

Este mês é marcado pela campanha Março Amarelo, dedicada à conscientização sobre a endometriose, doença ginecológica que afeta milhões de mulheres e ainda é pouco compreendida pela população. A iniciativa busca ampliar a informação sobre os sintomas, incentivar o diagnóstico precoce e reforçar que dores menstruais intensas não devem ser consideradas algo normal.


Segundo a médica obstetra e ginecologista Maria Eliza Guimarães, a campanha tem papel importante ao dar visibilidade a uma condição que muitas vezes permanece silenciosa por anos. “A endometriose afeta muitas mulheres no mundo e, apesar disso, ainda existe muito desconhecimento. A campanha ajuda a informar e estimular que as mulheres procurem avaliação quando percebem sinais de alerta”, explica.
A doença ocorre quando um tecido semelhante ao que reveste o interior do útero, chamado endométrio, passa a se desenvolver fora dele. Essas células podem se instalar em regiões como ovários, trompas, intestino, bexiga e outras áreas da pelve. Como esse tecido também responde aos hormônios do ciclo menstrual, podem surgir processos inflamatórios, dores intensas e formação de aderências.
Estima-se que cerca de uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva conviva com a doença. Mesmo assim, a endometriose ainda é considerada subdiagnosticada. De acordo com a especialista, isso ocorre porque muitas mulheres acabam normalizando a dor menstrual. “Existe uma cultura de que cólica forte faz parte da vida da mulher. Isso faz com que muitas demorem anos para procurar ajuda. Em média, o diagnóstico pode levar de sete a dez anos para acontecer”, afirma.
Entre os principais sintomas estão cólicas menstruais intensas, dor pélvica crônica, dor durante a relação sexual, alterações intestinais ou urinárias no período menstrual e dificuldade para engravidar. Em alguns casos, também pode haver fadiga intensa. A médica destaca que, quando a dor começa a interferir na rotina, no trabalho ou nos estudos, é importante buscar avaliação médica.
Além do impacto físico, a doença pode comprometer a qualidade de vida e afetar relações pessoais e emocionais. Muitas pacientes relatam dificuldade em manter atividades do dia a dia e enfrentam limitações causadas pela dor frequente.
A endometriose também pode estar associada à infertilidade em alguns casos. A inflamação e as alterações na anatomia da pelve podem dificultar a gravidez. Ainda assim, a especialista ressalta que muitas mulheres com a doença conseguem engravidar com acompanhamento adequado. Ela própria relata viver essa experiência. “Sou portadora da doença e hoje estou grávida da minha segunda filha. Isso mostra que, com diagnóstico e tratamento corretos, a maternidade pode ser possível”, diz.
Diagnóstico
O diagnóstico começa com a avaliação clínica e a escuta da história da paciente. Em seguida, exames de imagem especializados ajudam a identificar e mapear as lesões, como a ultrassonografia com preparo intestinal e a ressonância magnética da pelve.
O tratamento varia conforme cada caso e pode incluir medicamentos hormonais, controle da dor, mudanças no estilo de vida e, em algumas situações, cirurgia. A intervenção cirúrgica costuma ser indicada quando os sintomas são intensos, quando não há resposta ao tratamento clínico ou quando a doença compromete órgãos como intestino e bexiga.
Medidas relacionadas ao estilo de vida também podem contribuir para o controle dos sintomas. Alimentação equilibrada com perfil anti-inflamatório, prática regular de atividade física, controle do estresse e sono de qualidade ajudam a reduzir processos inflamatórios do organismo. Para a médica, o principal recado às mulheres é não ignorar sinais persistentes do próprio corpo. “Dor incapacitante não é normal. Se a cólica interfere na rotina ou impede atividades do dia a dia, é fundamental procurar avaliação especializada. Quanto mais cedo investigarmos, maiores são as chances de melhorar a qualidade de vida”, conclui.