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Janeiro Branco reforça que depressão pode ser vencida

Histórias de superação ajudam a romper o silêncio sobre importância da saúde mental

Especial J3
Por Leonardo Pedrosa
25 de janeiro de 2026 - 0h01
Esperança|Reportagem traz histórias de pessoas que conseguiram superar a depressão (Fotos: Silvana Rust)

Durante muito tempo, Maressa Azevedo, de 26 anos, acordava sem entender por que o peso do dia parecia maior do que ela conseguia carregar. Faltava força. Atividades que antes davam prazer deixaram de existir. Tudo aconteceu rápido e em silêncio.

“O início da minha depressão foi em 2017 e, no começo, era tudo muito confuso. Por incrível que pareça, meu marido achava que eu estava de TPM. Só que os sentimentos começaram a se repetir. Eu não conseguia ir para a escola, não comia, perdia provas e trabalhos importantes porque não tinha forças para levantar da cama. O mundo parou de ter cor, e a tristeza foi tomando conta de tudo, relata Maressa.

Com o tempo, o sofrimento se aprofundou. O que parecia apenas cansaço virou ausência, isolamento e pensamentos que assustavam. “Foi tudo muito rápido. A tristeza chegou a um ponto em que comecei a pensar em tirar a minha própria vida”, conta.

Quando a dor não cabe nas expectativas
A depressão também chegou de forma silenciosa para Paula Janaína de Souza, de 53 anos, logo após o nascimento do filho, que era muito desejado. O que ela esperava ser um período de plenitude virou frustração, medo e insegurança.

“O início da minha depressão foi logo depois que eu tive meu filho. Eu esperei muito por ele e achava que seria aquela super-mãe. Mas isso não aconteceu. Depois que ele fez um ano, comecei a ter medo de ficar sozinha com ele dentro de casa, insegurança, e deixei de ser aquela mãe presente que eu imaginava”, conta.

Os sintomas se acumularam e passaram a se manifestar fisicamente. “Comecei a sentir muito enjoo, não conseguia comer, tinha medo de passar mal. Fiz vários exames e não dava nada. Até que minha mãe disse: você já foi a todos os médicos, vamos procurar um psiquiatra”, lembra.

“Quando ela falou isso, bateu muito medo. Existe um preconceito enorme. No trabalho, na sociedade, as pessoas acham que é frescura, fingimento. Mas eu aceitei procurar ajuda’, completa Paula.

As histórias de Maressa e Paula não são casos isolados. Elas refletem uma realidade que atinge milhões de brasileiros e que, em janeiro, ganha visibilidade com a campanha Janeiro Branco, voltada à conscientização sobre a saúde mental.

Depressão, ansiedade e transtorno bipolar estão entre os quadros mais comuns e, muitas vezes, convivem entre si, dificultando o diagnóstico e prolongando o sofrimento. Silenciosas, essas doenças afetam o humor, o comportamento, a rotina e as relações, além do peso do preconceito, que ainda afasta muitas pessoas do tratamento.

Dados do Ministério da Saúde mostram que o Brasil lidera o ranking mundial de transtornos de ansiedade. São 9,3% da população afetada, cerca de 18 milhões de brasileiros.

Na prática clínica, essa realidade também é percebida em Campos. O psiquiatra Cláudio Teixeira afirma que o número de pessoas que chegam ao consultório em sofrimento avançado tem aumentado.

Dr. Cláudio Teixeira

“Na minha prática, é muito nítido o crescimento de pacientes que passam meses ou até anos tentando lidar sozinhos com o que acreditam ser apenas estresse ou cansaço. Quando chegam para o atendimento, o sofrimento já está instalado e a qualidade de vida bastante comprometida”, explica.

Segundo o médico, os sinais costumam ser ignorados. “Preocupação constante, alteração do sono, cansaço excessivo, irritabilidade e dificuldade de concentração são sintomas comuns. Muitas pessoas ainda apresentam sintomas físicos, como taquicardia, falta de ar e dores no peito, e passam por vários médicos antes de entender que o problema é emocional”, detalha.

Do sofrimento à recuperação
Com Maressa, o reconhecimento veio a partir de quem estava ao lado. Na igreja, ao ouvir uma fala sobre suicídio, ela se deu conta da própria fragilidade.

“Quando o pastor falou sobre suicídio, eu automaticamente olhei para o meu pulso. Meu marido percebeu e disse: ‘Por favor, não. Hoje isso vai acabar’. O pastor foi até minha casa, sentou com meus pais e pediu que me levassem ao psicólogo o mais rápido possível”, lembra.

O caminho não foi simples. Houve recaídas e trocas de profissionais, mas o acompanhamento fez diferença. “Hoje eu sei lidar melhor com meus sentimentos. Aprendi a reconhecer meus limites e a respeitá-los. Voltei a fazer o que gosto, a me cuidar, a sair, a rir e a entender que essa tempestade não dura para sempre, afirma.

Em Paula, o tratamento também exigiu persistência. “Chega um tempo que você acha que está curada e para o tratamento. É aí que você cai. Vai para o fundo do poço, não vê saída nenhuma. Vieram a ansiedade e o pânico, e eu perdi totalmente a noção da minha vida”, relata.

Aos poucos, com medicação, psicoterapia e apoio familiar, o quadro foi se estabilizando. “Hoje eu consigo sair sozinha, viajar e fazer minhas coisas. Minhas consultas agora são de seis em seis meses. Graças a Deus e ao tratamento, hoje eu estou bem”, diz.

Drª Lana Maria

Nem quem cuida está imune
Em entrevista ao Manhã J3News, na J3 TV, a psiquiatra Lana Maria reforçou que transtornos mentais têm tratamento e que buscar ajuda é um avanço importante das gerações atuais. Ela também viveu o luto pela morte do irmão. “Mesmo sendo profissional, eu normalizei o sofrimento. Não percebi o quanto aquilo estava me afetando. Meu corpo começou a adoecer, e eu não ligava uma coisa à outra”, relata.

“Se eu minimizei algo tão sério, imagina quem não tem informação. Não existe tratamento de transtorno mental sem terapia. A gente precisa parar de normalizar o sofrimento excessivo”, completa.

Rede pública e desafios
Lana reconhece o empenho das equipes de saúde, mas aponta limitações. “O CAPS é o recurso que existe hoje. Há profissionais excelentes, mas para uma cidade como Campos seria preciso ampliar o número de psicólogos para atender à demanda”, afirma.

A Secretaria Municipal de Saúde informa que o município conta com cinco Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), incluindo unidades para adultos, crianças e adolescentes e para pessoas com problemas relacionados ao uso de álcool e drogas. Os CAPS funcionam de forma territorializada, sendo os do tipo III com atendimento 24 horas. Segundo o órgão, também há o Ambulatório Ampliado de Saúde Mental para casos leves a moderados.

Dados da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro dimensionam a gravidade do cenário. Entre 2023 e 2025, mais de 169 mil atendimentos relacionados à saúde mental foram registrados nas UPAs estaduais, com crescimento ano a ano. Ansiedade, pânico, insônia e estresse pós-traumático lideram as queixas, especialmente entre mulheres de 20 a 29 anos.