

Alunos colocam em prática o aprendizado. (Foto: Silvana Rust)
por PRISCILLA ALVES e ULLI MARQUES
Quem tem um animal de estimação sabe bem dos cuidados que ele precisa. E quem estuda também sabe da necessidade de colocar a teoria em prática. Neste contexto, o Hospital Veterinário da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), inaugurado em 2006, funciona como uma via de mão dupla em que presta inúmeros serviços com preços acessíveis à população e ainda permite que alunos do curso de Medicina Veterinária tenham um treinamento prático supervisionado.
Mesmo já tendo passado por inúmeras crises financeiras ao longo dos anos, assim como a Uenf, o local consegue manter a excelência no atendimento e é referência em toda a região, incluindo parte dos estados de Minas Gerais e do Espírito Santo. Na direção do hospital desde janeiro de 2016, a professora Helena Nakamura garante que os esforços para manter os serviços sejam feitos.
“Temos um desafio de gerar os recursos e somos apaixonados pela profissão. A importância de um curso bem estruturado é crucial para a formação de novos profissionais. Momentos de crise são cruciais para se desenvolver criatividade, gerar noções de integração social. Desde que eu assumi, em condições críticas, a gente buscou meios criativos para arrecadar dinheiro. No primeiro ano foi desesperador, porque não tinha nem desinfetante”, lembrou a professora.
No hospital, os alunos têm acesso a vários laboratórios para estudo e prática do que aprendem na graduação, na pós e também em projetos de extensão e pesquisa oferecidos pela instituição. São aprendizados como, por exemplo, os ossos e órgãos dos animais mais comuns na região — tanto domésticos quanto selvagens.


Professora Helena Nakamura é diretora do Hospital Veterinário da Uenf. (Foto: Silvana Rust)
“Se você não tem uma graduação bem estruturada, você não vai ter um pós-graduando e um profissional de qualidade. Aqui os alunos aprendem toda a parte da estruturação física, sistema ósseo, as vísceras, tudo. Estudamos com materiais reais”.
Entre os inúmeros serviços que o hospital-escola disponibiliza estão raio-x, taxidermia, reprodução assistida, necropsia e análises pertinentes ao sangue. Vale ressaltar que, além do trabalho com animais domésticos, o local também cuida e pesquisa animais silvestres. Apesar de ter uma grande estrutura, a diretora Helena garante que não é suficiente para atender a demanda do município.
“O que é mais chocante pra gente é que têm pessoas que possuem boas condições financeiras e mesmo assim utilizam nossos serviços e tiram o lugar do pobre. Então, esse é um grande apelo que eu faço: quem pode, por favor, busque uma clínica. O hospital não está para uma concorrência desleal com as clínicas. Nós somos para um público que não tem acesso a estes serviços e que precisa. Se a população reclama do grande número de animais abandonados, é porque o pobre não está conseguindo pagar uma castração de 600 reais para seu animal de estimação”, desabafou.
O Hospital Veterinário da Uenf funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, exceto no horário do almoço (12h às 14h). Os horários de atendimento ao público variam, mas os interessados podem entrar em contato pelos telefones (22) 2739-7313 ou (22) 99900-7313.


Cobra filhote de jiboia passou por cirurgia após ser atacada por um cachorro. (Foto: Silvana Rust)
Nepas
Esta semana, o Hospital Veterinário da Uenf sofreu uma triste perda. O Núcleo de Estudos e Pesquisa em Animais Selvagens (Nepas), que funciona no local desde 2005, deixou de receber animais feridos. A decisão foi tomada pelo coordenador do núcleo, professor Leonardo Serafim, devido à carência de repasses financeiros por parte do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) para aquisição de medicamentos, alimentos e demais materiais.
Em entrevista ao Jornal Terceira Via, o professor explicou que, bem como ocorre em toda a Uenf, o Nepas enfrenta uma grave crise financeira e são os profissionais que atuam no espaço quem mantêm os gastos necessários para dar seguimento aos atendimentos médicos, cirúrgicos, ortopédicos e etc. Ao longo dos anos, o professor Leonardo e demais médicos veterinários residentes e estagiários investem o próprio dinheiro na compra de alimentos e medicamentos. Acontece que os medicamentos têm valores elevados e a alimentação dos animais é bastante diversificada — alguns são carnívoros, outros se alimentam apenas de frutas frescas — e o gasto com esses produtos é dispendioso.
Até a última quarta-feira (22), o Nepas recebia diariamente diversos animais da fauna silvestre — como serpentes, gaviões, corujas, tamanduás, cachorro do mato, vários tipos de aves, lobo-guarás, macaco prego, preguiça, etc. — e a maioria deles com graves ferimentos causados por atropelamento e até mesmo por disparos de armas de fogo. No espaço, que é o único da região com estrutura para efetuar esses serviços, os médicos veterinários realizam todo o tipo de procedimento e tratamento para que esses animais retornem aos seus habitats. Contudo, muitos sofrem danos irreversíveis e ficam mais tempo do que o planejado no espaço, outros precisam de internação. Com isso, os gastos, que já são altos diante do grande fluxo de animais que passam por ali, ficam ainda maiores para prover todos esses bichos.


Animais abandonados recebem cuidados. (Foto: Silvana Rust)
O professor Leonardo disse que já fez uma série de projetos solicitando verba ao Inea, mas nada aconteceu. O motivo, segundo ele, seria a origem dos animais atendidos no local. “99% desses animais são de vida livre e os órgãos parecem não ter interesse em cuidar deles por não serem domésticos”, disse.
Agora, com a mudança, o Nepas receberá apenas “pets exóticos”, ou seja, animais silvestres de propriedade particular. “Assim, o dono desse animal é o responsável pelos custos relativos aos alimentos e aos medicamentos, cabendo a nós, médicos veterinários, apenas os serviços”, explicou o professor Resposta Inea A equipe de reportagem entrou em contato por telefone com o superintendente Regional Baixo Paraíba do Sul do Inea, René Justen, e este informou que, de fato, “a dificuldade é extrema”. Segundo ele, sem o Nepas, não haveria outro local para encaminhar os animais selvagens apreendidos.
René lembrou ainda que, atualmente, as medidas compensatórias recebidas pelo órgão são referentes apenas à reposição florestal e não a atendimento a animais de vida livre.
Com o intuito de controlar a situação, o superintendente declarou que o Inea tentará estabelecer um convênio com alguma empresa particular a fim de conseguir verbas para auxiliar o Nepas, mas, a princípio, não há garantias.
Grupamento Ambiental
Há aproximadamente dois anos, o Grupamento Ambiental da Guarda Civil Municipal (GCM) está sediado na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf). Os 16 agentes que atuam no setor são responsáveis pelo combate aos crimes ambientais e proteção ao patrimônio ecológico/ambiental no município; pelo resgate e apreensão de animais silvestres e orientação à população no trato e resgate dos mesmos; e também pela preservação das Áreas de Proteção Ambiental. Acontece que, mesmo com tantas incumbências, a maioria delas muitas vezes não são realizadas pela falta de estrutura. Ao menos é que denuncia a jornalista Tatiana Rangel após um episódio que ocorreu em maio deste ano.
Uma cobra apareceu no telhado da casa de Tatiana; ela entrou em contato com o Grupamento Ambiental por meio do telefone 153 e foi informada que o carro do órgão estava quebrado. Depois, após uma segunda ligação, que o carro estava sem combustível. E, por esses motivos, os agentes não apareceram para remover o animal.
Dias depois, a mesma cobra entrou pela porta da casa da jornalista e a sorte é que dois funcionários que estavam fazendo uma obra no imóvel conseguiram retirá-la dali. “A minha mãe ficou nervosa, nós corremos riscos e os animais que temos correram risco pela falta de respeito da prefeitura de Campos que não abasteceu o veículo da guarda ambiental”, denunciou Tatiana em uma publicação nas redes sociais. No mesmo dia, um representante da Prefeitura de Campos entrou em contato pedindo desculpas pelo ocorrido e informando que a viatura estava disponível, “mas, quando de fato precisei, não tive resposta”, lembrou.
Mesmo diante dessas denúncias, a Prefeitura de Campos afirmou que a população de Campos pode acionar os agentes por meio dos telefones 98175-0785 e 153 da Guarda Civil Municipal.