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Diogo Neves: um diagnóstico do novo perfil do médico

Em entrevista pelo Dia do Médico, Diogo Neves, oncologista, fala de vocação e expansão do Hospital Dr. Beda

Entrevista
Por Aloysio Balbi
18 de outubro de 2026 - 0h01
Foto: Silvana Rust

Formado pela turma de 2002 da Faculdade de Medicina de Petrópolis, Diogo Neves é diretor clínico do IMNE, o maior grupo privado de Saúde da Região. Tendo a oncologia como especialidade ele dialoga, por força do cargo, com as demais especialidades da medicina e, exatamente neste domingo (18), Dia do Médico, faz nesta entrevista um diagnóstico da profissão, e conclui que atualmente, diante dos desafios do mercado, o médico tem que ter, acima de tudo, vocação.

Acrescenta que esse talento tem que ser aliado de um permanente aprendizado para ter um diferencial profissional. Então, hoje, o perfil do médico atual é bem diferente do perfil de antes, quando muitos buscavam uma profissão próspera e estável. Sobre o hoje, Diogo também fala da interação dos médicos com a tecnologia em tempos de avanços da Inteligência Artificial (IA) e da robótica.

Diogo Neves adiantou ainda alguns detalhes da expansão do Hospital Doutor Beda, que terá uma segunda unidade, interligando todos os serviços médicos, com cerca de 60 novos apartamentos e um novo modelo de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), entre outras mudanças.

Neste domingo, é o Dia do Médico. Qual é o ambiente para este profissional hoje no Brasil e em Campos?

Hoje, o médico, a pessoa que sonha em cursar medicina, deve se guiar exclusivamente pelo seu dom e vocação, porque a medicina já não é mais a profissão que era há tempos. Hoje existem muitos profissionais no mercado, aumentou o número de faculdades. Quem entra para a medicina, como já houve durante vários momentos, pensando em ter uma profissão bem remunerada, estável e próspera, vai ter muita dificuldade. Vai encontrar um mercado muito competitivo e portanto terá que se atualizar sempre e sempre.

Vocação e permanente atualização. É isso.

Sim e, por fatores diversos, as novas gerações de médicos não conseguem se especializar da maneira adequada. É uma situação de mercado. Deixar claro que a maioria se esforça para não acabar limitada a uma prestação, uma espécie de ‘rodízios de plantões’. Durante um tempo, a pessoa até consegue, mas não se pode dar plantão a vida inteira. O ideal é que o médico vá ganhando experiência, se especializando, até que ele chegue numa especialidade onde domine aquela parte, de uma forma mais consistente. E isso é uma realidade. A questão da especialização é fato e existe hoje a ‘especialização dentro da especialização’. Vou dar um exemplo: na oncologia. Hoje não existe um oncologista que atenda todos os tipos de câncer. Tem que se ater a alguns tipos ou a um e se subespecializar, porque é muita informação. A gente não dá conta de absorver toda a informação e por isso é necessário uma atualização permanente.

Neste contexto, quando o senhor fala em vocação isso passa a ser quase sinônimo de sacerdócio?

Acredito que sim, porque a jornada é muito longa, árdua. E quem não tiver vocação, amor pelo que faz, pode cair no que chamam de ‘desalento’, porque os obstáculos agora são maiores, assim como o nível de concorrência. Para o médico se destacar hoje é preciso se preparar muito e estar extremamente vocacionado. 

Muitas profissões, ou quase todas, hoje estão na expectativa dos efeitos da IA. Como os médicos estão observando isso?

Isso assusta neste primeiro momento, mas quando você começa a se ambientar, ter mais contato com a IA e se preparar para essa nova era, você vê a IA não como uma adversária, mas sim como uma excelente ferramenta na mão do médico. Mas é preciso saber usá-la. Tem que saber fazer as perguntas certas. Se você perguntar uma estupidez para a IA ela vai te responder com outra estupidez. Então, até para utilizar a IA tem que ter conhecimento técnico dentro da medicina. Não vai substituir o médico, vai auxiliar, refinar o conhecimento, embasar, dar mais referências bibliográficas, talvez traga informações adicionais, acelerar o raciocínio clínico. E no meu entendimento, de forma nenhuma vai substituir o médico. Ele tem que estar ali, não digo nem presente, mas tem que ter aquele olho no olho com o paciente. A IA não consegue olhar para um paciente e dizer se ele tolera um tratamento mais intenso ou não, ou se ele é um paciente que tem um perfil mais complicado. Essa percepção, essa experiência que você adquire com o tempo de profissão e com a prática diária, é uma qualidade humana.

E a robótica? Tem que ter mesmo o médico por trás?

Sim. E é importante que tenha. O robô está ali para refinar o movimento, tirar tremor, corrigir movimentos falhos, ele permite ângulos para a cirurgia em que a mão humana não atinge. Então, ele faz tudo. Permite que o cirurgião alcance o máximo de potencial que ele tem ali na cirurgia. Mas o robô não opera sozinho. Eu não posso cravar que em 50 anos isso não vai ser possível. Talvez seja. A curto prazo, eu enxergo um ambiente um pouco diferente. Acho que talvez, com o advento da internet, em alta velocidade, toda essa evolução da conectividade, num futuro próximo, será possível procedimentos remotos, uma espécie de ‘cirurgia conectada’, onde o cirurgião visualiza o campo e vai fazendo a movimentação nas pinças robóticas. Então, eu acho que, com a melhora da conectividade, possivelmente, no futuro, vai ser possível fazer cirurgias remotas, mas sempre com o médico por trás.

O senhor falou em conectividade. E a telemedicina, também é uma boa ferramenta para esse novo momento?

Eu acho que num país como o nosso, de dimensões continentais, a telemedicina é uma ferramenta que não pode ser desprezada. A gente tem uma concentração muito grande de profissionais no eixo sul-sudeste. A telemedicina em muitos casos está resolvendo isso. Eu a vejo como uma excelente ferramenta.

O senhor é diretor clínico do maior grupo de medicina privada da região, que em breve abrirá uma nova unidade hospitalar. Pode falar sobre isso?

É uma nova torre, com cinco andares, onde vamos ampliar nossos atendimentos de pediatria, obstetrícia, internações cirúrgicas em um espaço de interligação e bem otimizado. Na verdade, será uma conexão do Hospital Doutor Beda com esse novo prédio. Teremos mais 56 apartamentos. Essa nova estrutura, que está em fase de construção, permitirá a ampliação do centro cirúrgico passando de seis para dez salas, com um fluxo ainda mais organizado. Também estamos fazendo uma ampliação da UTI no primeiro andar, aumentando a quantidade de leitos. Vamos adotar um estilo de leito no formato de boxes individualizados, onde o paciente vai poder ter um acompanhante. Isso tudo vai permitir um movimento mais sinérgico porque ao invés de ter dois centros cirúrgicos e duas equipes de UTI, terá tudo dentro de um mesmo lugar. Então, a gente entende que isso vai ser muito positivo para o hospital e para os médicos, porque a gente vai ter uma sinergia muito grande dos serviços.

Há 50 anos, o IMNE criou um Centro de Estudos para os médicos. O que era uma sala, acabou virando um grande auditório. Desde sempre esse perfil da atualização. Essa filosofia é um diferencial do grupo?

Sim. Toda semana, fazemos reuniões clínicas no Oncobeda para discutir casos clínicos, artigos. Na última semana, fizemos uma grande reunião focada em câncer de mama, o Outubro Rosa. E isso é uma premissa em outras áreas em diversas especialidades. E a gente convida os médicos, tanto do nosso corpo clínico, quanto de fora do hospital, para participar. Isso é muito importante, porque se integra, ajuda a gente a entender como que o cirurgião pensa, como o médico que faz a radioterapia pensa, como o fisioterapeuta espera receber esse paciente. Isso é um trabalho, é equipe multidisciplinar. Hoje, não se faz medicina sem equipe multidisciplinar. Não dá para cobrar o escanteio e cabecear. Ninguém faz isso mais.

Uma mensagem para os jovens médicos no dia de hoje, Dia do Médico.

Para os mais jovens, eu digo o que eu afirmei no início. Se você tem vocação, se tem um sonho, siga em frente, porque a profissão certamente vai te recompensar. E aos mais velhos que não desistam e continuem se reciclando. Enquanto estiver no campo de batalha, a gente tem que estar sempre se atualizando, se reciclando para oferecer para o paciente o melhor possível.