







Cerca de 60 quilômetros e aproximadamente uma hora e meia separam a Baixada Campista da Região Serrana de Campos dos Goytacazes. Há um ponto em comum que une as duas importantes regiões do maior município do interior do Rio de Janeiro: as condições precárias das estradas vicinais.
Durante a semana, a reportagem especial do J3News visitou locais, ouviu moradores, motoristas e produtores rurais que vêm sofrendo com a situação em que se encontram os acessos a localidades como Coqueiros de Tócos, Ponta Grossa, Aleluia e Conceição do Imbé, entre outros. Os relatos expõem que os problemas nas estradas afetam serviços como o transporte público e prejudicam questões básicas do dia a dia, como o trajeto de estudantes às escolas e de trabalhadores ao centro da cidade, bem como impõem transtornos e prejuízos à produção rural do município.


Baixada Campista
A reportagem do J3 visitou, na última quarta-feira (24), a localidade de Ponta Grossa dos Fidalgos, na Baixada Campista. Situada a 33 km do Centro, a comunidade realizou protestos por conta da falta de transporte no local. Ao denunciar a precariedade no atendimento do transporte público, moradores relatam que um dos motivos alegados pelos permissionários das vans para a situação é o prejuízo causado pelas condições das estradas.


“Estamos há duas semanas sem a van das 19h para voltar para casa. Essa mesma van também está deixando a gente sem transporte às 6h. Está sendo o maior sufoco para conseguir ir trabalhar e voltar para a casa. A estrada está toda esburacada, quebrando as peças das vans. Os motoristas alegam para a gente que quebra peça todo dia e eles não têm condição de repor. A gente fica desguarnecido”, disse a moradora Marcela Soares.




Percorrendo a estrada que dá acesso a Ponta Grossa, a reportagem identificou que, além de muitos buracos, a estrada, que tem curvas perigosas, não tem nenhuma sinalização nem iluminação, e em alguns pontos o excesso de mato dos dois lados prejudica ainda mais a visão de quem trafega pela pista. A confeiteira Daiane Fidélis conversou com o J3 na estrada de Tócos, a caminho de Ponta Grossa. Ela faz o trajeto de moto para a área central de Campos diariamente e relatou as dificuldades que enfrenta:
“A estrada não tem sinalização, é cheia de buracos, não tem acostamento e tem mato dentro da pista em vários trechos. Trabalho no Centro, saio cedo de casa para entrar às 7h e volto no fim da tarde, após sair às 16h. Na volta, sofro também com a falta de iluminação. Não tem sinalização, não tem acostamento, não tem iluminação, não tem nada. Na prática, é uma estrada clandestina. A gente usa por necessidade, mas é um local abandonado. Para quem não conhece, é ainda mais perigoso. Porque tem várias curvas fechadas, sem placas para sinalizar e dependendo do horário, no escuro. Não por acaso, a incidência e o risco de acidentes com morte é grande”, comentou.
Em 2023, a Prefeitura de Campos anunciou que, por meio de parceria com o Governo do Estado, o Programa de Reestruturação das Estradas no interior do município avançava na construção do asfalto novo no perímetro urbano na Baixada Campista e seguiria através da RJ-208 até a localidade de Ponta Grossa dos Fidalgos. Hoje, três anos depois, a população segue em compasso de espera.


Respostas
A Secretaria Municipal de Obras, Urbanismo e Mobilidade informou que no ano de 2023, assim como 2024 e 2025, o governo municipal não recebeu a contrapartida pactuada com o Governo do Estado, por isso, projetos aprovados com o Governo do Estado para parcerias, entre eles, Bairro Legal do Novo Jóquei, obras na Beira Valão e, também revitalização de estradas não foram concluídos.
Já o Departamento de Estradas e Rodagem do Rio de Janeiro (DER-RJ) informou que não tem conhecimento sobre o programa citado e que o serviço não ficou sob responsabilidade do órgão, apesar de tratar-se de uma rodovia estadual. O DER-RJ não respondeu sobre previsão de obras no local.
Região Serrana
Já em 2024, o governo municipal anunciou a assinatura da ordem de serviço para a construção de 19 pontes de concreto nas regiões da Baixada, Norte, Nordeste e Serrana. O maior investimento anunciado foi na Região Serrana, com R$ 14.593.863,66. A reforma dessas pontes e a reconstrução das estradas é um pleito antigo da população local e seguem sendo aguardadas até os dias atuais.
Na região do Imbé, o J3News noticia constantemente episódios de moradores ficando ilhados por conta da falta de pontes em condições de receber a passagem de carros, bem como por alagamentos em estradas de terra. Mesmo em dias sem chuva, trafegar pelas estradas da área tem sido desafiador e vem causando transtornos aos produtores rurais locais.
Paulo Sérgio Guimarães Filho é proprietário de uma empresa produtora de queijos e laticínios na região. Ele relata que enfrenta problemas diários para utilizar a RJ-190, estrada que liga Rio Preto até a divisa com Santa Maria Madalena, passando por localidades como Conceição do Imbé e Aleluia. “A estrada está em péssimas condições, com muitos buracos. Como a coleta de leite é diária e os veículos precisam passar por essa buracada, a gente fica com um custo elevado de coleta de matéria-prima e escoamento de produção. Isso onera diretamente no custo final do produto. O gasto com manutenção de veículos é altíssimo e ainda tem que ter um carro reserva, porque toda hora tem uma na oficina”, afirma.
Messias Carvalho Filho trabalha com a produção de leite na região e também pontua que tanto os produtores rurais como a população em geral sofrem com os transtornos causados pelo difícil acesso às localidades. “Os acessos a locais como Conceição do Imbé, Batatal e Aleluia, estão péssimos. Quem tem uma produção como a nossa, que precisa escoar pela estrada, sofre sempre com gastos absurdos de manutenção de veículos. Há pouco tempo, nós mesmos, produtores rurais, tivemos que nos reunir para recuperar parte da estrada, na medida do possível. Mas a condição da estrada é péssima. Atrapalha tanto os produtores como também, por exemplo, as crianças a irem para as escolas”, pontua.
Em relação às pontes, a Prefeitura de Campos informou que o projeto em questão é antigo e chegou a ser elaborado e licitado. No entanto, em razão de entraves judiciais, o processo precisou ser suspenso. “Atualmente, a Secretaria Municipal de Agricultura, Pecuária e Infraestrutura reavalia o projeto e busca novas fontes de financiamento, inclusive junto ao Governo Federal, para viabilizar a execução das obras, com prioridade para as pontes localizadas na região do Imbé e da Baixada Campista”.
Quilombo de Conceição do Imbé
Em 2023, o Quilombo de Conceição do Imbé foi declarado Patrimônio Histórico e Cultural do Rio de Janeiro. Mas os relatos de quem compõe a comunidade apontam que o título não impediu que a população local continuasse sofrendo com abandono e esquecimento. Luiza Honorato é moradora do Quilombo de Aleluia, Batatal e Cambucá, e representante da Associação de Moradores. Ela relata que a região do Imbé, e por consequência as comunidades quilombolas locais, vem sofrendo com as dificuldades de acesso.
“A nossa estrada principal, que vem de Conceição do Imbé até Batatal – passando também por localidades próximas como Mocotó do Imbé -, está muito ruim. Temos moradores que são pessoas idosas e precisam ter acesso a serviços de saúde. Entre eles, pacientes diabéticos, com dificuldade de locomoção. Muitas vezes, a situação da estrada impossibilita ou dificulta bastante o acesso de carros e ambulâncias às casas dessas pessoas. Por conta da estrada em péssimo estado, as comunidades locais ficam carentes de serviços essenciais, como saúde e educação, sem falar nos prejuízos aos trabalhadores da agricultura familiar”, enfatiza.
Queixas do Sindicato Rural
Não é de hoje que o Sindicato Rural de Campos reclama das condições das estradas vicinais. O diretor vice-presidente da entidade, Hermano Moacir Ribeiro, destacou que em agosto de 2024 protocolou um ofício pedindo à Secretaria Municipal de Agricultura, Pecuária e Pesca melhorias nas vias de escoamento.
“Diante das inúmeras e fundadas queixas dos produtores rurais, bem como dos contribuintes, usuários, moradores do interior, sobre o completo estado de abandono em que se encontram as estradas vicinais do município de Campos, o Sindicato Rural de Campos encaminhou um pedido de esclarecimentos ao ilustre Secretário Municipal de Agricultura, Pecuária e Pesca, desde 2024, sem respostas. De fato, apesar das matérias publicitárias veiculadas pelo executivo municipal sobre a aquisição e recebimento (através de emendas parlamentares) de farto maquinário agregado à patrulha mecanizada e destinada à reforma e manutenção das estradas, não se tem notícias de onde, nem quando tais equipamentos vêm sendo usados desde 2020. Ou seja, são quase seis anos de insatisfações e atendimento deficitário do poder público”, comenta.
E completa: “O descaso não é apenas com a população da zona rural, mas com toda a sociedade que sofre quando se aventura a trafegar pelas estradas em péssimas condições de manutenção. Contar com estradas em boa qualidade é essencial para os trabalhadores das atividades agrícolas e pecuárias, que tanto contribuem para o PIB do município, além de ser um grande propulsor do turismo rural. O governo anuncia que possui um grande aparato de equipamentos. Mas não esclarece o paradeiro de tantas máquinas. A falta de transparência sobre o destino e a localização exata de máquinas e equipamentos adquiridos com dinheiro público é mais uma falha na prestação de contas governamentais. A ausência de clareza gera desconfianças e incertezas: mau uso ou abandono do patrimônio?”, questiona Hermano Moacir Ribeiro em nota publicada nas redes sociais do sindicato .
Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Campos, Paulo Honorato reforça as dificuldades que vêm sendo enfrentadas pelos trabalhadores por conta do difícil acesso nas estradas da Região Serrana:
“Tanto a RJ-190 quanto a RJ-208, que cortam toda a região, passando por locais como Lagoa de Cima, Conceição, Batatal e Mocotó do Imbé, estão em condições precárias. Temos quatro queijeiras nas redondezas, temos a feira da roça na cidade, e precisamos escoar a produção. E essa locomoção está muito difícil. Nós produtores rurais e comunidades quilombolas, precisamos de apoio para mudar essa realidade que estamos enfrentando”, declarou.