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Acidentes com bicicletas elétricas desafiam mobilidade urbana

Dados do Hospital Ferreira Machado apontam cerca de 1,5 mil acidentes ciclísticos nos oito primeiros meses deste ano

Campos
Por Monique Vasconcelos
27 de setembro de 2026 - 0h03
Alerta|Jovens e idosos estão nocentro da crise com os autopropelidos (Foto: Reprodução)

Cada vez mais cresce o número de acidentes de trânsito envolvendo veículos autopropelidos, que são os equipamentos elétricos de mobilidade individual, como pequenas motos, bicicletas, patinetes, monociclos e skates elétricos. Segundo o Hospital Ferreira Machado (HFM), somente entre janeiro e agosto de 2026 foram registrados 1.482 acidentes ciclísticos em Campos. A média foi de aproximadamente 185 acidentes por mês, com março concentrando o maior número de registros: 239. 

Um levantamento da Prefeitura de Campos aponta maior concentração de ocorrências em importantes eixos viários, como as avenidas 28 de Março, José Alves de Azevedo, Alberto Torres e Dr. Arthur Bernardes, além de vias localizadas em regiões como Jardim Carioca, Pecuária, IPS e Goitacazes. “Esses dados são utilizados para identificar pontos que demandam maior atenção e subsidiar medidas de prevenção e fiscalização. A fiscalização de trânsito é realizada pela Guarda Civil Municipal”, disse, em nota.

O HFM aponta dois grupos que atualmente despertam atenção especial: pessoas idosas que migraram da bicicleta convencional para esses equipamentos e menores de idade que conduzem ou são conduzidos nesses veículos.

No último fim de semana, aconteceu um acidente envolvendo um adolescente de 15 anos. Uma colisão entre um carro e uma motocicleta elétrica foi registrada na Avenida 28 de Março, no cruzamento com a Avenida José Alves de Azevedo, no Parque Rosário. “Houve um aumento considerável nos atendimentos de vítimas de acidentes envolvendo esse tipo de veículo. Pode-se estimar que três em cada dez atendimentos no Politrauma ou na Ortopedia esteja relacionado a acidentes com veículos elétricos”, afirmou a unidade.

De acordo com o diretor do Pronto-Socorro do HFM, o médico Fábio Macedo, as lesões mais frequentes nesses acidentes são escoriações e outros ferimentos de pele, além de contusões e fraturas: “As lesões que mais preocupam são as fraturas mais graves, incluindo as fraturas expostas e o traumatismo crânioencefálico”, afirma.

O impacto dos traumas sobre o atendimento também é significativo. O médico relata que entre 55% e 60% dos pacientes atendidos no pronto-socorro (PS) do Ferreira Machado passam pelo setor de Politrauma e/ou pela Ortopedia, frequentemente necessitando de atendimento nos dois locais. Do total de pacientes do PS, entre 15% e 20% precisam de abordagens cirúrgicas, de urgência ou eletivas, incluindo pacientes transferidos para instituições conveniadas ao SUS.

O profissional de saúde destaca então a importância dos equipamentos de proteção. “Principalmente o capacete no modelo fechado pode reduzir a gravidade dos traumas de crânio e face”, disse.

Infraestrutura não acompanha nova realidade
A presença dos autopropelidos no trânsito é um fenômeno recente e a Resolução CONTRAN nº 996/2023 que trata do tema tem apenas três anos. O município trabalha na regulamentação complementar, ainda de acordo com a Prefeitura. “Entre as medidas em elaboração está a definição das velocidades máximas permitidas nas ciclovias e ciclofaixas municipais. O trabalho é realizado em articulação com a GCM, responsável pela fiscalização e autuação no trânsito”.

O arquiteto e urbanista Renato Siqueira aponta como problemas que podem contribuir para um maior número de acidentes a má qualidade de algumas vias, com buracos, a falta de sinalização adequada e ausência de fiscalização. Siqueira destaca ainda outra questão: “Embora o limite de velocidade para autopropelidos seja de 20 km/h, não é raro observar equipamentos circulando acima dessa velocidade”, comenta.

“Essa situação ainda é agravada pela ausência de formação, no caso do ciclista e autopropelido. Da mesma forma quanto aos motoristas que dirigem sem carteira de habilitação, embriagados e, em velocidade incompatível com a via, o que aponta para outra ausência importante, a de instalação de equipamentos que possam registrar as infrações de velocidade incompatível e de avanço da sinalização viária”, completa.

Entre as medidas sugeridas pelo urbanista estão a criação de um curso de capacitação de, no mínimo, 30 horas para condutores de autopropelidos e ciclistas, campanhas educativas para todos os usuários do sistema de trânsito, registro desses usuários, fiscalização presencial e equipamentos capazes de verificar a velocidade dos veículos.

O profissional também defende a definição das vias e velocidades adequadas para a circulação dos autopropelidos, além de ações de fiscalização nos estabelecimentos que comercializam esses equipamentos, com auxílio do Procon. Outra medida citada é a possibilidade, mediante compatibilização com a legislação vigente, de impedir que menores de 18 anos utilizem determinados veículos autopropelidos. Siqueira defende ainda a efetivação do Conselho Municipal de Mobilidade Urbana (COMURB).