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Complexo Barra do Furado volta à pauta com R$ 900 milhões

Após décadas de promessas, retomada é anunciada, mas moradores do entorno vêem projeto com desconfiança

Geral
Por Nelson Nuffer
1 de março de 2026 - 0h01

A equipe de reportagem do J3News esteve em Barra do Furado, na última quarta-feira (25), para acompanhar de perto a situação do Complexo Logístico e Industrial Farol-Barra do Furado, projeto anunciado há três décadas e que volta ao centro do debate com a confirmação de sua retomada. O cenário encontrado mistura estruturas abandonadas e uma população que aprendeu a conviver com promessas interrompidas, mas que agora volta a alimentar expectativas diante de um novo anúncio.

O impulso atual vem da BR Offshore, holding de investimentos do setor de óleo e gás, que estrutura um projeto com valores estimados em cerca de R$ 900 milhões.

O complexo será instalado em Barra do Furado, localidade cortada pelo Canal das Flechas, canal artificial aberto entre as décadas de 1940 e 1950 para ligar a Lagoa Feia ao mar, permitindo drenagem, pesca e escoamento. Considerada uma das maiores lagoas de água doce do país, a Lagoa Feia sempre dependeu do canal para sua sangria natural, como aborda o professor, escritor e ambientalista, Arthur Soffiati, em seu livro “As Lagoas do Norte Fluminense: contribuição à história de uma luta”, lançado em 2013.

Ainda de acordo com Soffiati, para tentar manter a barra aberta, ao longo das décadas foram construídas duas estruturas conhecidas como molhes, grandes blocos rochosos lançados mar adentro, em projetos iniciados ainda nos anos 1980 pelo antigo Departamento Nacional de Obras de Saneamento (DNOS). O molhe sul fica do lado de Quissamã. O norte pertence a Campos.

Os “mares de pedra” ajudam a reduzir o impacto das ondas e até beneficiam a pesca artesanal, mas, de acordo com relatos de moradores que sobrevivem dessas águas, nunca resolveram definitivamente o problema. Por isso, periodicamente, a barra precisa ser reaberta com dragagens realizadas pelo poder público.

É nesse ponto, onde o canal encontra o mar, avançando para a Lagoa feia, que o Complexo foi projetado.

Descomissionamento e da reciclagem naval
A proposta prevê a ampliação dos molhes,a instalação de estaleiro de reparos de embarcações offshore, base de apoio operacional para barcos que atuam na indústria do petróleo, uma espécie de “condomínio industrial” com operações de serviços e logística, com empresas fornecedoras do setor, terminal alfandegado, heliponto, estação de passageiros, terminal pesqueiro, entre outros. O estaleiro terá capacidade para manutenção de embarcações docadas, enquanto a base permitirá a atracação ao longo do cais, com área coberta para ancoragem dos navios. O projeto deverá ser executado em fases, assim como o projeto inicial.

“O cronograma preliminar do início das obras indica o seu início para o primeiro semestre de 2026, com duração de 24 meses. As licenças ambientais existentes já permitem o início de determinadas obras e deverão ser aditadas com a ampliação das atividades e empreendimentos previstos. O empreendimento da BR Offshore está em fase final de licenciamento e na fase final do projeto de engenharia”, afirmou o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico de Campos, Marcelo Neves.

A reportagem apurou com exclusividade que o lançamento oficial do empreendimento está previsto para o dia 21 de março, quando as autoridades farão o anúncio público do detalhamento do cronograma. A expectativa é de geração de mais de mil empregos diretos e até 1,4 mil indiretos.

O Complexo… complexo
A trajetória do Complexo Industrial é marcada por avanços e interrupções. Em 2006, Campos e Quissamã se uniram para viabilizar a instalação do empreendimento. Em julho de 2010, foi definido um modelo de gestão conjunta entre os municípios. Em setembro do mesmo ano, os prefeitos à época assinaram a ordem de serviço que autorizava o início das obras. Em 15 de fevereiro de 2012, uma cerimônia marcou o começo do estaqueamento do complexo, com a presença de autoridades municipais e estaduais. Em 2014, investimentos federais foram anunciados e a pedra fundamental do estaleiro foi lançada. No entanto, ainda naquele ano, as obras foram paralisadas pelo consórcio responsável, formado por grandes empreiteiras, e nunca mais retomadas.

Parte dessas estruturas abandonadas virou ponto turístico. Atualmente, é possível ver a construção do píer (onde moradores se arriscam mergulhando ou na pesca) e blocos de concreto conhecidos como “pé de galinha”, utilizados para estabilizar fundações e atuar como quebra-mares. E o que antes era o canteiro de obras, se transformou em, pelo menos, duas residências improvisadas, com luz elétrica ligada de forma clandestina na rede, televisão, geladeira, cama e até animais de estimação.

A reportagem registrou ainda a preocupação dos moradores com os impactos diretos e indiretos. Segundo relatos, antes do início da obra, em 2012, representantes das empresas envolvidas avisaram que o projeto tiraria os moradores do quarteirão depois da Creche de Barra do Furado (na esquina com a Rua José de Paula e Avenida Atlêntica), até o molhe de Quissamã, e que haveria uma proposta de compra das casas. Os bosques de mangue da margem direita e esquerda do Canal das Flechas e o de São Miguel, assim como a Ponta da Barra, também seriam afetados.

Manoel Louranço Rangel

Expectativa e descrença
A paralisação e expectativa de significativa mudança vai deixando marcas na comunidade local. O pescador Manoel Lourenço Rangel, de 57 anos, morador da localidade desde criança, resume o sentimento de parte da comunidade. “Eu, sinceramente, só acredito vendo. Se eles quisessem fazer, isso já estava feito. Nossa esperança era que a obra, que foi prometida, viesse um terminal pesqueiro bom, que aí resolveria de vez nosso problema. Mas não acredito que saia, não. Tudo o que fizeram ali já acabou com o tempo. O problema agora é tirar a gente daqui. A gente se preocupa bastante”, disse.

Outro morador, que preferiu não se identificar, foi ainda mais crítico ao lembrar do histórico do empreendimento. “Isso aqui rolou foi muito dinheiro no bolso dos políticos na época. A empresa que estava à frente tinha ligação com escândalos, e por aí você vê. A gente sofre muito. É muita coisa errada que infelizmente não podemos fazer nada. Só esperar. Acho que vou morrer e esses lixos da obra vão continuar aí jogados”, disse.

Liete Cordeiro Reis

A comerciante Liete Cordeiro Reis, de 81 anos, dona de um restaurante em frente ao antigo canteiro de obras, acompanhou de perto o auge e o abandono do projeto. Em 2017, ela contou ao J3News que chegou a vender cerca de 120 refeições por dia no período em que as empresas atuavam no local.

Em nova conversa com a reportagem, em 2026, Liete voltou a falar sobre a retomada anunciada. “Eu não sei agora se eles vão retornar alguma coisa mesmo. Até agora está tudo parado. Às vezes vem alguém aqui, conversa com a gente, fala que a obra vai sair, pra gente se organizar para fornecer um número maior de alimentação, porque realmente aumenta o movimento. O ruim é que começa e não termina. Mas eu acredito que agora vai, pelo que o pessoal esteve aqui e falou”, afirmou.

Visita técnica
No último domingo (22), os prefeitos Wladimir Garotinho (Campos) e Marcelo Batista (Quissamã) estiveram juntos para uma visita técnica ao local. Os dois anunciaram apoio institucional ao empreendimento e destacaram a importância da integração entre os municípios para viabilizar o projeto.

Semana passada|Wladimir e Marcelo Batista estiveram no Complexo (Foto: Secom/Quissamã)