira (7), um homem apontado como gerente da facção criminosa TCP, em São Francisco de Itabapoana. Ele foi preso em Cabo Frio. Contra K.S.B havia dois mandados de prisão preventiva expedidos pela Justiça de São Francisco de Itabapoana, pelos crimes de homicídio qualificado, furto qualificado e três tentativas de homicídio qualificado.
No caso de homicídio consumado, o acusado e comparsas teriam invadido uma residência e executado a vítima, um traficante que teria deixado o TCP. O crime ocorrido em São Domingos, localidade de SFI, foi cometido na frente da esposa e da filha da vítima, de apenas quatro anos de idade. Após o assassinato, K.S.B. ainda teria roubado R$ 500 e um telefone celular, antes de fugir. Tanto o Parque Prazeres como o distrito campista de Travessão (na região Norte de Campos), que também vem registrando casos de violência, mortes e prisões por envolvimento com facções criminosas -, têm proximidade com o município de São Francisco.


Socióloga questiona estratégia do Estado
Para analisar a situação à qual a população de Guarus foi imposta na última semana, a reportagem conversou com a socióloga Luciane Silva. Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a professora da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) questiona a falta de investimentos e a forma como o Estado atua na tentativa de reduzir os índices criminais.
“A pergunta que nos fica é em que momento nós realmente teremos o investimento do Estado do Rio de Janeiro no aumento do seu efetivo, no aumento dos equipamentos, da capacidade de produção, da paz e da regularidade das possibilidades de ida e vinda da população que, no fim das contas, é que fica refém no meio desses quadros de violência e criminalidade”, enfatiza. Ela também avalia como válida a ideia da criação do Ministério da Segurança Pública. A questão vem sendo discutida no Governo Federal e pode acontecer ainda em 2026.
“Vejo como cada vez mais explícita essa possibilidade de criação do Ministério de Segurança Pública, para além do Ministério da Justiça. É um debate importante. Porque a gente está falando do sequestro desses territórios pelo crime organizado. Participei em dezembro de uma discussão sobre a criação do Ministério da Segurança e acho que ela deve ir à diante. Afinal, grande parte da criminalidade que hoje movimenta as manchetes e o trabalho policial está conectada ao crime organizado. E o Estado brasileiro é ineficaz há décadas na tentativa de combate as facções”, pontua.
Por fim, a socióloga faz ainda um questionamento sobre a forma com que o Estado lida com a questão das fugas após as “saidinhas de Natal”. “O sistema prisional, junto com a Polícia, vai recuperar os presos que saíram na ‘saidinha’? Acho que essa era uma pergunta técnica importante a se fazer. Porque essas pessoas estão foragidas. Então, se há uma relação causal entre ‘saidinha’ e essa guerra do tráfico, a pergunta a se fazer é: qual será a forma do Estado recuperar esses criminosos?”, complementa.