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Sebos: garimpos do saber

Livros de literatura, didáticos, discos, objetos antigos, etc., estão disponíveis nos dois sebos de Campos

Cultura
Por Redação
23 de março de 2018 - 8h49

Um espaço repleto de saberes em potencial. Repleto de histórias; vividas, contadas, imaginadas. Abarrotado de lembranças. Cheio de poesia. Pode ser pequeno; amplo; empoeirado; pouco, muito ou nada organizado. Mas não julgue o livro pela capa. Nem o local onde ele se encontra. O que vale é o conteúdo. E disso, os sebos e as obras ali depositadas estão lotados.

A tradição dos sebos chegou a Campos há aproximadamente 40 anos; produto do acaso. Hoje, a cidade possui dois estabelecimentos, ambos na área central, voltados para compra, venda e troca de livros usados. Mas não só livros: revistas; gibis; discos; CDs; instrumentos musicais; câmeras fotográficas; toca-discos; aparelhos de rádio; projetores de filmes; e demais objetos antigos e memoráveis interessam àqueles que frequentam esses ambientes. Tanto que, ao adentrar esses sebos, a sensação é de saudade.

Beatriz Barreto tem 74 anos; mais de 60 dedicados aos livros; e 40 de assiduidade aos sebos. Ela formou-se em biblioteconomia ainda década de 1970, mas lembra que, dos 80 colegas de turma, era a única apaixonada pela literatura. “Nunca entendi a razão que os levaram a escolher esse curso. Mas a minha eu sempre soube. O que me movia era a paixão pela palavra”, declara.

Foi na capital do estado do Rio de Janeiro que Beatriz conheceu uma loja voltada para a venda de livros usados. Ao visitar a família em Campos, soube que aqui também havia um, aberto há pouco, e, desde então, tornou-se uma das mais fiéis clientes. “Venho pelo menos uma vez por semana, há quatro décadas. Gosto dos romances, sucessores da coleção ‘Biblioteca das Moças’ e das fotonovelas; também aprecio biografias; mas evito ficções absurdas ou histórias fantasmagóricas (risos)”, contou à equipe de reportagem do Jornal Terceira Via.

Outro apreciador da nostalgia dos sebos é o advogado e professor Ronald da Silva Rosa. Também devotado aos livros, ele destaca que é nesses espaços em que se encontram as obras perdidas no tempo, mas sempre atuais. “Aqui há livros esgotados, que não são reeditados, vendidos a preços acessíveis. Provavelmente, quem os trouxe não compreendia seus valores culturais e históricos, mas, por intermédio deste lugar às vezes esquecido, essas preciosidades vão parar nas mãos de quem sabe apreciá-las”, disse, otimista.

Arlene Almeida tinha 15 anos quando leu seu primeiro livro; “Pecado sem perdão”, ela lembra o título. Hoje tem 49, completando mais de três décadas aplicadas ao hábito de ler. O que alimenta esse costume são as sucessivas idas ao sebo. “Compro muitos livros. De alguns, me desfaço logo após a leitura, troco por novos. Outros, guardo com carinho em minha estante. Mas a lembrança de todos é conservada, como o primeiro, ainda tão fresquinho na memória”, garante.

Arlene lembra o seu primeiro livro (Foto: Silvana Rust)

Sebos de Campos

A Livraria dos Estudantes foi o primeiro sebo aberto em Campos, ao lado do Colégio Estadual Nilo Peçanha. A princípio, o espaço era destinado à papelaria. Até que o proprietário, Salvador Teixeira Pinto, levou alguns livros da irmã e colocou à venda no balcão. Aí foi só questão de tempo para que o comércio se transformasse no que é hoje.

A ex-esposa de Salvador, Hilda Carvalho, se dedicava ao estabelecimento em tempo integral até que, poucos anos depois, decidiu abriu o seu próprio sebo, o Diálogo & Cultura; hoje situado na Rua João Pessoa.

Ambas as lojas possuem um acervo de mais de 200 mil livros; 150 mil discos de vinis; e outros milhares de itens. Os valores variam de R$ 1 a R$ 150, a depender do preço cobrado nas lojas e do estado físico de conservação em que se encontra a obra. Em média, o valor cobrado nos sebos é 50% inferior do que no mercado regular. Ainda há a possibilidade de trocar o livro desejado por outro, que o cliente já tem em casa.

Hilda dedica a vida aos livros e objetos antigos (Foto: Silvana Rust)

Parte desses materiais disponíveis está catalogada em arquivos informatizados; outra parte precisa ser garimpada. Os dois sebos também possuem uma página no site Estante Virtual. O Diálogo & Cultura, inclusive, atende aos clientes pelas redes sociais. “Basta enviar uma mensagem com o nome do livro e do autor”, explicou Hilda. E, se preferir, o comprador ainda pode receber o produto em casa sem precisar arcar com frete. “Temos uma parceria com os Correios que vêm até aqui, buscam os livros e entregam na casa dos clientes”, reiterou.

E vocês, leitores, já conhecem os sebos de Campos?