

Nascido do encontro entre a arte, verdade e denúncia, “Vermelho” é um documentário autobiográfico criado e dirigido pela atriz e produtora campista Graziela dos Anjos, misturando dramaturgia e realidade para trazer à tona histórias de mulheres que enfrentaram diferentes formas da violência de gênero. O filme será lançado oficialmente na próxima quarta-feira (26), no Teatro Municipal Trianon, em Campos. O evento integra a Semana Internacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres, com abertura da exposição fotográfica da produção no foyer, às 19h, e exibição do filme às 20h, seguida de debate com o elenco, equipe e apresentação musical ao vivo.
A entrada é solidária: basta levar 1kg de alimento não perecível para retirar o ingresso na plataforma Mega Bilheteria, responsável pela bilheteria do teatro. Todos os alimentos arrecadados serão doados a instituições que apoiam mulheres em situação de violência.
O filme campista foi contemplado pela Lei Paulo Gustavo em 2023 e realizado em parceria com a Subsecretaria de Políticas Públicas para as Mulheres de Campos, reunindo depoimentos reais de vítimas assistidas pelo Centro Especializado de Atendimento à Mulher (Ceam), que transformaram suas vivências e dores em consciência social. O filme também traz especialistas que atuam no enfrentamento à violência contra a mulher, como psicóloga, assistente social, advogada e ginecologista obstétrica, para ampliar o debate.


“O filme ‘Vermelho’ é uma denúncia pública, um ato de coragem e de memória. Ele carrega partes da minha história, das minhas cicatrizes e da história da minha avó, Maria do Carmo de Souza, a primeira mulher com um comércio registrado no 17º distrito (Tócos). Ela resistiu e subsistiu diante de violências que marcaram sua trajetória, e essa força ancestral me acompanha e me guia”, revela Graziela dos Anjos, que além de idealizar o roteiro, foi uma das depoentes e é a produtora executiva. “Ao construir esse filme, revisitei dores profundas. Mas aqui, através da arte, encontrei uma forma de ressignificar tudo isso”, afirma.


Graziele conta que o projeto de “Vermelho” começou quando estava na Faculdade de Artes, na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), onde conheceu uma parte da equipe técnica da produção do filme: Izabelly Moraes (diretora), Yasmin Lifer (diretora musical), Samyla Jabor (roteirista), Juliana Abreu (direção de arte e participação textual) e Carolina Marques (coordenadora de produção).
“Inscrevemos nossa ideia do ‘Vermelho’ no Festival de Cenas Curtas de 2023 da CAL. Eu, Izabelly, Juliana e Yasmin, e a Samyla, lançamos na CAL a cena no Festival e ganhamos o segundo lugar, porque a gente passou 30 segundos do limite. Daí, a gente veio para o ‘Vermelho’ audiovisual”, conta.
A codiretora Izabelly Moraes reflete sobre o processo dinâmico de filmar “Vermelho”. “A gente acaba planejando várias coisas na pré-produção e acaba que no dia, muitas coisas também mudam. Vendo hoje, o filme pronto, eu acho que muda muito pra melhor”, comenta. Ela enfatiza a natureza orgânica do cinema, onde ideias surgem no set e cenas são acrescentadas para compor a narrativa final. Esse processo vivo de criação serviu a um propósito maior: dar clareza a um tema urgente. “A importância do que está sendo discutido no filme é que existe, principalmente no Brasil, muitos casos de violência contra mulheres, e eu acho que ainda não é falado suficiente sobre isso.”
Do silêncio à luta
A força narrativa de “Vermelho” vem dos depoimentos. Mayara Wigand compartilha sua história no filme, marcada por um relacionamento abusivo. Para ela, participar do projeto foi um ato político e emocional. “Dei meu depoimento relembrando a primeira violência que sofri, ainda no meu parto, quando fui amarrada. E também falei das violências que vieram depois: um relacionamento tóxico e abusivo, a falta de apoio da sociedade e do poder público. Muitas vezes, o homem que ocupa um cargo público é tratado como santo, enquanto a mulher é vista como problemática, difícil, a culpada de tudo”, compartilha.


Segundo Mayara, Campos ainda carrega marcas profundas de uma cidade de coronéis, que é conservadora, machista e desigual. “O filme dá um pouco de voz para nós, mulheres, que ainda enfrentamos tantos silenciamentos. A minha fala no filme não é só minha: ela é da minha mãe, da minha avó, da minha bisavó e de tantas outras mulheres que nunca puderam gritar, falar ou dizer não”, diz.
A produção
Cada elemento de “Vermelho” foi meticulosamente planejado para causar impacto e convidar à reflexão. Ralph Guimarães, figurinista, continuista e caracterizador, detalha que a estética visual foi pensada para impactar a audiência. “A paleta de cores foi muito bem analisada e escolhida, cada acessório, seja um lenço no cabelo, um pregador de roupas… cada detalhe foi pensado com muito carinho. A parte da caracterização foi muito rica, e muito chocante para causar esse impacto!”
O roteiro teve participação textual de Samyla Jabor e Juliana Abreu, e a direção do filme foi comandada por Graziela dos Anjos, em parceria com Izabelly Moraes.
A trilha sonora, sob direção de Yasmin Lifer, é outro personagem. Composta por uma trilha em violino que conduz o drama, pela canção “Vermelho Cantada” e pelo samba empoderador “Eu Digo o Que Eu Quiser”, a música no filme simboliza o caminho da dor à libertação.


O grito de Vermelho
O projeto se encontra discutindo um tema tomado por números alarmantes da violência contra a mulher. Josiane Morumbi, Subsecretária de Políticas Públicas para as Mulheres de Campos, é uma das apoiadoras da obra e vê no cinema uma ferramenta crucial de conscientização.
“Quando filmes ou produções falam sobre essas violências, eles fazem mais do que refletir a realidade: eles gritam por justiça”, afirma. “O Brasil está entre os países com os mais altos índices de violência contra mulheres. E, dentro desse doloroso quadro, meninas vulneráveis — que deveriam estar sendo protegidas — são vítimas de crimes terríveis, como o estupro de vulnerável”, pontua.
Os dados comprovam a dimensão da crise. De acordo com o Dossiê Mulher, do Instituto de Segurança Pública (ISP), no Estado do Rio de Janeiro, em 2023, 141 mil mulheres foram vítimas de violência doméstica ou familiar. No mesmo ano, o Estado registrou 99 feminicídios, número que saltou para 107 em 2024. Em nível nacional, a situação é igualmente grave: em 2023, foram 1.463 feminicídios, uma média de quatro mulheres mortas por dia no país. Em 2024, esse número subiu para 1.492.
“Precisamos transformar essa dor em ação”, defende a subsecretária. “A prevenção passa pela conscientização, pela educação, pela rede de proteção e por políticas públicas eficazes. É responsabilidade de todas as esferas — sociedade civil, poder público, instituições — combater a violência e proteger quem mais precisa”, finaliza.
Para mais informações, siga @filmevermelho no Instagram.