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Cientista político analisa a possibilidade de Wladimir deixar o governo de Campos

O professor George Coutinho, da Universidade Federal Fluminense, comenta as possibilidades de Campos ter novo prefeito a partir de abril

Política
Por Ocinei Trindade
27 de fevereiro de 2026 - 10h34

O cientista político George Coutinho, professor da Universidade Federal Fluminense, analisa as movimentações políticas em Campos, com a possibilidade de Wladimir deixar a Prefeitura e ser sucedido por Frederico Paes (MDB). A reportagem especial do J3News desta semana, “Entre Campos e Brasília: futuro de Wladimir deve ser definido até abril” (leia aqui) ouviu analistas políticos sobre o que pode acontecer, diante das especulações de o prefeito da cidade deixar o cargo para disputar as eleições de outubro. Seu nome foi cotado para ser vice na chapa do pré-candidato a governador do Rio, Eduardo Paes (PSD). Entretanto, este escolheu Jane Reis (MDB), irmã do ex-prefeito de Duque de Caxias, Washington Reis.

Durante os últimos dias, novos fatos surgiram em torno da escolha da chapa do PL para a sucessão de Cláudio Castro no Governo do Rio de Janeiro (leia aqui). O pré-candidato Douglas Ruas será acompanhado pelo ex-prefeito de Nova Iguaçu, Rogério Lisboa (PP), como candidato a vice. O nome de Wladimir Garotinho (PP) também foi sondado para composição como vice.

Na terça-feira (24), o pré-candidato do partido à Presidência da República, senador Flávio Bolsonaro teria convidado Wladimir para se filiar ao PL e coordenar sua campanha no Norte e Noroeste Fluminense. (leia aqui) A informação é da colunista Berenice Seara. Até o momento, Wladimir não tinha se pronunciado.

Como observa a possibilidade de Wladimir deixar a prefeitura e transmitir o cargo para seu vice Frederico Paes? O que esse gesto pode provocar política e economicamente em Campos?

Primeiramente, creio que é importante situarmos Wladimir. Trata-se de um político jovem, bem-sucedido, que tem feito uma boa gestão de sua carreira. Já teve experiência na Câmara dos Deputados e foi eleito duas vezes para a prefeitura de sua cidade. Também demonstrou, em diversas ocasiões, racionalidade e pragmatismo.

Por isso, creio que a decisão de sair ou não do cargo de prefeito para disputar outro posto em 2026 será tomada levando em conta os aspectos favoráveis e desfavoráveis. Arrisco dizer, pelo perfil de Wladimir, que ele pode considerar arriscado deixar a prefeitura “debaixo de chuva”, em um cenário no qual possa se deparar com um decréscimo de seu capital político.

Assim, considerando entrevista recente de Garotinho, seu pai, parece-me que há um cenário não tão atraente para que Wladimir “aposte tudo”. Certamente, ser vice-governador o projetaria e poderia fazer bem à sua carreira. Mas quais garantias estão postas? Eduardo Paes afiançou esse espaço? E quanto à possibilidade de disputar o cargo de deputado federal? Garotinho já mencionou o Legislativo Federal como uma de suas alternativas para 2026. Há espaço e votos suficientes para dois candidatos a deputado federal pelo clã Garotinho? Parece-me um cenário um tanto nublado, com horizonte ainda turvo.

Prefeito Wladimir Foto: Divulgação

O que destacaria nesse momento?

De todo modo, caso Wladimir considere, em seu cálculo político, que deve deixar a prefeitura em abril e enfrentar a concorrência eleitoral de 2026, veremos Frederico Paes atuando mais explicitamente como gestor público. Ele é discreto no exercício da vice-prefeitura, demonstrou razoabilidade em suas intervenções na opinião pública e tem em seu currículo experiência administrativa no setor sucroalcooleiro e hospitalar. Contudo, não tenho clareza sobre qual seria o tom de sua gestão: seria uma continuidade ou implicaria uma ruptura, um “modo Paes” de governar?

Vale dizer que o Wladimir do segundo mandato parece lidar com a impaciência, o que é um  sentimento justificável, de parte da população. Assim, apresenta-se um cenário desafiador para Paes, caso assuma, de fato, a administração da Prefeitura de Campos.

Quanto a eventuais abalos e congêneres, é preciso compreender o que significaria essa transição. Haverá mudanças importantes nas secretarias? Tudo permanecerá como está? Retomo a questão da ruptura ou da continuidade de direcionamento: eis o ponto central. Contudo, essas informações ainda não foram publicizadas.

Acredita que a saída de Wladimir pode ser interpretada por seus eleitores e pela população de que maneira?

Os adversários dirão, previsivelmente, que Wladimir utilizou a prefeitura como mero trampolim para outros espaços políticos. Já aqueles que veem nele uma liderança considerarão o movimento como algo natural, talvez um upgrade em sua trajetória. Haters and lovers, dentro da previsibilidade. Alguns falarão em abandono; outros sustentarão que é importante ampliar a atuação de Wladimir em outros espaços institucionais.

Vice-prefeito Frederico Paes

Como imagina que a suposta gestão de Frederico Paes, um empresário que nunca governou antes e que não tem vivência político-partidária expressiva, pode resultar ao município?

Eis um ponto central. Não vejo a gestão privada/empresarial e a gestão da coisa pública como sinônimos; há especificidades em ambos os campos. O setor privado visa ao lucro e, indiretamente, pode produzir benefícios públicos. O setor público deve mirar a produção de bem-estar coletivo. Portanto, os critérios que determinam a eficiência não são os mesmos, e a mera transposição de fórmulas do setor privado para a gestão pública tem produzido, em vários contextos, resultados problemáticos.

Paes, caso assuma a prefeitura, tem se posicionado no centro, pelo lado direito do espectro político, e se mostrado moderado. Fora esse dado, será necessário observar como atuará, quais prioridades estabelecerá e que tipo de gestão operacionalizará. Torço para que realize uma administração republicana e corajosa diante dos desafios campistas. A despeito de diferenças e discordâncias, é pouco inteligente desejar que qualquer prefeito faça uma gestão temerária. Todos sofreríamos as consequências.

Considera que com a suposta saída de Wladimir, ele manteria influência sobre a prefeitura após sua especulada saída do cargo?

O grande e saudoso cientista político Wanderley Guilherme dos Santos afirmou, em outra ocasião: “o futuro não é materialmente verificável”. Precisaremos observar, no tempo, como a relação entre Frederico Paes e Wladimir Garotinho se estruturará.

Sede da Prefeitura de Campos (Foto: Divulgação/Cesar Ferreira)

Acredita que Wladimir e Frederico podem repetir o passado de Anthony Garotinho e Arnaldo Vianna que romperam após Garotinho deixar a prefeitura de Campos para concorrer ao Governo do Rio de Janeiro?

A resposta anterior também se aplica aqui. Não é possível afirmar, no momento, algo que não apresenta indícios minimamente consistentes no presente.

A cidade tem muitos problemas que não foram resolvidos em cinco anos de gestão Wladimir. O que poderia ocorrer com o vice Frederico se tornar prefeito? Acredita que poderá haver melhorias?

Certamente podem ocorrer melhorias. Contudo, salvo raras exceções, a administração municipal não opera milagres. A sociedade local precisa ser corresponsabilizada pelo estado atual das coisas. Os diversos e complexos problemas campistas não desaparecerão com aquilo que parte da sociedade parece desejar: um síndico onipotente. Sem falar que onipotência é mais matéria da teologia do que da política. Ainda assim, avanços e melhorias importantes são, evidentemente, possíveis e desejáveis.

Considera haver insegurança no governo de Campos a partir deste ano com as eleições em curso?

Eu diferenciaria incerteza de insegurança. É indiscutível que há incertezas no cenário discutido. Contudo, não vejo insegurança institucional. Neste momento, parece-me mais plausível apostar em uma continuidade político-administrativa, na hipótese de Wladimir deixar o cargo e Frederico Paes assumir a prefeitura de Campos dos Goytacazes até 2028.

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