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Daniella Barros Duarte: trinta anos de uma revolução no ensino

Presidente do Conselho do Pró-Uni fala sobre a história da cooperativa de professores que virou referência

Entrevista
Por Aloysio Balbi
16 de março de 2026 - 0h01
Foto: Josh

Socióloga formada pela Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), Danielle Barros Duarte preside o Pró-Uni, uma cooperativa de professores que completou 30 anos, sendo um modelo de ensino e de negócios que inspira outras cidades. Na região é a única cooperativa de professores, que a cada ano eleva o grau de satisfação do trabalho, na forma de um número crescente de matrículas.

Nesta entrevista, a professora Daniella, que também é gestora, fala do dia a dia do Pró-Uni e expõe a engrenagem de um modelo muito bem-sucedido, o que é ilustrado pela preparação de seus alunos para a etapa seguinte da educação, ou seja, o curso superior.

São 30 anos de Pró-Uni em Campos, que é, na verdade, uma cooperativa de professores. Existe alguma coisa similar na região, uma escola que é pensada e administrada pelos próprios professores? 
Aqui na nossa região não tem. Não tem outra escola que seja uma cooperativa de professores. Então, o Pró-Uni é uma história ímpar. Nós somos aqui em Campos, e na região, a única cooperativa. A mais próxima, no interior do Rio, está em Angra dos Reis, que é nesse modelo de cooperativa de professores.

Quando foi fundada, há três décadas, qual foi a receptividade do docente para essa proposta? Como que o professorado reagiu a essa chamada? 
Já li bastante sobre esse momento de formação e os professores que estavam envolvidos no projeto com esse modelo. Tudo começou com muito entusiasmo. Realmente a expectativa era fazer a diferença na educação do município com a cooperativa. Era a expectativa daqueles que estavam como sócios porque, sendo uma cooperativa, todos participam de forma ativa. Todos os professores participaram deste momento. Eles eram sócios daquele colégio e do serviço que iria ser oferecido na cidade por um modelo tão inovador. Porque se até hoje a gente é única aqui nessa região, naquela época realmente não se pensava em outra. Esse entusiasmo continua sendo crescente e as expectativas foram alcançadas.

Vocês começaram a se notabilizaram pela preparação do aluno de outras escolas com o pré-vestibular. Seria esse um cartão de visita que até hoje define a proposta do Pro-Uni? 
Então, realmente começamos com essa preparação para o vestibular. Foi o ponto de partida, mas a intenção era oferecer educação em todos os segmentos. Realmente acompanhar o aluno desde os anos iniciais, passar pelos anos finais e formar no ensino médio. Hoje, quando a gente pensa no cartão de visita do Colégio Pró-Uni, é uma preparação do nível fundamental e médio, já entregando esse aluno pronto para o ensino superior. Para fazer o vestibular, para fazer o Enem, com base em uma formação mais completa.

Você, além de ser presidente do Conselho da Escola, também é coordenadora pedagógica. Como é se dividir nisso tudo? 
Eu organizo da seguinte forma: na parte da manhã eu fico nessa função de coordenação, então acompanho ali com os alunos no dia a dia as demandas de organização para que a educação aconteça, nas coisas mais práticas e objetivos que uma coordenação faz. Na parte da tarde, eu já me organizo para ficar nas obrigações da presidência do Conselho. E esse ano que eu comecei com essa coordenação, está sendo uma experiência muito interessante. No momento em que eu estava somente na presidência, eu não conseguia perceber algumas situações que aconteciam, eu não conseguia entender ao certo o porquê aconteciam. E agora, como eu estou na coordenação, já consigo perceber e identificar. E entendo o que está sendo melhor para a cooperativa, esse olhar mais próximo do dia a dia mesmo, com alunos, com os pais. Uma atenção que fica para eles, que talvez se eu estivesse um pouquinho mais distante não conseguiria perceber.

Mais próxima então de tudo? 
Nem todas as pessoas envolvidas são cooperadas. Cooperados são professores e esses professores podem exercer funções na gestão e podem exercer outras funções antes que estejam agregados à atividade fim, que é a atividade educacional. E nós sempre tivemos uma coordenação que era contratada por esse conselho e é uma mudança que aos poucos nós pretendemos fazer. Nós pretendemos que os cooperados estejam também nessas funções para que eles possam entender melhor, gerir melhor o negócio deles mesmos, o nosso negócio. No momento em que os próprios cooperados estão lidando diretamente com esses que são os clientes, a gente se aproxima do nosso negócio.

O grau de satisfação, ou melhor, o resultado de todo esse processo, como é?  
Nós costumamos fazer pesquisa de satisfação com os responsáveis e este ano a gente teve um considerável aumento de alunos, em um percentual bem maior do que ano passado. Isso para nós traz o recado de satisfação com o trabalho que vem sendo feito nos últimos anos. Isso tem sido convertido em novas matrículas. Chamo isso de fidelização dos alunos que já estão conosco, porque tão importante quanto receber novos alunos é fidelizar aqueles que já estão conosco. Temos alunos que estão com a gente desde o primeiro aninho do ensino fundamental. Nós tivemos alunos que já se formaram com a gente desde o primeiro ano e ficaram até a terceira série, se formando no Pró-Uni. Então a fidelização é um cuidado que nós temos e, em paralelo, buscando atrair novos alunos.

O Pró-Uni é uma experiência única na cidade, uma cidade grande. Vocês têm sido observados por outros professores de outras cidades, curiosos para saber como funciona o modelo funciona, para se inspirarem? 
Sim. Como nós somos uma cooperativa, nós fazemos parte da Organização de Cooperativas do Brasil, a OCB. E essa OCB sempre promove encontros, e nesses encontros nós acabamos tendo contato também com outros professores e sempre há uma busca mesmo de entender como funciona, como que tem dado certo há 30 anos. Não é simples tocar um negócio e uma cooperativa de professores. Não é uma tarefa simples, mas nós temos sido sim buscados e nós somos vistos aqui como uma referência. A OCB vê a experiência do Pró-Uni como uma referência no interior do Estado.

Você é socióloga, formada pelo Uenf, uma eterna aluna, pois vai fazer doutorado. Existe um eterno coração de estudante em você? 
Sim, existe. E esse coração de estudante, eu vejo que muito motivado, ligado à história de onde eu fui. Como falei, eu fui aluna de uma das primeiras turmas nesse movimento. Me afastei, depois voltei. Foi o tempo da minha formação e voltei como professora e nesse percurso, já como professora daquela escola que eu havia estudado, eu fiz minha especialização, eu fiz o mestrado e agora estou me preparando no pré-projeto para entrar no doutorado pela Uenf.

Você falou em fidelização quase como sinônimo de aprovação. Você tem duas filhas que estudam no Pró-Uni. Fale sobre isso. 
Sim. Sim. As duas filhas. Eu tenho duas filhas que estudam no Pró-Uni. Uma está no quarto ano e a outra no sétimo ano. E as duas eu acompanho muito de perto, como mãe. O que é feito, o que elas estão aprendendo. E as duas estão lá porque eu realmente acredito na proposta da cooperativa, na proposta educacional dos professores que estão envolvidos. Eu entendo, vejo e sinto uma educação dinâmica, emancipatória e que também apresenta preocupação com aspecto científico, com aspecto para preparação, para o curso superior, de uma forma geral.

Para fechar. Como é o processo de atualização do seu corpo docente? Cursos permanentes, o corpo docente está antenado com tudo que está acontecendo?
Sim, duas vezes por ano, quando vai começar o primeiro semestre e quando vai começar o segundo semestre, nós promovemos atualizações internas pedagógicas. Sejam com o sistema de ensino parceiro, seja trazendo mesmo alguém, para trazer atualizações para o nosso dia a dia. E, além disso, nós trazemos atualizações sobre o ramo cooperativista,  para a gente entender que nós somos professores cooperados. Nós somos ali quem está alimentando o nosso próprio negócio. Então, no aspecto de atualização do professor, duas vezes por ano, sempre quando vai começar cada semestre. E em questão da atualização do cooperado, é processo contínuo, porque existem algumas plataformas que a gente utiliza que oferecem cursos o tempo todo, no momento que o cooperado desejar ele pode entrar e conseguir entender melhor o mecanismo do funcionamento de uma cooperativa educacional.