

Missão difícil adjetivá-lo. Talvez “craque” seja a melhor palavra. Leonardo de Vasconcellos Silva sabe muito de tudo. Essa entrevista poderia ter vários focos, como música, já que é um especialista em jazz e blues. Poderia ser sobre cinema, com ele citando obras, diretores, elencos e datas. Mas, o tema escolhido é a cidade de Campos dos Goytacazes, que está fazendo aniversário.
Ele ajuda a entender a rica, e às vezes confusa, história de Campos, no curso da qual, muita gente deu as cartas e alguns pontos acabaram embaralhados. Leonardo de Vasconcellos Silva, fica então apresentado aqui como pesquisador, mas ele é também designer gráfico, professor de disciplinas na área de imagem, escritor, fotógrafo e curador de mostras e exposição.
Leonardo é, antes de tudo, um detalhista, daqueles que traça um recorte que define o todo. Tem um olhar quase que cirúrgico ao apresentar fatos em suas fotos com as devidas legendas. Tudo de importante no patrimônio de Campos ele fotografou com olhar de quem pesquisa, e agora nos revela.
Como você explica essa confusão em torno da idade de Campos?
Essa é uma discussão infindável, porque cada pesquisador leva em consideração determinado aspecto da história da cidade. Alguns tomam como ponto de partida a construção da primeira capela erguida em homenagem ao Santíssimo Salvador. Outros, levam em consideração a instalação da primeira vila ou a instalação da segunda vila. Outro grupo, a criação do primeiro curral pelos Sete Capitães em 1633 etc. Pela sua importância na fundação da Vila de S. Salvador de Campos dos Goytacazes, é preponderante dar a Salvador Correa de Sá e Benevides o protagonismo que ele merece ter. Portanto, 29 de maio de 1677 é uma data a ser considerada, assim como a passagem de vila a cidade, em 28 de março de 1835, outra data a servir de referência.


E o nome de Campos passando a ser composto com a retomada do “Goytacazes”?
Esse também é um debate que parece não ter fim. Diversos especialistas já se debruçaram sobre esse tema. Pela Lei Municipal n.º 559, de 16 de outubro de 1986, homologada pela Lei Municipal n.º 1.371, de 24 de outubro de 1988, o município de Campos passou a denominar-se Campos dos Goitacazes, nome composto. Em 1990 o Professor de Língua Portuguesa da UFRJ Leo Bárbara Machado, dedicou-se ao estudo da grafia correta do substantivo Goitacá. De acordo com ele o “y” deveria ser extirpado por nada ter a ver com o original Tupi, fazendo a flexão de acordo com a Norma Gramatical Brasileira, com “s” e não com “z”. Pelo visto, não foi bem sucedido na sua argumentação. Trinta anos depois ainda continuamos sendo conhecidos como Campos dos Goytacazes, com “y” e “z”.
Pela sua lente de fotógrafo, como se revela a fotogenia da cidade em termos de preservação do patrimônio histórico?
Como curador da “Mostra SESC de Fotografia”, propus em 2003 um concurso intitulado “Campos Cartão Postal”. Aberto às duas categorias [Profissionais e Amadores], a proposta era uma provocação, pois já achava a cidade bastante degradada naquela época. Como tínhamos acabado de acompanhar a restauração do Liceu e do Jardim do Liceu e já participávamos das ações preliminares para a restauração do Fórum Nilo Peçanha, achei que a motivação inicial para o concurso já estava posta. Atualmente, fico me questionando: se surgisse uma nova proposta de concurso, que pontos da cidade estariam aptos a serem registrados pelas lentes das câmeras fotográficas e se transformarem em cartões-postais? As restaurações de 2001, feitas no Liceu e no Jardim do Liceu, perderam validade. Diante da falta de um espaço público democrático, cabe seguidamente ao Jardim do Liceu o papel central para realização de eventos musicais, gastronômicos e festivos. Se o nosso principal cartão postal encontra-se nesse estágio avançado de degradação, imagine os outros.
Existem detalhes imperceptíveis em muitos casarões no Centro de Campos. Pode me dar um exemplo?
Durante muito tempo, Campos foi um museu de arquitetura a céu aberto. A diversidade de estilos arquitetônicos presente na cidade ainda nos permite conviver cotidianamente com o Colonial, o Barroco, o Neo-Clássico, o Eclético, o Art Nouveau, e o Art Déco, entre outros. Pela grande quantidade de prédios construídos dentro do estilo Eclético, é dele que ainda encontramos os mais significativos remanescentes, apesar da descaracterização e destruição incansável desses exemplares. A necessidade de adaptação das degradadas construções coloniais ao estilo Eclético fez surgir um elemento arquitetônico que se tornou uma espécie de “impressão digital” de cada edificação. Esse elemento, a platibanda, tinha a função primordial de esconder os telhados, que jogavam nas calçadas a água das chuvas. Somou-se a essa necessidade construtiva o efeito estético. Se observarmos a parte superior das fachadas Ecléticas, iremos notar que os elementos decorativos que compõem as platibandas raramente se repetem. Invariavelmente os pináculos, os rostos femininos, os “Homens Verdes” e os medalhões com data compõem decorativamente as platibandas.


Temos exemplos de restauro no Município, como os solares do Colégio e da Baronesa. Você considera o Solar dos Ayrizes uma restauração necessária?
Pelo que me consta, a restauração do Solar da Baronesa não foi concluída. Ainda na década de 1990, o Solar do Colégio sofreu uma grande restauração e adaptação para se tornar escola de cinema, projeto que acabou não vingando. Sua utilização atual como Arquivo Público Municipal é equivocada, na medida em que recebe farta documentação textual e iconográfica sem que a construção tenha sido adaptada para esse fim. Papel e umidade ascendente convivem no prédio jesuítico, colocando em risco uma documentação de valor histórico inestimável. Espero que a restauração, que está sendo prometida, atenda de fato às necessidades da edificação como arquivo. Quanto ao Solar dos Ayrizes vejo com bons olhos a sua restauração, enquanto é tempo. A pergunta que fica no ar é: qual será a sua função depois de restaurado? Como se sabe, a melhor forma de conservar um prédio histórico é promover a sua utilização regular. Restaurar e manter fechado não vai garantir a sobrevivência do Solar dos Ayrizes.
Fale um pouco sobre a ponte de ferro construída pela então Leopoldina Railway sobre o rio Paraíba?
A chamada Ponte de Ferro da Leopoldina foi construída em 1907-1908 para facilitar o escoamento de mercadorias indo ou vindo de Minas Gerais ou do Espírito Santo. Foi feita na Inglaterra e veio em módulos para ser montada em Campos. Sua construção desativou duas estações, a Estação Campos-Carga e a Estação Campos-Carangola. Em contrapartida, foi construída a nova Estação do Sacco, atualmente sede da Secretaria de Educação de Campos.
Voltando à questão do patrimônio, Campos também perdeu documentos seus para outras cidades. Consta que a biblioteca de Alberto Frederico de Moraes Lamego está na USP, em São Paulo. Isso é fato?
Perder não seria o termo correto. Sabemos onde esse acervo se encontra. Alberto Frederico de Moraes Lamego vendeu em 1935 sua biblioteca particular, e os documentos que adquiriu no período em que morou na Europa, para o Governo do Estado de São Paulo. O governo passou a guarda do acervo à USP (Universidade de São Paulo), e esta o passou, em 1968, ao IEP (Instituto de Estudos Brasileiros). Na época da venda, o acervo era composto por 3.750 volumes (livros, revistas e folhetos) e por 4.733 documentos (manuscritos e impressos). Também é importante ressaltar que a pinacoteca dos Ayrizes foi vendida em 1947 ao Governo do Estado do Rio de Janeiro para compor o acervo do Museu Antonio Parreiras. Dela constam obras primas do estilo Barroco, adquiridas por Lamego em diversos países, principalmente na Bélgica e na Holanda.


É possível fazer um inventário das perdas relevantes de Campos?
Sim. Do ponto de vista do patrimônio arquitetônico é mais fácil, por ser possível a constatação visual na paisagem urbana. Uma pessoa que esteja na faixa dos 50 aos 90 anos certamente irá sentir falta de diversas referências afetivas, lugares de memória que foram desaparecendo sem serem substituídas por outras. Estabelecimentos comerciais, cafés, estádios de futebol e instituições bancárias são alguns desses espaços. Além do eternamente pranteado Cine Teatro Trianon (o original, erguido por Francisco de Paula Carneiro), perdemos o teatro S. Salvador, o Cine Teatro Orion, o velódromo de Campos, o palacete Arthur Pinto, na Rua Sete de Setembro, e a sede original do Automóvel Club Fluminense. Também é possível citar os prédios da Igreja N. Sra. Mãe dos Homens e da Santa Casa de Misericórdia, que se situavam na Praça das 4 Jornadas. Se formos falar das perdas textuais e iconográficas podemos lembrar das plantas da Campos Syndicate, a maravilhosa planta de Campos, feita em 1902 por Saturnino de Brito, as Plantas Cadastrais de 1944, etc. A lista é imensa.
Você tem algum projeto seu que gostaria de ver em curso, como um documentário de imagem sobre isso tudo?
Pela origem da minha formação e pelo envolvimento com a pesquisa sobre Campos, tenho me envolvido regularmente com projetos de design editorial. Exatamente um ano atrás, junto com Genilson Paes Soares, participei da elaboração da pesquisa histórico-iconográfica para o livro “Nos Tempos do Trianon: Campos Se Diverte”, que tem Juliana Carneiro e Victor Andrade de Melo como autores. Junto com Genilson Paes Soares, estou avançando na pesquisa para a publicação de um livro que tem a história da fotografia em Campos como tema central, além de outros projetos com perfil similar.
Além do Trianon, caetanamente falando, para qual outro prédio você encaixaria a letra “a força da grana que ergue e destrói coisas belas”?
Quando eu estava cursando Design Gráfico na PUC do Rio me veio a ideia de produzir um livro que contasse a história das transformações urbanas de Campos através das imagens. Três álbuns de fotografia foram fundamentais para que eu flanasse pela Campos do final do século XIX e início do século XX: um deles, com fotos de Guilherme Bolckau feitas em 1879; outro, com fotografias de períodos variados, pertencente ao Dr. Dario Marinho; e por último, um álbum com fotografias feitas por Francisco de Paula Carneiro, o Capitão Carneirinho, que mostrava Campos nas décadas de 1900, 1910 e 1920. Nesse álbum aparece em destaque a casa dele, na esquina das ruas Treze de Maio com Saldanha Marinho. Em estilo Art Nouveau, a Vilino F. P. Carneiro tinha uma escadaria que bifurcava quando chegava ao balcão frontal que, por sua vez, antecedia a porta de entrada e as janelas ricamente decoradas com motivos fitomórficos que destacavam a fachada. Essa belíssima construção foi criminosa e sorrateiramente posta abaixo na madrugada de um dia de verão da década de 1980, dando lugar a um centro comercial.
Alguma lei de âmbito municipal que você gostaria de ver vigorando?
Sim. Leis que estimulassem a preservação dos imóveis de inegável valor histórico-arquitetônico, mas que são um fardo para que seus proprietários os mantenham. Também poderiam ser criadas leis que estimulassem o plantio de árvores em vias públicas, embelezando a cidade, sombreando as calçadas, diminuindo a temperatura ambiente e estimulando os proprietários de automóveis a adquirirem o saudável hábito da caminhada.
Que tipo de presente Campos mereceria pelo seu aniversário?
Ganhar um Parque Municipal, onde a vegetação fosse farta e diversificada, onde as pistas de corrida e caminhada, as quadras de esportes, as pistas de skate e os espaços de contemplação fossem abundantes a ponto de permitir que as diferentes classes sociais pudessem usufruir do mesmo lugar, da forma mais democrática possível. Nesse lugar poderia haver a realização de eventos musicais, gastronômicos e festivos. Não seria uma invenção nossa, esses espaços já existem em cidades como o Rio de Janeiro (Aterro do Flamengo), São Paulo (Parque do Ibirapuera), Nova Iorque [Central Park), e Paris (Bois de Boulogne).