

Rodrigo Lira – Doutor em política, professor e pesquisador do programa de doutorado em Planejamento Regional e Gestão de Cidades da Universidade Candido Mendes – Nas últimas semanas, as discussões da COP voltaram a colocar o mundo diante de uma encruzilhada: ou aceleramos a transição energética, ou continuaremos presos a um modelo que já não entrega futuro. No Brasil, a fala do presidente Lula sobre a criação de um fundo global para financiar essa virada reacendeu debates, especialmente em regiões que dependem fortemente da economia fóssil. E aí surge a pergunta que ecoa por aqui: qual é o lugar do Norte Fluminense nessa história?
A região, acostumada a conviver com os ciclos de abundância dos royalties, vê agora o Porto do Açu se posicionar como protagonista de um novo capítulo. Eólica offshore, hidrogênio verde, cadeias produtivas de baixo carbono e oportunidades industriais que antes pareciam distantes começam a surgir como rota possível — desde que haja planejamento, articulação institucional e visão de longo prazo.
O risco, porém, é transformar tudo isso em mantra vazio: repetir a expressão “transição energética” como quem repete slogan, sem enfrentar o que realmente importa — capacitação profissional, fortalecimento das universidades, infraestrutura adequada, políticas públicas consistentes e governança regional que conecte municípios, instituições e setor privado.
Se o Norte Fluminense quiser, de fato, participar desse novo ciclo, precisará superar o velho vício de esperar que o desenvolvimento simplesmente aconteça. A agenda verde só fará sentido se gerar empregos qualificados, diversificar a economia e aumentar o protagonismo local nas cadeias produtivas emergentes.
A transição energética não é promessa. É um convite. A dúvida é se seguiremos apenas aplaudindo de longe — ou se teremos coragem de assumir o protagonismo que a história está, mais uma vez, oferecendo.
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